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Quinta-feira, 18 de Agosto, 2022
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      Início Opinião A vida adiada

      A vida adiada

       

      Ao fim de mais de dois anos de pandemia, mesmo com o generalizado regresso à normalidade permitido pela vacinação e por uma variante menos severa do coronavírus, adiamentos e cancelamentos são ainda quotidianos. Sobretudo a Oriente, onde a vida continua a ser protelada sem data futura. E em poucos sítios como em Macau, fechada ao exterior desde o início de 2020.

      Tornou-se comum a quietude no centro de uma cidade onde a vozearia e o bulício se fizeram fundações, mais do que cenário; parecia que tudo se sustinha nesse zumbido ondeante, flutuando como um enxame ao sabor de um apelo constante e indecifrável, misterioso. A estranheza do silêncio que veio depois, tomando o lugar da vida íntima da cidade, acabou por se entranhar. A fantasmagoria e a tristeza, de início assoberbadas pelo medo, foram sendo substituídas pela familiaridade e pela indiferença.

      Tudo mais surreal porque Macau já não é a cidadezinha bucólica e sossegada que atraía visitantes desejosos de retemperadores passeios embalados pela brisa suave da Praia Grande, nem tão pouco a cidadezinha subdesenvolvida e abatida, ao lado da qual passava a modernidade. Mas há memória desse estupor algures entre a paz e o marasmo, ciclicamente avivada quando se aproxima sobre Macau a atmosfera de tempos mais negros.

      À entrada do século XX, a cidade atravessava uma dessas fases pardacentas. Tudo parecia correr mal. Ou não corria, de todo. A cada dia, tornava-se mais manifesta a decadência de um outrora próspero empório comercial, agora ofuscado pela sombra ampliada de Hong Kong. Como se não bastasse ver navios dirigirem-se, um a um, para o moderno porto da cidade vizinha, enquanto o de Macau assoreava, também a peste bubónica fazia os seus estragos.

      O foco da doença surgido em Yunan, em 1894, espalhara-se para Cantão e Hong Kong. No ano seguinte, apareceu em Macau, alastrou para a Formosa e, para o outro lado, até à Índia, dali prosseguindo para a Europa; em 1899, chegou ao Porto.

      Deste mal não se livrou Macau tão cedo. Durante vinte anos, de 1895 até 1915, a peste foi endémica na cidade. Uma das “exacerbações epidémicas”, como designa o enciclopédico P. J. Peregrino da Costa, autor de “Medicina Portuguesa no Extremo-Oriente” (Boletim Vasco da Gama n.º 63, 1948), ocorreu em 1898, quando a doença matou 594 pessoas.

      Em meados daquele ano, a peste parecia dar sinais de abrandar, mas já não a tempo de permitir a pompa de uma celebração que muito se antecipava, pois não era todos os dias que passavam 400 anos desde a descoberta do caminho marítimo para a Índia.

      “Outros povos vieram depois. Melhor souberam aproveitar as riquezas que nós lhes mostrámos; mas a glória de que fomos nós que lhes ensinámos o caminho registou-a a história nas suas páginas d’ouro”, lê-se no “Jornal Único” alusivo à data publicado em Macau a 20 de Maio de 1898.

      O dia era para ter sido de festa. “A cidade de Macau, este padrão do génio empreendedor dos antigos portugueses”, escrevia o Echo Macaense a 22 de Maio daquele ano, “ansiava por manifestar os seus sentimentos de patriotismo e de solidariedade nacional, comemorando faustosamente esse célebre facto histórico; mas, infelizmente, uma calamidade terrível – a peste bubónica – invadiu esta cidade, fazendo pairar sobre a cabeça de cada cidadão uma espada de Dâmocles, sempre ameaçadora”. Lamentava-se, por isso, que se tornara “impossível a expansão ruidosa de regozijo”; admiração a Vasco da Gama só mesmo “em demonstrações singelas, modestas, mas nem por isso menos sinceras e patrióticas”.

      Parecia difícil a Macau, então, deixar o seu ar taciturno, e uma certa tendência para se isolar. Nem nas páginas laudatórias do engalanado “Jornal Único” – garbosa edição, profusamente ilustrada e com textos em português e chinês –, se encobria um ambiente mais propício a certas contemplações macambúzias.

      “Nota-se em toda a parte um sossego, uma calmaria e a mais absoluta quietação, como não se vêm em nenhum dos portos nossos vizinhos”, lia-se num artigo assinado por A. Basto. “Fora desta cidade é tudo reboliço e actividade; sente-se a vida. Aqui, respiram-se os ares de um domingo eterno das terras da província, entrecortados pelos sons do bronze e da ressaca compassada das praias. Parece uma cidade de sinecuristas, criada pela imaginação de Swift, vagueando no ar e obedecendo a leis magnéticas desconhecidas”.

      Três séculos tinham passado desde os “feitos heroicos dos briosos navegadores”, escrevia o articulista, notando que a cidade, “não obstante estar vinculada” a esse passado, “vê-se anémica e sem forças para se robustecer”. Nem a ideia de uma festa, uma celebração patriótica, animava o espírito. “É triste termos de falar assim”. Mas era “franqueza”, afiançava; “Macau está quase perdida”.

      Mais uma vez. Outros tempos aguardavam.

       

      Hugo Pinto

      Jornalista