Conhecido pelos seus diários de viagem autobiográficos, no formato de novela gráfica, Guy Delisle, autor de livros como “Shenzhen” e “Pyongyang”, revela que, entre todas as viagens que fez, talvez a Coreia do Norte tenha sido o destino mais impactante por estar, em 2001, “quase esquecido”.
Quando chegou a Pyongyang, pediram-lhe para pegar numa flor e colocá-la aos pés da estátua de Kim Jong-il, o líder do país em 2001. Percebeu logo que ali estava reunido o potencial para uma grande história. “Sempre me senti fascinado pela Coreia do Norte”, revelou, na sessão que aconteceu na Casa Garden, no dia 6 de Março, integrada no Festival Literário de Macau.
Natural do Canadá, Guy Delisle trabalhou em diferentes estúdios de animação, passando por países como França, Alemanha, China e Coreia do Norte. Foi depois das experiências na Ásia que começou a escrever e ilustrar diários de viagem, dedicando-se então mais à banda desenhada. A jornalista Sara Figueiredo Costa, que se encontrava a moderar a sessão, perguntou se havia pontos de contacto entre os dois géneros. Em resposta, o autor rejeita essa possibilidade, defendendo que a animação acaba por estar mais presa ao formato da televisão e ao público infantil, ao passo que a “a banda desenhada é muito mais aberta e livre”.
Os quatro diários de viagem publicados, “Shenzhen”, “Pyongyang”, “Crónicas da Birmânia” e “Crónicas de Jerusalém”, são, na verdade, postais para a família? Muitas vezes confundido com um jornalista, por passar grande parte destas viagens a tirar notas, Guy Delisle admite que estes livros passam um pouco a sensação de serem quase postais para a família.
Uma fábrica, um sequestro e a parentalidade
Em “Verões na Fábrica”, Guy Delisle conta o período “duro” em que trabalhou na fábrica onde o pai trabalhava, enquanto em “Refém” o autor retrata o sequestro de Christophe André, um trabalhador humanitário, na região do Cáucaso, em 1997. “Esteve sequestrado por três meses e, devido a um erro dos seus sequestradores, conseguiu fugir”, conta. Inspirado pela história, afirma que “foi difícil”, mas “desafiante”, construindo uma novela gráfica onde descreve o que sentiu uma pessoa nos 300 dias em que esteve preso num quarto, acabando por fugir, depois de os seus sequestradores se terem esquecido de algemá-lo, deixando a porta aberta. “O que é que eu faria, se estivesse naquela situação? Abriria a porta?”.
Por outro lado, na série de bandas desenhadas que publicou sobre a parentalidade, Guy Delisle pega na sua própria experiência e ilustra-a com humor.
Sobre se a sua passagem por Macau poderia ser fonte de um novo diário de viagem, Guy Delisle afirma ser difícil, por se encontrar pouco tempo no território. “Precisaria de cá ficar muito mais tempo”, diz, garantindo que, apenas depois de se encontrar entre três a seis meses num sítio, se sente capaz de escrever sobre ele.













