A delegação chinesa liderada pelo Presidente Xi Jinping na Cimeira da APEC em Busan e o seu encontro com o Presidente dos EUA, Donald Trump, ilustraram não só a implementação da diplomacia de grande potência da China, mas também a política externa chinesa assertiva e positiva, com importantes implicações para a política internacional em geral e para a segurança asiática em particular.
Em primeiro lugar, o encontro entre o Presidente Xi e o Presidente Trump resultou numa trégua temporária entre os dois lados. Enquanto a China concordou em comprar soja e outros produtos agrícolas aos EUA e em controlar o fluxo de fentanil para os EUA, o lado americano decidiu congelar as tarifas recíprocas de 24% sobre os produtos chineses durante um ano e reduzir as tarifas relacionadas com o fentanil de 20% para 10%. Além disso, a China decidiu suspender o seu controlo sobre a exportação de terras raras durante um ano, enquanto os EUA suspenderam temporariamente as investigações da Secção 301 sobre assuntos marítimos, logística e indústria naval da China durante um ano. A China concordou em iniciar o processo de compra de energia e gás natural do Alasca, enquanto os EUA congelaram o seu controlo das exportações para a China durante um ano. Trata-se de uma trégua breve, uma vez que ambos os lados procuram mais tempo.
Embora a notícia tenha sido recebida positivamente pelos agricultores americanos, os mercados bolsistas internacionais não reagiram com entusiasmo à aproximação temporária nas relações EUA-China. Muitos investidores em todo o mundo estão provavelmente já conscientes da instabilidade da política externa norte-americana, marcada pela utilização de tarifas recíprocas desde o segundo mandato de Trump.
A administração Trump reivindica uma vitória, mas, na verdade, trata-se de uma vitória de Pirro, dado que o soft power dos EUA tem vindo a decair rapidamente após o uso intimidatório e preocupante de tarifas recíprocas. Enquanto Donald Trump parecia discursar incessantemente e abraçar Xi Jinping em aparições públicas, o presidente Xi demonstrava frieza e sorria de forma educada, mas muito mais reservada – um indício de que o lado chinês estava bastante insatisfeito com as ações americanas desde a segunda vitória presidencial de Trump. O Presidente Xi Jinping afirmou abertamente ao Presidente Trump, durante as negociações, que ambos os lados deveriam seguir uma direção positiva, apesar das divergências diplomáticas entre os dois países. O tom positivo do presidente chinês foi evidente, mas a política externa da China tem sido marcada pela assertividade – um forte elemento que reflecte o facto de a China contemporânea ser afectada pelo longo legado histórico da decadente e frágil dinastia Qing, e que a China sob Xi Jinping está empenhada em evitar ser vista como um Estado fraco em relação aos EUA. De facto, as concessões feitas tanto pela China como pelos EUA provam que a República Popular da China (RPC) já se tornou uma grande potência, em pé de igualdade com os Estados Unidos, demonstrando confiança, assertividade e positividade à mesa das negociações – um fenómeno notável na era da política internacional, em que os EUA projectam uma imagem de hegemonia e de defesa do unilateralismo, e a China se mostra ansiosa por se opor ao hegemonismo e apoiar o multilateralismo. A China já não é o “homem doente da Ásia”, como era durante a dinastia Qing, e, como tal, os EUA e outros países precisam de compreender os fundamentos históricos da actual política externa assertiva da China.
Em segundo lugar, a diplomacia de grande potência da China é claramente moldada pela ênfase no multilateralismo, como demonstrado pelo discurso do Presidente Xi na reunião da APEC, num ambiente económico aberto, na estabilidade da cadeia de abastecimento global e no desenvolvimento mutuamente favorável. Uma leitura mais atenta destas ênfases aponta para o empenho da China em manter uma ordem mundial economicamente liberal e uma cadeia de abastecimento estável. Isto significa que Pequim apoia uma ordem económica liberalizada e atribui importância a um mundo baseado em regras, ao contrário da postura explicitamente auto-protectora demonstrada pela administração Trump 2.0. A manutenção de uma cadeia de abastecimento global estável implica que a recente tentativa da China de controlar a exportação de terras raras foi, na verdade, uma abordagem autodefensiva, e não ofensiva, como descrito pelos críticos mais linha-dura da China, em resposta às tentativas dos EUA de utilizar tarifas recíprocas para coagir outros países a fazer concessões económicas substanciais.
