Harmony Express, de Thomas Bird, regista uma longa viagem pela China, sempre sobre carris. Recentemente, o autor assinou um artigo na China Books Review sobre livros de viagens e guias, pretexto para uma breve conversa sobre livros e viagens.
Quem já viajou pela China, sendo estrangeiro, conhece bem as dificuldades de comunicar sem dominar a língua local e a imensidão em que qualquer distância que parecia curta no mapa se transforma quando se começa a caminhar. A internet resolve parte desses problemas, mas um guia de viagem pode ser um companheiro imprescindível, assim como um livro escrito por alguém que tenha feito caminho semelhante.
No livro Harmony Express (Earnshaw Books), Thomas Bird percorre diferentes geografias da China contemporânea a bordo de vários comboios, confirmando o alcance de uma ferrovia que parece nunca parar de se expandir. Actualmente em Banguecoque, o autor viveu em diferentes pontos da China, e outros do Sudeste Asiático, escrevendo para várias publicações, entre elas o South China Morning Post. Vale a pena acompanhar a leitura deste livro, publicado há dois anos, com o artigo “What Happened to China Travel Guides?”, que Thomas Bird assinou recentemente na China Books Review. Aí se traça uma cronologia sobre os livros de viagens escritos por estrangeiros que visitaram a China e sobretudo sobre os guias de viagem, esse segmento editorial oscilante em termos de popularidade, mas que, apesar da ascensão do digital, continua a ter procura. Alguns dos guias referidos por Bird dedicam-se à China na sua totalidade, o que significa que inúmeras cidades e vilas ficam de fora, ou têm apenas uma brevíssima referência, mas também que muitos aspectos culturais e históricos são abordados de forma superficial. Quando lhe perguntámos, em conversa por e-mail, se fará sentido continuar a publicar guias únicos sobre a totalidade do país, o autor afirmou que «produzir um guia honesto sobre a China seria como escrever uma enciclopédia de vários volumes. O seu tamanho e profundidade histórica significam que só a tarefa de reunir todas as informações necessárias já é um grande desafio. Mas a maioria dos viajantes não precisa de um tratado académico, querem apenas saber como se locomover, conhecer factos embelezados com algum contexto sobre o que estão a vivenciar, sejam os hábitos dos pandas ou a história dos Guerreiros de Terracota. Quanto a dividir um guia em guias regionais, esse foi o caso das edições em chinês da Lonely Planet, que foram feitas por província. No entanto, é improvável que os turistas estrangeiros visitem apenas uma província. Pelo que sei, a Rough Guides, que costumava produzir um guia de 900 páginas, agora está a preparar dois novos livros, um sobre Pequim e o norte, e outro sobre Xangai e o sul.»
Apesar de escrever frequentemente para guias, revistas e publicações de viagens, Harmony Express é outra coisa, um registo muito pessoal e longe da informação arrumada para facilitar a vida ao viajante. Thomas Bird separa claramente esta obra dos guias: «Harmony Express é uma obra literária, um diário de viagem. Não foi concebido para guiar ninguém pela China, mas para levar um viajante de sofá numa viagem intelectual pela China que eu testemunhei e conheci, com todos os seus defeitos. O meu objectivo como escritor era traçar o retrato de uma era, e as viagens de comboio foram simplesmente o melhor mecanismo para ilustrar a China que eu estava a vivenciar. Os comboios de alta velocidade deram-me uma metáfora para a ascensão da China e ilustraram a dimensão do país. E as viagens de comboio serviram como uma máquina do tempo, transportando-me da costa leste desenvolvida para os costumes antigos do interior rural. Dito isto, acredito que os diários de viagem inspiram e complementam as viagens. Riding the Iron Rooster, de Paul Theroux, e River Town, de Peter Hessler, inspiraram-me a visitar a China. Até hoje, tenho o hábito de comprar um livro de viagens antes de visitar um país, seja Bangkok Days, de Lawrence Osborne, ou The Scorpion Fish, de Nicholas Bouvier – a literatura sobre um lugar a partir da perspectiva de um forasteiro ilumina um determinado local de maneiras matizadas e idiossincráticas que disciplinas como a antropologia, a história ou mesmo o jornalismo não conseguem.»

Os guias de viagem cumprirão um papel tanto mais importante quanto os países que descrevem forem desconhecidos ou pouco acessíveis para os viajantes. No caso da China, a dificuldade na comunicação e a escala gigantesca para a maioria das pessoas podem ser contornadas com um bom guia, que ajude a dominar as linhas de transportes públicos, os monumentos e outras marcas patrimoniais e, até, alguns aspectos culturais e de comunicação que vale a pena conhecer, nem que seja pela cortesia de cumprimentar e agradecer. Ainda assim, livros com registos pessoais, diarísticos, notas de viagem e vivências permitem aceder a outros aspectos do local, confirmando aquela metáfora do livro como a própria viagem. Viajante frequente, Thomas Bird prefere juntar as duas leituras: «Gosto de comprar um guia turístico e, talvez, uma obra literária relevante antes de viajar para qualquer lugar. Mas isso é particularmente importante quando se visita a China. É um lugar vasto, antigo e cheio de complexidades, o que o torna uma maravilha para se viajar. Mas aparecer simplesmente – como muitas pessoas fazem em Bali ou na Tailândia, por exemplo – sem nenhuma pesquisa prévia, não funciona. Um guia turístico bem escrito e cuidadosamente elaborado ajudará a revelar a rica herança cultural de uma determinada região, além de fornecer informações práticas sobre como se deslocar. Embora algumas dessas informações possam estar disponíveis online, a internet está repleta de publicidade, notícias falsas e blogs alimentados com pesquisas de má qualidade.»
Aguardemos, então, pelas novas edições da Rough Guide e de outras que possam estar na calha. De caminho, uma viagem curta ou longa pela China será mais rica se juntarmos aos guias a leitura de Harmony Express. Desde logo, o viajante incauto ficará a saber que andar de comboio na altura do Ano Novo Chinês não é boa ideia, a não ser que se esteja preparado para mergulhar no meio da maior movimentação anual de pessoas que o planeta terra conhece. Por outro lado, a China que se vai desbravando neste livro regista – e acarinha – tudo aquilo que parecem contradições aos olhos desprevenidos do viajante de primeira água: os edifícios construídos há meia dúzia de anos a fingirem-se de antigos, as avenidas com as mesmas cadeias comerciais de qualquer outra grande cidade, os locais inesperados para escutar música ao vivo ou as estrondosas aparições de vestígios históricos que, num breve relance, desvendam milhares de anos de história e civilização.
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