O Paradoxo da Percepção

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Maurice Merleau-Ponty lembra-nos em a “Fenomenologia da Percepção”, que somos por vezes enganados pela nossa percepção tomando como real e verdadeiro o que os sentidos ou a intuição nos transmite. Pessoas diferente podem atentar ao mesmo estímulo de modo diferente. Por essa razão a avaliação da realidade na tomada de decisões deve ser cautelosa, prudente e aberta a múltiplas confirmações.

O que acontece individualmente com as pessoas passa-se com os actores políticos, aqueles que são chamados a liderar um processo politico, um partido ou um país.

Em França, a vitória da extrema-direita foi prognosticada por muitos observadores e por sondagens. Não se viria a concretizar. A Frente Popular renovada venceu as eleições mas sem maioria absoluta. Esse facto impulsionou o líder da Frente, Jean-Luc Mélenchon, a exigir o cargo de primeiro-ministro ao Presidente Macron. Macron recusou.

Na verdade a esquerda está fragmentada em vários partidos e agrupamentos e a única coisa que a unia era a possibilidade de vitória da extrema-direita. Por outro lado para além do Rassemblement National, o partido do Presidente e os Les Republicans têm um grupo parlamentar significativo. Na eleição para presidente o candidato proposto pela Frente perdeu. A actual presidente Yael Braun-Pivet próxima de Macron foi reeleita.

Na Ucrânia a dimensão e poderio do exército russo permitiria segundo o Presidente Putin, derrotar em semanas o “insignificante” exército ucraniano. O que parecia certo em Fevereiro de 2022 não se concretizou. A Rússia tomou e ocupou parte significativa do Dombass mas todo este tempo decorrido não se pode afirmar que a Rússia tenha ganho a guerra. Moscovo perdeu nesta aventura segundo algumas estimativas 500 000 homens. Numa guerra anterior em que participou, no Afeganistão, a URSS havia perdido 15 000 homens.

Em Portugal, a vitória da Aliança Democrática nas eleições próximas com pequena vantagem sobre o Partido Socialista induziu na sua liderança que seria possível bloquear o governo e forçar a novas eleições. Ao invés de vários prognósticos o governo da AD tem conseguido negociar com grupos profissionais e sindicatos e arrumar dossiers que haviam transitado do governo anterior. O cenário anunciado do chumbo do Orçamento e de novas eleições é no momento que escrevo este artigo pouco provável. Pedro Nuno Santos moderou entretanto o discurso e fala em negociação.

A campanha militar de Benjamin Netanyhau em Gaza tem sido considerada por especialistas militares um fracasso. Apesar da dureza dos combates e da violência da operação o Hamas e outros grupos jihadistas continuam a demonstrar resiliência e determinação. O que começou ser uma operação justificada – a libertação dos reféns sequestrados pelo Hamas em 7 de Outubro de 2023 transformou-se numa acção militar mortífera, que não distingue militantes de população civil, causando mortos e destruição por todo o retângulo  de Gaza. Apesar da pressão internacional Netanyhau não cede e todas as negociações para a suspensão dos combates e a libertação dos reféns em troca de prisioneiros palestinianos têm fracassado por irredutibilidade de um lado ou do outro. Segundo agências internacionais o numero de fatalidades entre os palestinianos cifrar-se-á entre as 40 000 pessoas, havendo porventura um milhão de pessoas deslocadas e movimentadas entre o centro e o sul à medida que as acções de eliminação do comando operacional do Hamas no terreno prosseguem. A situação humanitária é calamitosa e apesar da exigência de eleições legislativas, Netanyhau não se demite, contando com um apoio do seu partido e da extrema-direita religiosa.

Noutra longitude a liderança forte de Xi Jinping na China, o crescimento da economia e a imagem positiva granjeada na comunidade internacional parecia apontar para um papel liderante no plano regional. Um papel aceite sem resistência ou desagrado das nações vizinhas que têm lucrado com o crescimento económico chinês. A constante acção de policiamento de ilhas e ilhotas situadas no Mar do Sul da China cuja soberania é disputada pela China com as Filipinas, o Japão, o Vietname ou o Brunei tem levado a inúmeros incidente com barcos pesqueiros por parte de fragatas de patrulha chinesas.

Sem que fosse previsível uma coligação anti-China está em andamento. Multiplicam-se manobras navais no Mar do Sul da China em operações conjuntas das marinhas de guerra dos Estados Unidos, Japão, Filipinas, França e Austrália. O Acordo de Acesso Recíproco Japão-Austrália que entrou em vigor em Agosto de 2023 veio facilitar o desdobramento e as operações das forças japonesas e australianas ao lado das forças dos Estados Unidos.

A estratégia de projecção da força externa da China despertou receios quanto aos verdadeiros propósitos da China impulsionando o reforço da segurança dos vizinhos da China para precaver os piores desenlaces. A eventual tomada de Taiwan pelo Exército Popular da China arrisca-se a provocar uma crise regional muito grave. A memória da guerra do Pacífico foi reavivada em todas as suas consequências.

 

Arnaldo Gonçalves

Jurista e antigo professor de Ciência Política e Relações Internacionais