Em terceiro lugar, no meio da asserção política externa da China, encontramos o ingrediente da positividade. A positividade significa que, apesar das perceções e ideias erradas de outros países sobre Pequim, os líderes e negociadores chineses têm sido “firmes”, nas palavras de Trump, e ainda assim positivos na procura de soluções. Foi relatado que o lado chinês mencionou a questão de Taiwan e que o Japão deveria ter uma “compreensão correta” da posição da China sobre a história e Taiwan (Sing Tao Daily, 1 de novembro de 2025). O Japão, sob a nova primeira-ministra, Sanae Takaichi, também levantou as questões das Ilhas Senkaku (Ilhas Diaoyu em chinês), das terras raras e da exportação de produtos agrícolas japoneses para a China. Claramente, tanto a China como o Japão expuseram as suas posições na reunião relativamente breve de 30 minutos. A atitude positiva do lado chinês pode ser vista na forma como as suas declarações diplomáticas foram feitas e na forma como expressou à outra parte negociadora a necessidade de “compreender” a posição de Pequim. Assim, a assertividade e a positividade são os dois pilares da política externa chinesa na era do Presidente Xi Jinping.
De forma semelhante, esta assertividade e positividade podem ser observadas simultaneamente no encontro do Ministro da Defesa chinês, Dong Jun, com o seu homólogo americano, Pete Hegseth, na Malásia, no dia 31 de Outubro. Enquanto os EUA expressaram as suas preocupações com a movimentação militar chinesa no Mar do Sul da China e no Estreito de Taiwan, a China reiterou que os EUA deveriam tomar medidas concretas para não conter a China e que não procuram conflitos (South China Morning Post, 25 de novembro de 2025). A percepção dos Estados Unidos de uma China “agressiva” é compreensível; no entanto, pode não compreender totalmente as visões tradicionais chinesas sobre a soberania — uma perspectiva profundamente enraizada na história da China, que antecede até a dinastia Qing.
Em quarto lugar, a ascensão da China e a sua política externa assertiva e positiva beneficiaram Hong Kong. O Chefe do Executivo de Hong Kong, John Lee, foi visto sentado ao lado do Presidente Xi Jinping e reuniu-se com os líderes asiáticos, projetando uma imagem eficaz de “um país, dois sistemas”, ao abrigo da qual a Região Administrativa Especial de Hong Kong (RAEHK) é capacitada pelo governo central em Pequim para conduzir os seus próprios assuntos externos. John Lee reuniu-se com o Primeiro-Ministro de Singapura, Lawrence Wong, expressando a opinião de que a RAEHK está bem preparada para a sua entrada no RCEP e que as empresas de Singapura podem investir na Metrópole do Norte. O Chefe do Executivo de Hong Kong reuniu-se também com o Príncipe Herdeiro de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, Sheikh Zayed Al Nahyan, afirmando que o regime fiscal simples e favorável de Hong Kong pode proporcionar um bom ambiente de negócios para o capital e as empresas dos Emirados Árabes Unidos e do Médio Oriente investirem na Zona de Cooperação em Inovação Científica e Tecnológica Hetao Shenzhen-Hong Kong (Notícias do Governo de Hong Kong, 31 de outubro de 2025). Claramente, a RAEHK tem beneficiado não só do princípio “um país, dois sistemas”, mas também da protecção da diplomacia assertiva e, ao mesmo tempo, positiva da China, enquanto grande potência.
Em quinto lugar, a ênfase da China na manutenção de uma ordem económica liberal no mundo e na Ásia tem importantes implicações para a segurança global e asiática. Globalmente, a China espera a continuidade do regime comercial liberal e multilateral, enfatizando o desenvolvimento sustentável e a paz mundial. Regionalmente, a China está ansiosa por ajudar a criar uma zona de comércio livre regional na ASEAN e explorar a possibilidade de desenvolver uma zona de comércio livre trilateral entre a China, o Japão e a Coreia do Sul. A criação de uma zona de comércio livre com a ASEAN poderá e irá certamente beneficiar mais países asiáticos, enquanto o desenvolvimento de qualquer bloco de comércio livre composto pela China, Japão e Coreia do Sul terá provavelmente uma função estabilizadora na manutenção da paz no Nordeste Asiático, onde a Coreia do Norte tem observado com cautela o desenrolar da Cimeira da APEC. A Coreia do Norte pode não estar muito satisfeita com a participação activa da China na Cimeira da APEC na Coreia do Sul, e os seus testes de mísseis antes da chegada de Donald Trump à Coreia do Sul pareceram ser um gesto para demonstrar a sua força militar. Assim, um bloco económico composto pela China, Japão e Coreia do Sul pode e será uma medida pragmática que provavelmente atrairá a participação da Coreia do Norte eventualmente, especialmente se Trump estiver disposto a intervir como intermediário entre as Coreias. O Japão considera a Coreia do Norte uma verdadeira ameaça militar. Por conseguinte, a administração Trump terá de reabrir o diálogo com Kim Jong-un, da Coreia do Norte, para uma discussão aprofundada sobre o desenvolvimento da energia nuclear de Pyongyang em troca de inspeções e fiscalização internacionais das instalações nucleares. Até lá, se a zona de comércio livre entre a China, o Japão e a Coreia do Sul ganhar força, isso dará a Trump mais “moedas de troca” para conversar com Kim Jong-un de forma mais produtiva. Em síntese, o esforço da China para manter blocos regionais de comércio livre no Sudeste e Nordeste Asiático pode e irá contribuir para o desenvolvimento do pragmatismo económico e da segurança regional.
