Para o poeta e crítico literário António Carlos Cortez, Camilo Pessanha é o grande representante do simbolismo em Portugal e um precursor da poesia moderna. Em entrevista ao Parágrafo, o ensaísta português, que está no Festival Literário de Macau para assinalar o centenário da morte de Pessanha, mas também para apresentar os seus livros de poesia, falou sobre a vida e obra do autor da Clepsydra e do exílio auto-imposto no território.

Camilo Pessanha é um dos grandes poetas portugueses?
É um precursor da poesia moderna. Em 1915, quando fizeram um inquérito ao Fernando Pessoa e ao Mário de Sá-Carneiro, o jornalista Boavida Portugal fez essa pergunta: quem eram os poetas que, eles enquanto modernistas, consideravam ser os mestres? O Fernando Pessoa indicou como precursores da poesia moderna o Antero Quental, porque teria dado à poesia portuguesa a dimensão filosófica que não tinha. Indicou o António Nobre, porque teria dado à poesia portuguesa a expressão da saudade e a ideia de saudosismo, que o [Teixeira de] Pascoaes vai depois aprofundar, e que a poesia portuguesa tinha, mas não naqueles termos nobrianos de linguagem moderna. E o Cesário Verde, que, diz o Fernando Pessoa, deu à poesia portuguesa a objectividade que não tinha. É muito interessante ver que Pessanha vai ser lembrado como o grande ritmista, pelo Mário de Sá-Carneiro. O Mário de Sá-Carneiro e o Pessoa elegem-no como um dos grandes mestres da poesia moderna. Em 1916, quando se publica a revista Centauro, é Fernando Pessoa quem pede a Camilo Pessanha uma colaboração. Gastão Cruz, por exemplo, é alguém que prolonga muitas das conquistas expressivas deste poeta, mas o Pessanha é, sem dúvida, um preparador do caminho moderno, é um grande poeta na modernidade literária portuguesa. É um grande fazedor de poemas do simbolismo, em que a imagem funciona como núcleo intensificador do discurso. É um grande ritmista, como o Mário de Sá-Carneiro diz, em que a dimensão musical dos textos antecipa, muitas vezes, os sentidos. É um dos grandes poetas simbolistas da Europa, ao nível de um Paul Verlaine e de alguns simbolistas franco-belgas.
Há quem diga que é o único verdadeiramente simbolista em Portugal. Concorda?
Sim, concordo com essa ideia. Há o Eugénio de Castro, com Oaristos, mas o Pessanha leva muito longe a ideia da poesia como construção do vago, do complexo e do subtil, que era esta trindade da poesia simbolista. Sem Pessanha não havia Pessoa. O Pessoa ortónimo é um discípulo de Camilo Pessanha. Apreende do Pessanha certos processos de construção fono-melódica, dos sons antecipando os sentidos do texto. Mesmo os sonetos do Pessoa, Passos da Cruz, são de leitura atenta do que o Pessanha fez.
A grande referência do Pessoa é o Pessanha?
É uma das grandes referências. Mesmo aquela ideia da diluição da voz autoral que vemos na Clepsydra, esse livro, o único que Pessanha publica, deve ser lido a partir da intencionalidade do título. Clepsydra é um título com sentido duplo: do verbo clepto (roubar) e a ideia de água (o relógio de água, símbolo da passagem do tempo, da morte, do tempo que está pré-determinado e, por outro lado, era o objecto dado aos que falavam na ágora, para medir o tempo de cada intervenção). É um livro muito interessante e que inspira muito o Pessoa ortónimo. Temos também essa ideia da voz autoral, que se vai diluindo. Isso, de alguma maneira, toca com os heterónimos, que são seres ficcionais. São vozes autorais ou vozes de um autor/actor de si próprio. O Pessoa vai esticar isso até aos heterónimos. O Pessanha não faz isso, mas tem essa voz textual que está no Clepsydra, que se vai encaminhando para o fim e que começa por um poema, cujo título remete para a ideia de uma voz que acabou. Se tivesse de fazer uma espécie de cânone de cinco ou dez grandes poetas portugueses, o Camilo Pessanha estaria nesse naipe.
Escreveu um ensaio, chamado Camilo Pessanha por António Osório ou o Romance do Ensaista?, sobre o papel que um amor não concretizado pode ter tido na obra deste poeta. Porque o faz a partir da visão de António Osório?
