Regina Duarte, comissária do Plano Nacional de Leitura (entidade do Governo de Portugal que tem como missão implementar e desenvolver políticas de leitura pública na área da formação de leitores), veio a Macau dar o curso “Como ler e porquê?”, na Escola Portuguesa de Macau (EPM), uma iniciativa que pretende fomentar hábitos de leitura e passar estratégias para apreender melhor o que se lê. No cargo desde 2022, a comissária defende a implementação de estratégias concretas para melhorar os níveis de literacia e os hábitos de leitura dos portugueses, como os clubes de leitura e o emparelhamento livro-leitor. Sobre a reestruturação de que o Plano Nacional de Leitura está a ser alvo, a comissária mostra-se optimista e acredita que as acções do projecto vão continuar a realizar-se “de forma igual ou até melhor”.
Exerce o cargo de comissária do Plano Nacional de Leitura desde Setembro de 2022. Que balanço faz destes três anos?
Estes primeiros três anos foram muito desafiantes de forma muito positiva. Eu herdei um Plano Nacional de Leitura já com muito trabalho feito, com muita actividade em muitos sectores, portanto foi mais fácil para mim pegar num trabalho que já tinha muita qualidade, que já estava consolidado e que era muito respeitado, e dar-lhe uma orientação mais sistemática, mais estruturada, com mais avaliação de impacto. É mais fácil pegar num projecto sólido e de qualidade do que fazer tudo de novo. Nestes três anos a minha preocupação foi sobretudo que houvesse uma visão estratégica, que não houvesse apenas um acumular de acções, mas que as acções fossem pensadas em função de dois grandes objectivos: contribuir para melhorar os níveis de literacia da população portuguesa e melhorar os hábitos de leitura. São dois objectivos muito ambiciosos. Em três anos não consegui isso, mas os passos que demos nesse sentido foram muito positivos.
Quais têm sido os maiores desafios?
Para além dos financeiros, que esses são transversais à sociedade portuguesa, é conseguir que a sociedade toda perceba que isto tem de ser uma missão partilhada. Não se consegue mudar uma prática cultural apenas a partir das escolas ou apenas a partir das bibliotecas, tem de ser uma prática das comunidades, das famílias, das empresas. Todos têm de participar e era importante que as pessoas sentissem esta responsabilidade, que todos são mediadores de leitura e que todos têm de contribuir para que se leia mais em Portugal.
O Plano Nacional de Leitura tem um grande foco nas crianças e jovens. Tem sido fácil motivar estas faixas etárias para a leitura, numa altura em que as redes sociais estão mais presentes que nunca? Ou, pelo contrário, as redes sociais ajudam a promover a leitura?
De facto, a leitura precisa de um tempo lento e os jovens estão muito habituados a actividades de compensação muito rápida em que tudo acontece muito depressa, em que o estímulo e a gratificação são muito rápidos. A leitura não funciona assim, a leitura é um investimento lento. Competimos com esses meios que dão mais gratificação imediata. Por outro lado, e de uma forma bastante inesperada, foram estes meios que começaram a contribuir para se falar mais de leitura entre os jovens. Há um ‘boom’ enorme de conteúdos sobre leitura no TikTok, ninguém estava à espera. Há muitos jovens a falar daquilo que lêem, com muito gosto em partilhar as suas leituras, e há muitos jovens que chegaram à leitura por via desses conteúdos, o que é muito interessante. Isto é sinal de que a leitura continua a ter um papel central na nossa sociedade e vai encontrando sempre o seu lugar.

As outras camadas etárias têm mais interesse na leitura?
Neste momento, há mais jovens a ler do que pessoas mais velhas. A faixa entre os 15 e 35 anos lê mais e depois a partir dos 35 lê-se menos. Estas partilhas nas redes sociais motivaram os jovens para ler mais. A população mais velha está mais afastada da leitura e não é tão fácil motivá-los. Nós temos tentado fazer alguns planos, como grupos de leitura com autores, para ver se conseguimos trazer estas pessoas de volta à leitura.
Que ferramentas é que são mais eficazes para conseguir isso?
Há duas ferramentas muito importantes. Uma delas é a questão das comunidades. A leitura inicialmente funcionava em comunidade, era uma forma de organização social, nós perdemos esse papel. A partir do momento em que tivemos livros disponíveis para cada um de nós passámos a ler isoladamente e criou-se a imagem romântica do leitor sozinho e em silêncio. Mas há um papel de comunidade e de socialização da leitura que é muito importante. Quem gosta de ler gosta de falar daquilo que lê. Os clubes de leitura funcionam muito bem nesse sentido. Nós não sobrevivemos sozinhos e podemos constituir uma comunidade em torno deste interesse partilhado que são os livros. Os clubes de leitura são uma boa estratégia e em Portugal finalmente chegou a moda. Nos países anglo-saxónicos isso já acontecia há muito tempo e agora chegou a Portugal e ainda bem. Em Macau, a Associação dos Amigos do Livro tem o seu clube de leitura, portanto, fico contente por saber que isso também está a acontecer aqui. A outra forma é haver muitas sugestões de leitura disponíveis. As pessoas que não têm hábitos de leitura não sabem necessariamente encontrar aquele livro que vai criar uma relação com a leitura e podem ter experiências muito frustrantes. Nós, como leitores, às vezes temos uma atitude um bocadinho egoísta em que gostamos muito de um livro e queremos que as outras pessoas leiam, sem pensar se aquele livro é o adequado para a outra pessoa. Há um ‘match’ que tem de ser feito entre o livro e o leitor. Nós fazemos muito isso em feiras do livro e festivais literários. O Plano Nacional de Leitura criou um modelo que é o Consultório de Leitura e que funciona muito bem. Perguntamos às pessoas que interesses é que elas têm, que tipo de filmes gostam de ver, que assuntos lhes interessam. A partir das respostas conseguimos encontrar o tipo de livros adequados. Nós tentamos fazer esse encontro entre o leitor e o livro. Se a pessoa ler um livro que de facto tem muito a ver consigo, com a sua experiência e com a sua necessidade naquele momento, vai querer repetir a experiência.
