Dora Gago e a “fonte imensa” de Macau

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Depois de vários livros que foram percorrendo diferentes registos de género, do conto às memórias, passando pela crónica, Dora Gago publica agora o seu primeiro romance. Quem rasgou os meus lençóis de linho?, com edição The Poets and Dragons Society, pede o título emprestado a um verso de Camilo Pessanha e põe em cena um conjunto de personagens que se relacionam com Macau de modos muito particulares, destacando-se uma personagem, Ana Cláudia, que já tinha feito outras aparições, surgindo agora numa íntegra plenitude, às voltas com a sua vida e com os destinos possíveis a dar-lhe numa Macau que parece ser refúgio, mas também fuga e possibilidade de recomeço. De regresso ao território para participar no Festival Literário de Macau, onde apresentará este romance e o livro Rodrigo Leal de Carvalho – Dois Olhares Sobre a Sua Obra (que acaba de publicar em co-autoria com Anabela Freitas), Dora Gago falou ao Parágrafo sobre estas duas obras e sobre a sua relação com Macau.

 

Já conhecíamos Ana Cláudia, a protagonista deste romance, de um conto seu publicado em 2014, o «Delírio».  Nessa altura, tinha noção de que a personagem iria regressar e ter uma outra existência?

Não, nessa altura não tinha. Aliás, a Ana Cláudia até apareceu antes… 

Antes de «Delírio»?

Sim. Este é o primeiro romance que eu publico, mas não é o primeiro que eu escrevo, é o terceiro. O primeiro, escrevi quando tinha 18 anos e chamava-se Grito de Liberdade, que é um nome apropriado para um romance escrito aos 18 anos… A Ana Cláudia surge no segundo romance que escrevo, que era um romance quase epistolar, com cartas da Ana Cláudia para a mãe e depois com mais uma outra personagem, que era uma tia. Como nunca publiquei esse romance, acabei por aproveitar algumas partes e com essas partes escrevi três contos no livro Travessias, um deles com a Ana Cláudia numa fase em que ela está muito alterada, com um surto profundo, e surge aí uma das cartas desesperadas que ela escreve à mãe. E no final, há ali um vazio, não se sabe muito bem se ela morreu ou não. O Travessias foi publicado em 2014, portanto, eu já estava a  viver em Macau, e os contos desse livro já estavam escritos há muito tempo, mas à medida que fui conhecendo o lugar, a Ana Cláudia foi ficando cada vez mais presente em mim e comecei a pensar que tinha de fazer alguma coisa com ela, mas também achava que ia ser muito difícil, porque o facto de a personagem sofrer de esquizofrenia fez-me pensar que teria de estudar muito o assunto… se calhar isto é a influência académica, este achar que é sempre preciso ler muita bibliografia sobre tudo. Então, por um lado havia a vontade de escrever, por outro lado sentia que não estava preparada. Até que de repente, quando voltei de Macau, estava a trabalhar num conto para um concurso que acabei por não enviar e ressuscitei a Ana Cláudia. E foi a partir desse conto que surgiu esse romance. Acho que o conto me desbloqueou e percebi que o que tinha de fazer era escrever e que se tratava de literatura e não de um tratado de psiquiatria… era escrever e pronto.

Há muitas partes desta narrativa que só podiam ter sido escritas depois de 2020 e da pandemia de Covid-19. A pandemia acaba por ser uma espécie de impulso para esta história?

Sim, no fundo é, porque foi a pandemia que me fez sair de Macau, em meados de Dezembro de 2021. Eu era directora do departamento de português da Universidade de Macau e tinha estado dois anos fechada em Macau, como toda a gente com a pandemia, mas também a enfrentar uma série de questões familiares. Enfim, acabei por pedir uma licença especial na Universidade para passar um semestre a trabalhar a partir de Portugal. E deixei a direcção do departamento, claro. Esta situação ficou assim até Agosto de 2022 e era suposto eu regressar, porque o contrato acabava nessa altura e ia ser renovado, mas esse momento em que eu tinha de voltar foi a pior fase de Macau em termos de encerramento por causa da Covid… andei ali numa fase complicada, sem saber o que fazer, mas acabei por decidir ficar em Portugal. 

E que impacto teve tudo isso, particularmente a pandemia, na narrativa?

Pode-se dizer que foi o regresso de Macau e a pandemia que deram o empurrão final no romance, sem dúvida.