Não é que haja na poesia portuguesa actual discípulos de Camilo Pessanha, mas há, na poesia portuguesa contemporânea, pós-1945, vozes que devem muito ao Camilo Pessanha. O António Osório é uma delas. Além de ser o sobrinho-neto da Ana de Castro Osório, que foi a editora da Clepsydra, publicada em 1920, reconstitui os passos da biografia do autor e há aspectos da biografia do Pessanha que se repercutem na obra. O que acontece depois na obra é que há uma espécie de teatralização da dor e isso é muito moderno. O António Osório, reconstituindo através de cartas o amor de Camilo Pessanha, dá-nos uma outra hipótese de interpretar a poesia dele, a partir de uma grande dor, de uma espécie de um lugar vazio.
A dor de um amor perdido?
O amor perdido da Ana de Castro Osório. Ela casa-se com o Paulino de Oliveira, que até era colega de poesia, e, quando o Pessanha vem, pela última vez, a Lisboa em 1916, a Ana de Castro Osório, grande amiga do poeta, sabendo, no entanto, que o Camilo Pessanha não nutria por ela apenas amizade, vai apalpando o terreno para tentar não o magoar. O António Osório reproduz nesse livro essa carta. A hipótese que avança nesse livro é a de que o Pessanha nunca mais regressa a Portugal para não melindrar o casamento da Ana de Castro Osório. Diz o António Osório que talvez isso pudesse ter justificado a publicação da Clepsydra por Ana de Castro Osório. Era óbvio o valor enorme do poeta enquanto poeta, mas há um lado compensatório da perda. O António Osório avança com uma hipótese de leitura, que é muito interessante.
Não é a sua leitura?
Não, porque não sou adepto das leituras biografistas, mas reconheço que a biografia não explica, mas ajuda a entender certos ecos da vida na obra.
Essa dor amorosa não se vê na poesia de Pessanha?
Não acho que se veja. O que se vê ali na Clepsydra é uma figuração de um autor-actor de si próprio, que constrói um livro breve, onde há formas e fórmulas tardo-simbolistas e também algumas modernas, mas nós não encontramos, por exemplo, verso livre, na Clepsydra. O que vejo ali é a figuração de um eu atormentado, mas essa angústia não é, para mim, explicável com base no amor pela Ana de Castro Osório. O que me interessa são os processos de construção de um eu textual, que entronca numa atmosfera da época finissecular [fim do século XIX], quando, um pouco por toda a Europa culta, se fala da desaparição elocutória do poeta. O Pessoa multiplica-se em heterónimos e o Mário de Sá-Carneiro escreve, em 1913, sobre dispersão – esta ideia de “eu não sou eu nem sou outro, sou qualquer coisa de intermédio”. Isto tudo já está no Pessanha e o que interessa é ver os aspectos textuais da obra, a construção fono-melódica dos textos, a construção muito requintada do poema simbolista. A partir daquela ideia da Clepsydra, do relógio de água, ver o livro como espelho não da vida de Camilo Pessanha, mas de um eu textual que sabe que todo o livro é o objecto que espelha a vida e a sua finitude. Nós começamos a ler o livro e vamos acabar o livro.
Considera Macau importante na obra de Pessanha?
Há poemas e há referências ao Oriente e a Macau. Independentemente das questões biográficas que levaram a que Pessanha fosse professor em Macau e também exercesse advocacia, Macau é outra coisa. É um símbolo do exílio. É o Oriente. É a distância em relação à pátria. É aquele ponto distante, aquele exílio que justifica uma espécie de paradoxo. Camilo Pessanha é um poeta que vai para Macau e não regressará depois de 1916. Longe de biografismos, Macau é um pouco como a Abissínia [Etiópia] para Rimbaud. É um lugar distante, onde conhece a Águia de Prata, onde se envolve com essa concubina, morrendo numa situação de degradação física, moral e emocional, tendo por única companhia o cão Armínio, mas isso tudo porque Macau não é só um lugar. É um símbolo. É a preparação para a morte.

Mas foi um exílio que ele quis?
