Sam Hou Fai apresentou no domingo a sua equipa governativa. Entre os titulares dos principais cargos, não há macaenses – situação inédita desde o estabelecimento da RAEM. A comunidade parece não estar alarmada com a situação. Miguel de Senna Fernandes garantiu que não há preocupação e Jorge Fão apontou que “é o curso normal da história”, acrescentando que, “se o macaense quer fazer parte do Governo, tem de mostrar o seu patriotismo em relação à China”.
Com a saída de Raimundo do Rosário da pasta dos Transportes e Obras Públicas, o próximo Governo não terá macaenses entre os titulares dos principais cargos. Esta é uma situação inédita desde o estabelecimento da RAEM, há 25 anos.
O primeiro Governo da RAEM, liderado por Edmund Ho entre 1999 e 2004, teve Florinda Chan como secretária para a Administração e Justiça, que continuou também para o segundo mandato de Edmund Ho, até 2009. A macaense manteve-se também no primeiro mandato do Governo de Chui Sai On, até 2014. No segundo mandato de Chui, entrou para o Governo Raimundo do Rosário, que ficou para o primeiro mandato de Ho Iat Seng, saindo agora.
Recorde-se que o próximo Chefe do Executivo, que entra em funções a 20 de Dezembro, tem garantido que as comunidades macaense e portuguesa continuarão a ter uma “consideração especial”.
Ao PONTO FINAL, Miguel de Senna Fernandes diz que “não há preocupação”. O presidente da Associação dos Macaenses indica que nunca sentiu que houvesse uma obrigação de incluir elementos da comunidade macaense nos altos cargos do Governo da RAEM, ressalvando que, no passado, “houve sempre esse cuidado”. “Neste momento não temos ninguém, mas não vejo que isso seja algo preocupante”, reitera.
Jorge Fão também não se mostra preocupado face à situação e diz que “é o curso normal da história; não tem a ver com discriminação”. O antigo deputado à Assembleia Legislativa (AL) e actual presidente da mesa da assembleia-geral da Associação dos Aposentados, Reformados e Pensionistas de Macau (APOMAC) recua e lembra que, no passado, os macaenses tinham o papel de ligação entre o Governo e a população, sendo que depois do 25 de Abril, com o governador Garcia Leandro, houve quadros na Administração que começaram a ser ocupados por elementos da comunidade macaense.
Depois da transferência de soberania, segundo Fão, os macaenses continuaram a desempenhar o papel de ponte. Mas, “depois dos incidentes em Hong Kong, em 2019, eles [Governo Central] têm novas exigências e agora lembraram-se de dizer que Macau devia não só ser governado pelas suas gentes, mas também por gentes patrióticas”. Então, “há que demonstrar o patriotismo em relação à China”. “Se o macaense quer fazer parte do Governo, tem de mostrar o seu patriotismo em relação à China”, conclui.
Manuel Silvério começa por assinalar que, nestes primeiros 25 anos desde o estabelecimento da RAEM, “os macaenses foram ‘consumidos’ mais para os cargos políticos e de direcção”, mas “estes foram escasseando”. “Agora, o leque de escolha é menor dentro da Função Pública, e a opção deste Governo de Sam Hou Fai foi de escolher dentro dos funcionários públicos”, diz o antigo presidente do Instituto do Desporto.
Silvério diz que a ascensão na Função Pública dos funcionários de etnia chinesa é “normal e curial”, uma vez que antes estavam em segundo plano dentro da Administração.
Por outro lado, nota um aumento no número de falantes de português dentro do Governo, já que o próprio Sam Hou Fai domina a língua, tal como quatro dos cinco secretários.
“Concluo que os tradicionais macaenses conhecidos pelo seu nome de baptismo ou por descendência de famílias portuguesas/macaenses foram substituídos por macaenses do Novo Macau. Este conceito de macaense existiu sempre mas que poucas vezes é reconhecido ou assumido”, termina.