Um dos temas que, não sendo central, acaba por ser muito trabalhado no romance é o dos trabalhadores migrantes em Macau, mais especificamente das trabalhadoras domésticas, quase sempre oriundas das Filipinas, da Indonésia, da Malásia, que durante a pandemia se tornam visíveis de um modo muito intenso em Macau, porque se percebe que há ali uma questão de total vulnerabilidade.

Até já havia uma personagem filipina num dos contos de Floriram Por Engano as Rosas Bravas e eu tinha uma grande proximidade com uma empregada filipina que trabalhava lá em casa regularmente, quando eu estava em Macau, e ela contava-me muitas histórias que me foram dando consciência da forma como viviam aquelas pessoas que iam para Macau trabalhar, pelo que foi muito natural levar esse tema para o romance. O que acontece em Macau é que estas pessoas são, de facto, tratadas como se fossem invisíveis. E quando se dá a pandemia, tudo isso se torna muito visível, porque há filas enormes de pessoas que precisam mesmo de ajuda para sobreviver. Havia muitas mulheres com filhos pequenos, bebés, e estavam ali fechadas, sem salário, porque os patrões deixaram de lhes pagar, não tinham dinheiro para voltar para os locais de origem, também não havia voos… enfim, foi uma situação muito complicada e que me tocou muito, por isso quis usá-la no romance.

Dora Gago
Quem rasgou os meus lençóis de linho?
The Poets and Dragons Society

Este livro tem três epígrafes, de Camilo Pessanha – de onde vem o título do romance –, de Maria Ondina Braga e de Lídia Jorge. Já tinha essas epígrafes em mente quando começou a escrever?

Quando comecei a escrever o conto que deu origem ao romance, ainda não. Surgiram a partir do momento em que comecei a expandir o conto, já em direcção a um romance. Desde logo, o conto nem sequer tinha este título, e à medida que o texto se foi desenvolvendo as coisas foram surgindo. Às vezes, de forma inesperada, como se o texto pedisse determinados desenvolvimentos. Foi assim que surgiu o verso de Pessanha para o título. Quanto à Maria Ondina [Braga] sempre foi para mim uma referência. Tinha-a descoberto em 1991, depois de estar em Macau, na sequência de um prémio de um concurso de escrita para jovens – uma coisa organizada pelo Instituto Português da Juventude e a Comissão dos Descobrimentos – que foi uma viagem a Macau, que passou também por Hong Kong. Foi um deslumbramento para mim a Macau daquela altura, mas não imaginei que iria viver para lá… Quando voltei dessa viagem encontrei um livro chamado Nocturno em Macau, de uma escritora que eu não conhecia e que era a Maria Ondina Braga. E pronto, comprei o livro e tornei-me leitora da Maria Ondina, que ainda conheci pessoalmente, num encontro de escritores em Guimarães. Relativamente à Lídia Jorge, a ligação que estabeleci com a obra dela também aconteceu em Macau, mas durante a pandemia. Claro que já conhecia alguns livros, e há a particularidade de ela ser do Barrocal algarvio, como eu, mas é nessa altura da pandemia que leio a obra a fundo, motivada por um trabalho académico. E isto de estar ali tão longe de casa e aquela questão das raízes, que também são as minhas, e que surge em O Dia dos Prodígios ou em O Cais das Merendas, tocou-me muito. Como a Ana Cláudia tem aqueles surtos psicóticos, achei que fazia muito sentido a ligação do Algarve rural, ancestral e pouco conhecido, através da cobra, com o dragão, que, no fundo é a China. 

Este romance tem Macau como cenário principal, mas está cheio de referências que vão muito além dessa ideia de mero pano de fundo e que reflectem uma série de vivências do território que suponho que terão nascido das suas próprias vivências.

Sim, Macau e o tempo que lá passei foi a grande fonte. Depois, claro, há todas as outras vivências, mas sem ter vivido em Macau não teria escrito este romance. E, por exemplo, a casa da Ana Cáudia, na Taipa, no Caminho das Hortas. Eu vivi aí e foi um dos maiores pesadelos da minha vida. Às vezes, chegava ao ponto de deixar de chover na rua e continuar a chover dentro de casa…

Macau surge aqui como uma espécie de último reduto, aquele lugar para onde se vai quando já não há muito a perder e, ao mesmo tempo, quando persiste alguma esperança. Concorda com esta leitura?

