The Scavengers (1959)

0
5
ilustração rui rasquinho

 

Kitsch em muitos momentos, está cheio de clichés e é herdeiro directo dos filmes noir de Hollywood dos anos 1940/50, mas a verdade é que The Scavengers (1959) vale os 79 minutos do seu tempo. É um filme único – produtores e financiamento de Manila, um argumentista em ascensão, actores filipinos famosos, juntamente com duas estrelas de filmes B contratadas nos EUA, que nunca deixam de ser totalmente inexpressivas. Acrescentem-se algumas filmagens feitas em Hong Kong, um enredo secundário em Macau (filmado em Hong Kong) e um realizador de Hollywood que já foi famoso, mas agora está numa fase de má sorte. Na pior das hipóteses, The Scavengers é uma curiosidade interessante; na melhor das hipóteses, é um clássico esquecido.

Stuart «Stu» Allison (Vince Edwards) é um contrabandista americano na Ásia. Um dia, a meio de um negócio duvidoso no antigo cais de Hong Kong-Macau (que ficava no final da Gilman Street, em Central), é surpreendido pela visão da sua esposa, Marion (Carol Ohmart), que estava desaparecida há seis anos, sem paradeiro conhecido. Marion entra no barco para Macau; ele segue-a. Em Macau, sempre atrás de Marion, Stu envolve-se numa rixa com um homem que o persegue. Segue-se uma cena de jiu-jitsu e depois descobrimos que há outras pessoas interessadas em Marion e nos círculos obscuros de Macau em que ela se move. O agressor de Stu é Casimir O’Hara, uma mistura de japonês/filipino/irlandês, maravilhosamente interpretado pelo especialista filipino em vilões alegres, Vic Diaz, mascando de charuto na boca e chapéu de palha na cabeça.

Assassinato, sequestro, jogo, intrigas internacionais, não falta nada. É claro que o americano Stu tem que resgatar a americana Marion desses bandidos estrangeiros. Há um general da Formosa com 3 milhões de dólares americanos escondidos em Macau, Marion fervilha num vestido justo e o vilão tem um sotaque inglês refinado (claro!). No entanto, de alguma forma, The Scavengers nunca se torna outro Casablanca ou Maltese Falcon com um toque de Hong Kong-Macau. É um pouco cliché demais, um pouco previsível demais e a actuação é exagerada. Vince Edwards não é Bogart, para dizer o mínimo; Carol Ohmart tem o seu charme, mas não tem o talento de Ingrid Bergman ou de Mary Astor. O único que se aproxima é Diaz, que tem uma boa prestação como uma espécie de Peter Lorre filipino (há até uma vaga semelhança, apesar de Lorre ser da Eslováquia e Diaz de Manila). 

Apesar de tudo, há que admirar a ousadia da Lynne-Romero Productions, de Manila, por ter feito este filme. A empresa foi fundada por Kane Lynn, um piloto naval norte-americano destacado nas Filipinas durante a Segunda Guerra Mundial e que por lá ficou depois do conflito, e Eddie Romero, um argumentista de sucesso de Manila com sonhos à altura de Hollywood. Os dois decidiram fazer uma série de filmes de terror e noir de série B que pudessem vender para os Estados Unidos como filmes de apoio a grandes produções ou para cinemas drive-in espalhados pelas zonas rurais. Podia ter sido um negócio lucrativo, antes da televisão se tornar dominante. Em The Scavengers, decidiram usar Hong Kong e Macau, convencidos de que seriam cenários que os cinéfilos dos estados do Midwestern achariam exóticos.

O que também contribuiu muito para tornar o filme interessante foi o facto de Lynne e Romero terem contratado o realizador norte-americano John Cromwell. Antigo actor de Shakespeare, no palco, entretanto transformado em realizador de cinema, Cromwell estava desempregado na época em que Lynne e Romero o desafiaram. Embora tivesse feito alguns filmes importantes na sua época — a adaptação de The Razor’s Edge, de W. Somerset Maugham, bem como Algiers, o remake hollywoodesco do clássico poético-realista francês Pepe Le Moko – , o realizador constava da lista negra de Joseph McCarthy. Não podia trabalhar em Hollywood, era considerado tóxico. Naturalmente, a acusação era injusta, até porque Cromwell nunca tinha sido outra coisa que não um fervoroso democrata admirador de Roosevelt, mas os Estados Unidos estavam num dos seus períodos de histeria crónica… 

Foi assim que o realizador agarrou a oportunidade de trabalhar em Hong Kong e contratou Edwards e Ohmart, cujas carreiras, francamente, não estavam a chegar a bom porto na Califórnia. Mais uma vez, como tantas vezes na história, Macau tornou-se um refúgio – desta vez, não para chineses que fugiam dos japoneses, judeus europeus que fugiam de Hitler ou portugueses em busca de aventura, mas para pessoas de Hollywood que fugiam da caça às bruxas anti-comunista. The Scavengers seria o penúltimo filme de Cromwell antes da decisão de se reformar. 

Há algumas belas imagens de Hong Kong neste filme, em particular as do antigo terminal de ferry («PRÓXIMA VIAGEM PARA MACAU ÀS 14H30 – AINDA HÁ BILHETES») e da esquadra da polícia adjacente à zona ribeirinha. Há imagens de arquivo de Hong Kong no final da década de 1950, tiradas do Peak e do outro lado de Victoria Harbour, bem como da movimentada Avenida de Almeida Ribeiro à noite, iluminada por néons. Várias ruelas de Hong Kong passam bem por uma noite escura e húmida em Macau, e há o inevitável casino multi-racial, com mulheres encantadoras, homens de aparência dura e apostadores chineses sempre cheios de esperança na sorte. 

Em muitos aspectos, The Scavengers é mais do mesmo, aquilo que já vimos várias vezes em filmes dos anos 50 – Macao, de von Sternberg, com Robert Mitchum, e o seu sucedâneo The Smugglers (ambos de 1951), filmados em cenários californianos. Tony Curtis fez o quase bom Forbidden em 1953, novamente todo filmado em Hollywood. O seu guião antecipa alguns pontos da trama de The Scavengers, mas a grande questão é esta: a Lynne-Romero Productions estava a tentar reformular uma fórmula de sucesso de filmes de série B que tinham heróis americanos, vilões asiáticos e europeus e o mundo pecaminoso de Macau. Com o objectivo de relançar o filme alguns anos mais tarde, em 1963, renomearam-no City of Sin (Cidade do Pecado) –  para o caso de alguém ter alguma dúvida sobre a Macau que os produtores queriam retratar no ecrã.