É evidente que a ascensão pacífica da China enfrenta enormes desafios. Aqueles que não compreendem plenamente a história chinesa são vulneráveis à perceção errada de que a China é um país “agressivo” que ameaça a segurança e os interesses económicos do Ocidente. Esta perceção errada é muito comum e leva tempo para que os céticos e críticos da China estudem e compreendam como as fragilidades da dinastia Qing impactaram o ímpeto da República Popular da China para a modernização económica e militar, e como a China sob a era Xi Jinping considerou a assertividade e a positividade como os dois pilares de uma política externa chinesa eficaz e respeitável num mundo turbulento, marcado por mudanças repentinas na política externa dos EUA, hegemonismo, conflitos regionais e profunda desconfiança. Afinal, a política externa chinesa foi reformulada, revitalizada e readaptada de uma forma que é essencialmente autodefensiva, mas também responsiva à drástica mudança na política externa dos EUA, que passou a utilizar tarifas recíprocas como forma de obter concessões de aliados e inimigos de Washington.
Os EUA têm visto a China cada vez mais como uma ameaça à segurança nacional, especialmente pela forma ousada como a China tem tentado utilizar o controlo dos minerais de terras raras para contrabalançar as tarifas recíprocas americanas. Os EUA iniciaram uma busca por mais fontes de terras raras através da sua aliança no G7, do seu acordo com a Ucrânia, das suas relações harmoniosas com a Austrália e das suas relações diplomáticas com a Malásia, Tailândia, Canadá e Brasil. Os EUA estariam também a colaborar com membros da Parceria para a Segurança Mineral, que inclui países como a Finlândia, França, Alemanha, Itália, Suécia, Noruega e Reino Unido, para garantir e diversificar as cadeias de abastecimento de minerais de terras raras. Levará tempo para que os EUA reduzam a sua dependência da China em relação a estes minerais. No entanto, o encontro entre Trump e Xi na Coreia do Sul já evidenciou que a China não hesitou em utilizar o controlo das exportações de terras raras como resposta à utilização de tarifas recíprocas por parte de Washington como mecanismo coercivo para negociar concessões. Em suma, os EUA não devem esperar que a China regresse à era da frágil dinastia Qing.
Em conclusão, a forma como a China se comportou na Cimeira da APEC e no encontro Xi-Trump na Coreia do Sul demonstrou que a assertividade e a positividade são os dois pilares da diplomacia chinesa enquanto grande potência. A assertividade e a positividade são, sem dúvida, a essência da política externa chinesa. A China não hesita em afirmar a sua posição sobre questões que considera fundamentais para a segurança nacional, a soberania e os interesses de desenvolvimento. Ao mesmo tempo, quando a China se depara com outros países, incluindo vizinhos como o Japão, em questões com divergências fundamentais, os seus líderes e diplomatas adoptam uma postura positiva, na esperança de que os outros países possam realmente compreender a perspectiva chinesa e que todas as partes explorem sinceramente formas de conduzir as suas diferenças para um caminho pacífico através do diálogo, das discussões e da procura de soluções. Nesta perspectiva chinesa, as contradições são frequentemente vistas como naturais, como disse o Presidente Xi ao Presidente Trump no início das negociações em Busan, e o desafio reside na forma como a China e outros países com posições e opiniões divergentes podem concordar em discordar, construir confiança mútua e trilhar o caminho do desenvolvimento pacífico numa situação vantajosa para ambos os lados.











