Em 2024, a escritora chinesa Gu Shi venceu o Prémio de Excelência na primeira edição do Prémio Internacional de Ficção Científica de Macau pelo seu conto «City of Choice». Agora prepara-se para visitar a cidade e participar do Festival Literário de Macau.
Conversamos online, vendo-nos uma à outra num ecrã diminuto, e os comentários de Gu Shi sobre a sua carreira são claros e bem estruturados, muito parecidos com as personagens calmas e assertivas que cria para os cenários fantásticos das suas histórias de ficção científica.
Gu Shi não é apenas uma escritora de ficção científica premiada, mas também uma urbanista qualificada. Pode parecer que estes dois trabalhos são antagónicos, mas, para a autora, as duas actividades são tão essenciais para a sua vida quanto as sessões regulares de exercício físico, três vezes por semana – uma forma de “manutenção” necessária. Os treinos ajudam-na a manter a boa forma física, enquanto a escrita e o planeamento urbano lhe permitem observar atentamente o mundo à sua volta: «Muitas pessoas pensarão que o planeamento urbano é puramente racional e que escrever ficção é puramente emocional, mas não é bem assim», diz-nos.
Como investigadora no Instituto de Planeamento Urbano e Design, em Pequim, desde 2012, o seu trabalho diário assemelha-se mais ao de uma coordenadora que constrói pontes de comunicação entre arquitectos, engenheiros e departamentos governamentais. E escrever ficção científica? «Isso também requer um cálculo muito racional – considerar a que expectativas dos leitores quer corresponder, como surpreendê-los – embora isso possa «decepcionar outros, porque não é possível agradar a todos», diz ela. «De certa forma, não é muito diferente de coordenar os interesses de diferentes equipas.»
Quando lhe perguntamos como se apaixonou pela ficção científica, Gu dá uma resposta interessante: «Sinto que sempre esteve dentro de mim.» De facto, a composição que entregou ao seu professor de chinês quando tinha apenas 14 anos era uma história sobre uma «civilização subterrânea», mostrando logo ali os primeiros sinais da criação de um cenário de ficção científica. «Quando era jovem, lia sobretudo ficção de género, daquele tipo que cria relações profundas com os leitores», conta a autora. «É diferente da literatura pura, que procura o refinamento artístico. Preocupo-me mais com a comunicação, por isso estou disposta a suavizar um pouco o trabalho mais literário, para que mais pessoas possam entender as histórias que quero contar.»
Em mandarim, o seu pseudónimo “Gu Shi” é, na verdade, um homófono da palavra “história”: «Descobri que estou sempre interessada na “história”, e não tanto na construção fria e rígida de mundos», diz ela. Isso talvez explique a intenção por trás do seu nome artístico – lembrar a si própria que o que importa, em última análise, é encontrar aquela espécie de eco que faz com que a história seja a mais adequada, mesmo no cerne da questão.
As obras de ficção curta de Gu Shi ganharam dois prémios Galaxy (Yinhe) e três prémios Nebula (Xingyun). Em 2020, publicou a sua primeira colectânea de contos, Möbius Continuum, e os seus contos foram traduzidos para inglês e incluídos noutras publicações de ficção científica, como Clarkesworld e Xprize’s Current Futures: A Sci-Fi Ocean Anthology. Outras obras representativas do seu trabalho são The Brain Gambit, The City of Choice, Chimera e Introduction to 2181 Overture.
Desigualdade de género
Como escritora que tem vindo a destacar-se no cenário da ficção científica chinesa, Gu sente que o ambiente geral do meio é amigável e solidário, mas os estereótipos ainda persistem: «Por exemplo, as obras de ficção científica escritas por mulheres são frequentemente classificadas como “ficção científica soft” e logo julgadas como falhas de “grandiosidade”», afirma ela. «Mesmo quando as histórias apresentam tecnologia de ponta e paisagens deslumbrantes, as pessoas evitam usar os termos que usam para elogiar os escritores homens quando julgam os textos que eles escrevem.»
Mas as suas obras e as de outras escritoras, suas pares, há muito que derrubaram essas ideias. Na antologia que organizou, The Strange Girl, Gu Shi reuniu nove histórias de diferentes escritoras de ficção científica, explorando temas como a reprodução, o celibato, a colonização marciana e a linguística.
Curiosamente, nos seus textos a Inteligência Artificial (IA) não é retratada como a má da fita, mas como uma presença intrigante que pode ter «ansiedade e Transtorno Obsessivo Compulsivo», quase como uma mãe do signo Virgem…
«Quero escrever sobre as mulheres reais que vejo à minha volta e tenho essa responsabilidade», afirma Gu. «São profissionais, capazes e, quando enfrentam problemas, pensam primeiro nas soluções. Em contrapartida, aquelas personagens femininas histéricas das séries de televisão, obcecadas pelo romance, parecem-me mais “criaturas de ficção científica”».
Quando questionada sobre se a literatura de ficção científica pode influenciar as atitudes das pessoas em relação à tecnologia, a resposta da autora é pragmática: «A ficção científica não é responsável pelo futuro, mas parece sempre prever o futuro de maneiras incrivelmente precisas.» E cita o seu próprio exemplo: em 2017, escreveu uma história sobre o desenvolvimento da IA intitulada “No One at the Wild Dock”. O caminho que descreveu – da IA conversacional à IA geradora de imagens em movimento – tem uma semelhança impressionante com a progressão actual do ChatGPT para o Sora. Na história, os humanos são libertados da necessidade de trabalhar, mas, ao mesmo tempo, perdem a sua «razão de existir».
Gu nota que o futuro cyberpunk imaginado em muitas histórias e filmes de ficção científica está paulatinamente a tornar-se a nossa realidade. «Nós, como indivíduos, estamos a caminhar para uma situação em que “se não tivermos um qualquer registo, não existimos”», diz ela. O nosso sentido de existência depende cada vez mais de sermos transformados em dados. E a autora aponta a razão disso: «Isso é alienação. As minhas histórias não fazem um julgamento sobre se isso é bom ou mau, apenas apresentam um futuro possível para as pessoas terem em conta», diz ela.
Estas observações ponderadas são precisamente aquilo que estrutura o trabalho de ficção científica de Gu Shi. A autora acredita que «a ficção científica nos permite dar mais um passo à frente, em vez de ficarmos presos na dor da nossa realidade atual» e que, quando as pessoas vêem as possibilidades, podem discuti-las e, a partir daí, escolher colectivamente «se querem seguir um determinado caminho no futuro. Como houve tanta ficção científica a descrever mundos cyberpunk sombrios, pode ser que toda a gente se esforce mais para evitar que eles se tornem realidade», conclui a autora.