Um estudo da OCDE indicou recentemente que 42% da população portuguesa tem um nível muito baixo de literacia. Estes resultados são desanimadores?
Não são desanimadores, é a realidade e nós temos de trabalhar com a realidade. Em meados do século XX, apenas 55% da população portuguesa era alfabetizada. Na mesma altura, na maior parte da Europa, 98% da população era alfabetizada. Nós temos esta diferença e estamos a recuperar, mas este atraso vai continuar a sentir-se por algum tempo. Por outro lado, também temos uma tradição em Portugal de pouco ensino explícito de estratégias de leitura. A tradição anglo-saxónica aborda a leitura de forma muito pragmática e dá às pessoas estratégias concretas de leitura. Em Portugal, que em termos educativos esteve sempre mais ligado à tradição francesa, este trabalho não era feito de forma tão explícita e tão clara. Fazemos muita formação de professores porque acreditamos que é uma questão de trabalho focado, não é uma catástrofe inevitável, não é como um tufão. Nós precisamos, cada vez mais, de estratégias complexas de leitura. O pensamento crítico é uma das estratégias elevadas de leitura, é nós conseguirmos ler informação, perceber qual a informação coerente, válida e fidedigna. No mundo em que vivemos, isto é essencial. Vai ser muito difícil sobreviver e participar em sociedade se não tivermos estas estratégias muito elevadas. É para lá que temos de apontar e ainda temos um percurso muito grande a fazer.
O Plano Nacional de Leitura está em vigor desde 2017 e começou com um horizonte a dez anos. O que é que falta fazer até 2027?
Falta contribuir para melhorar esses níveis e uma das estratégias é fazer formação de formadores e de professores sobre como é que se trabalham estas competências de leitura de nível elevado de forma explícita, é um trabalho em que temos investido muito. Criámos a Academia do Plano Nacional de Leitura para que esse papel formativo seja muito claro. E falta consolidar os hábitos de leitura em família, nos jovens, nos mais velhos. A questão do horizonte 2027 foi alterada porque o Plano Nacional de Leitura está em reestruturação e vai passar a fazer parte de um grande instituto e deixa de ter esse horizonte temporal, passa a ter um carácter de acção mais permanente.
Em que moldes é que o Plano Nacional de Leitura vai continuar a desenvolver as suas acções com essa reestruturação?
Eu espero que continue a exercer as suas acções de forma igual ou até melhor. A orgânica ainda não a conhecemos, não foi publicado o modelo formal em que o Plano Nacional de Leitura vai funcionar dentro desse instituto. Eu tenho esperança de que esse seja um sinal de que o Plano Nacional de Leitura passe a ser uma estratégia política de leitura permanente e com condições a nível nacional, até porque o nosso trabalho tem resultados. Uma das coisas que introduzi nestes últimos três anos foi a avaliação de impacto de tudo o que fazemos e temos resultados claros para mostrar e avaliações muito positivas. Nunca faria sentido desinvestir num trabalho que tem um impacto claro na sociedade portuguesa.
Os protocolos e projectos em curso vão manter-se?
É a informação que temos.
Como é que olha para esta reestruturação? Uma petição que tem agora mais de 10 mil assinaturas fala em “retrocesso grave para a educação, para a cultura e para a coesão social do país”.
Eu fico contente que haja esta preocupação, mostra que a população portuguesa acarinha, respeita e quer defender o Plano Nacional de Leitura. Isso é um bom sinal, é um reconhecimento de que o nosso trabalho é de grande qualidade e eu acho que isso é consensual em Portugal. Essa preocupação ajuda os nossos governantes a tomares decisões mais avisadas. Eu, como sou optimista por natureza, acredito que o trabalho seja para continuar e, no que depender de mim, sempre fortalecido. Mas, em altura de mudanças, é importante estarmos atentos e cautelosos.
Está em vista alguma parceria concreta com entidades de Macau?
Há uma boa colaboração, mas não há nenhum protocolo firmado. Se houver alguma intenção de fazer uma iniciativa de promoção da leitura em Macau nós teremos todo o gosto em apoiar. Temos todo o gosto em trabalhar também com Macau.
Veio ao território para fazer uma formação na Escola Portuguesa de Macau, intitulada “Como ler e porquê?”. Em que consiste esta iniciativa?
Este foi um curso que eu criei e que já fiz em Portugal na Academia do Plano Nacional de Leitura e correu muito bem. É um curso que serve para professores mas também para o público em geral. É um curso para qualquer pessoa que se interesse por leitura e que queira conhecer um bocadinho da história da leitura, que queira ter mais hábitos de leitura e que queira aprender algumas estratégias para aprender melhor o que lê.