Sim, é isso. Macau é uma terra que também funciona muito como abrigo, como refúgio, aliás, ao longo de toda a História. Se lermos, por exemplo, os romances de Rodrigo Leal de Carvalho, aquela altura da guerra do Pacífico, da II Guerra, Macau era aquela cidade aberta onde desaguava toda a gente, mesmo que tantos passassem fome, e era o lugar onde os espiões dos países inimigos muitas vezes tomavam café juntos. Por outro lado, acho que é também um lugar que acaba por ser de grande solidão e de grande isolamento, porque é um pouco aquele fim do mundo para onde se vai à procura de alguma coisa. É um refúgio e é um lugar de esperança, é uma terra muito generosa, mas que às vezes também aprisiona. É um lugar cheio de contradições, como tantos outros, mas muito especial. 

Tem escrito muito sobre Macau, em diferentes registos, e muito também sobre certas práticas, festividades, quotidianos e tradições que umas vezes são só de uma comunidade, outras vezes são partilhadas. Macau continua a ser uma espécie de arca inesgotável de histórias? E concretamente para si, para o seu trabalho, é um lugar que vai continuar a estar presente?

Macau ainda aparece em pelo menos dois livros por sair, um de crónicas e um futuro romance, se chegar a sair, portanto, sim, ainda aparecerá mais alguma coisa de Macau. Acho que Macau é realmente uma fonte imensa, infelizmente não interessa a ninguém em Portugal, nem o que se escreve em Macau, nem o que se escreve sobre Macau. E é pena, porque é um palco de aprendizagem enorme e de relações interculturais, e não digo isto com aquela ideia estereotipada do encontro entre o Oriente e o Ocidente e tal… Isso é um pouco cliché, porque o que acontece muitas vezes em Macau é que há comunidades que se toleram, mas que vivem em mundos separados. Mesmo assim, não deixa de ser um lugar único no mundo e muito interessante, a nível literário, mas também a nível cultural e antropológico. 

A que se deve essa falta de interesse por Macau?

Primeiro que tudo, é um lugar que fica muito longe e aquilo que acontece lá, no fim do mundo, não chega aqui. Depois, não tem o glamour das modas, fica ali enterradinho, é, como diz a Fernanda Dias, a pulga escondida atrás da orelha do dragão. 

A questão do desencontro entre as comunidades passa sobretudo pela questão da língua ou por outras coisas?

Creio que será uma das questões, mas não a única, porque há aquela tendência, natural entre os humanos, de procurarmos as semelhanças, e portanto a comunidade dos portugueses junta-se, a dos chineses também, a dos macaenses anda um pouco cá e lá, mas tudo funciona muito em grupos fechados. Claro que a língua é uma questão muito forte, mas as questões culturais também o serão.

Anabela Freitas e Dora Gago
Rodrigo Leal de Carvalho
Letras Lavadas edições

Para além do romance, Quem Rasgou os Meus Lençóis de Linho?, vai apresentar neste Festival Literário de Macau o livro que escreveu, com Anabela Freitas, sobre a obra de Rodrigo Leal de Carvalho, recentemente falecido. Como nasceu a decisão de fazer este livro, Rodrigo Leal de Carvalho – Dois Olhares Sobre a Sua Obra (que sai com chancela Letras Lavadas Edições), sendo que ambas já tinham escrito sobre o o autor em trabalhos anteriores?

Eu e a Anabela Freitas encontrámo-nos num colóquio sobre a lusofonia nos Açores, na ilha de Santa Maria, em Outubro de 2024. Nesse colóquio, a minha comunicação era precisamente sobre o Rodrigo Leal de Carvalho e, em conversa, o organizador do colóquio, o Chrys Chrystello, e também o Onésimo Teotónio de Almeida, fizeram essa sugestão, uma vez que a Anabela também já tinha escrito sobre este autor. Foi assim que surgiu a ideia e foi curioso, porque o Rodrigo Leal de Carvalho sabia que estávamos a preparar este livro e estava muito entusiasmado, mas infelizmente já não chegou a vê-lo…

Neste livro, a obra de Leal de Carvalho é relacionada com a ideia de busca de uma identidade e fala-se dos «múltiplos desafios e dúvidas que se colocam a quem tem um pé num território e o coração no outro». Esta relação que criamos com os lugares onde vivemos, ou por onde passamos, é mesmo estruturante para aquilo que somos?

Penso que sim, sem dúvida. É uma espécie de tijolo que estrutura a nossa identidade.

E também sente isso em relação a Macau?

Completamente! Não seria a mesma pessoa se não tivesse vivido em Macau. É como diz o Stuart Hall, a nossa identidade vai-se construindo, é um work in progress, não aparece ali, fixa, do início ao fim da nossa vida, e os lugares onde vivemos são fundamentais.