Que ele auto-impôs, o que é ainda mais extraordinário. É um paradoxo. Macau é o lugar que permitirá a Pessanha afundar-se para lá dos paraísos oficiais, do ópio, numa experiência-limite. O Pessanha é um dos grandes exilados de uma literatura em que os maiores foram quase sempre exilados, vivendo fora do país ou auto-impondo-se um exílio, mesmo dentro do país. Alguns exemplos: o Pessanha, que vai para Macau, o José Rodrigues Miguéis, que morre em Nova Iorque, o Jorge de Sena, que vai para o Brasil e depois para os Estados Unidos. Mas também temos exilados dentro do próprio país, como Alçada Baptista, porque fazem do exílio a sua única morada.
Um auto-exílio por estarem revoltados com Portugal?
Não, não. É um processo interior. No caso do Pessanha, é muito interessante ver que ele é um poeta que escreve, mas não fixa pela escrita aquilo que escreve ou aquilo que a sua imaginação lhe dita. É o João de Castro Osório que vai registando os poemas do Pessanha. No caso do Pessanha, como no caso do Rimbaud, a poesia é, ela própria, um modo de exílio. É uma linguagem estranha, que não garante o entendimento mais imediato, mas é a única morada possível. É um desses poetas raros. Escreveu um livro e basta um livro para ficar na história da literatura.
Há quem refira que Camilo Pessanha é um poeta de Macau, pelos elementos que utiliza nos poemas. Faz sentido essa afirmação?
Ele é autor de literatura portuguesa, que viveu em Macau e vai morrer em Macau. Até que ponto é que, dentro daquilo que são as chamadas literaturas nacionais, há depois espaço para expressões regionais muito autênticas? Não sei se faz sentido falar-se de uma literatura de Macau, assim como não fará muito sentido dizer-se que um Vitorino Nemésio, um Antero de Quental ou um José Martins Garcia são autores da literatura açoriana. Não acho que faça sentido e também acho que o Pessanha não fica a ganhar, se algum dia se tiver a ideia de o catalogar como autor de literatura de Macau.
Há uma diferença entre os poemas feitos antes de Macau e os posteriores?
Onde é que eu acho que há verdadeiramente um grande valor no trabalho que Macau tem feito em relação a Camilo Pessanha? Julgo que tem grande interesse ver como é que, em Macau, o maior poeta simbolista da literatura portuguesa (um dos grandes poetas simbolistas europeus), alguém que está exilado do seu país e do seu continente, permaneceu fiel a uma estética do simbolismo. Aí há um aproximação curiosa do Pessanha ao que é uma influência da cultura oriental ou da cultura chinesa. Olhamos para um poema como «Viola Chinesa» e é inevitável haver ali uma contaminação, não digo ao nível da expressão literária, mas ao nível de uma certa visão de mundo, de uma certa aceitação quase fatalista e, ao mesmo tempo, a construção de um olhar contemplativo, que tem muito a ver com expressões religiosas daquilo que é a China, enquanto civilização. Aí, sim, dentro daquilo que era um território português na China, Macau, ao nível de uma certa visão de mundo, quase apetece dizer aquilo que é muito comum num certo Oriente, a aceitação muito natural da inevitabilidade da morte.
Devemos muito ao trabalho que tem sido feito pela Universidade de Macau, ao trabalho pelos investigadores que, em Macau, lêem Camilo Pessanha, e o procuram dar a conhecer noutras línguas, a partir desse enfoque. Não é que Pessanha fosse um discípulo de um qualquer poeta chinês, mas, na poesia dele, há uma visão de mundo. Seria a poesia de Pessanha aquilo que é se ele, como grande poeta do simbolismo, mas também alguém que tem uma vivência no Oriente, não tivesse essa vivência de Macau? Talvez não.
Na Universidade de Macau, vai apresentar algumas comunicações integradas no Festival Literário. De quem vai falar?
Fernando Echevarría, António Osório e Gastão Cruz. Interessa-me ver alguns poemas da última fase do Gastão Cruz, onde o diálogo com um poeta como Camilo Pessanha é mais evidente.
Porque escolheu estes autores?
Estes três autores, na poesia portuguesa do século XX, são aqueles que mantiveram essa ligação com o simbolismo de Pessanha, sobretudo o Echevarría, com certos procedimentos de corte de frases, de ritmo decassilábico do verso, mas, em particular, a grande poesia de Gastão Cruz. O Pessanha continua vivo nestes poetas.









