É um sortilégio da História: a boa fortuna tem favorecido Macau. Tornou-se um adágio entre as suas gentes. Vale a protecção da deusa A-Má, a “Nossa Senhora china”, como lhe chamavam em tempos. Especula-se que é à divindade que se deve o facto de a flor-de-lótus, perante uma qualquer ameaça, fechar as suas pétalas, cobrindo o pequeno e, de outro modo, indefeso território. Só que não têm faltado tragédias e dramas colectivos. Nenhum, porém, de tão má memória como a Guerra do Pacífico (1937-1945).
“Má memória” tem, aqui, um duplo sentido: por um lado, as memórias são amargas; por outro, são poucas, fracas. Tendem para se desvanecerem, para o esquecimento. É que restam poucos registos históricos deste que foi o acontecimento dramático de maior dimensão e o mais próximo do nosso tempo a atingir Macau.
As primeiras destas memórias a serem sistematizadas e publicadas devem-se ao Padre Manuel Teixeira, que compilou em “Macau Durante a Guerra” (1960) episódios – alguns bem macabros, como os da fome, e outros mais empolgantes, como o da dupla de criminosos conhecida como “Bonnie & Clyde” –, e lhes deu um contexto que, mais do que histórico, político ou militar, salienta maioritariamente os circunstancialismos e as proverbiais especificidades do território.
É preciso esperar por 1991 para um relato pessoal – feito a partir da experiência de primeira mão, ainda que filtrado por artifícios romanescos – ver a luz do dia. Trata-se do livro “Eu Estive em Macau Durante a Guerra”, de António Andrade e Silva, que desempenhou a importante função de Capitão dos Portos de Macau durante a Guerra do Pacífico. A obra tem por base o seu testemunho e é uma narrativa inacabada, também porque o seu autor não se quis alongar, advertindo que pretendeu “evitar possíveis melindres”. Segundo Andrade e Silva (que faleceu muito antes do livro ser publicado), era “cedo ainda para se revelarem todos os acontecimentos decorridos em Macau durante a última Grande Guerra, muitos dos quais, pela sua natureza confidencial, nem sequer chegaram ao conhecimento do autor, não sendo aconselhável dar publicidade a outros por razões que facilmente se compreendem”.
A cautela era generalizada, à semelhança, inevitavelmente, do silêncio. Como escreve Manuel Teixeira no prefácio deste livro, “sobre a última Guerra Mundial publicaram-se em Hong Kong vários livros e até teses de doutoramento. Em Macau, praticamente nada”. O Padre Teixeira contava que fizera, em vão, “vários apelos, nos jornais, aos que estiveram aqui durante a Guerra, para relatarem as suas experiências”. Do mesmo modo, dirigiu-se “a todos os missionários da Diocese de Macau para que me mandassem os relatórios de tudo o que lhes acontecera” durante o conturbado período. “Ninguém respondeu”.
Este é um silêncio que também diz muito sobre uma certa maneira portuguesa de estar – em casa, no mundo, ou, neste caso, em Macau. Sobretudo, durante a longa ditadura do Estado Novo, onde havia (compreensíveis) razões para o recato da discrição.
Ainda que tivesse beneficiado de um estatuto de neutralidade que, apesar de comprometida, serviu de contrapartida e de bolsa de ar numa região absolutamente sufocada debaixo do jugo japonês, Macau sofreu como nunca.
Sabemos isso pelos relatos, infelizmente poucos, em português, que sobreviveram. Em chinês, serão ainda menos. Pelo menos, na esfera pública. Haverá diversas justificações para tal, entre as quais não se deve menosprezar a necessidade de sarar feridas, esquecer e, assim – esperançosamente –, resolver traumas.
Com a China ocupada e, mais tarde, também Hong Kong, o fluxo de refugiados que acorreram a Macau mais do que duplicou a população do pequeno território, que se viu “obrigado” a acomodar perto de meio milhão de pessoas. As dificuldades eram muitas, mas Macau não fechou as portas.
Faltava quase tudo. Comida, medicamentos, água, conforto. Os centros de assistência e acolhimento tiveram de ser improvisados. Os mortos acumularam-se nas ruas, sobretudo durante o Inverno. A fome levava a procurar o que quer que houvesse de vagamente parecido com um alimento nos lugares mais inimagináveis. Como os esgotos. Sucedem-se as histórias de canibalismo.
Foi por entrevistas, apontamentos soltos e uns raríssimos livros que se dispersaram as lembranças destes tempos impiedosos. Em português, o de Andrade e Silva é também raro, no contexto que vai além deste período, pelo facto de o seu autor ter desempenhado um cargo público (e de elevada responsabilidade, ainda por cima, o que motivaria os tais cuidados na escrita).
Não é de estranhar, por isso, que um relato mais desassombrado coubesse a um estrangeiro, mais concretamente ao cônsul britânico residente em Macau, de 1941 a 1946, John Pownall Reeves (2014).
“The Lone Flag” é o título destas memórias, alusão à única bandeira do Reino Unido que, a partir de 1942 e até ao fim da guerra, se manteve hasteada entre a Índia e a Austrália, na missão diplomática que Reeves chefiou em Macau.
Sinal da particularidade da situação em que a cidade (sempre) se encontrava, o consulado britânico ficava ao lado do japonês, liderado por Yasamitsu Fukui (“fine man”, considera Reeves, que confidencia que o governador português, Gabriel Teixeira, pensava o mesmo acerca do diplomata nipónico, costumando dizer espirituosamente que “devia ser promovido a outra nacionalidade”). Mas nem tudo se passava nesta brandura de cavalheiros.
“No Dia de Natal [de 1941] caiu Hong Kong e começou o longo isolamento de Macau”, escreve Reeves. Dependia-se do interior da China e de Hong Kong para obter todo o tipo de bens. Esse fornecimento foi interrompido no dia 8 de Dezembro de 1941, início do ataque nipónico a Hong Kong. Daí até 14 de Agosto de 1945, conta Reeves, não houve correio nem “nada que não pudesse ser transmitido via rádio”. Segundo o diplomata, “em 1945, bebés de outras partes do mundo estavam muito melhor informados do que nós”.
O corte das relações – comunicações, transportes – com o exterior teve impactos devastadores em Macau e na sua população, que ficaram, assim, deixadas à sua sorte. Mas na terra do jogo, há sempre quem ganha.
“Tive grandes festas quase todas as noites”, diria, décadas mais tarde, Stanley Ho, que aproveitou as oportunidades da guerra para fazer muito dinheiro a contrabandear os bens que faltavam.
Também para muitos jovens este foi um período “muitíssimo divertido”, como contou José Silveira Machado, açoriano que chegou a Macau em 1933 com 15 anos de idade. “Macau animou-se com os refugiados de Hong Kong”.
De facto, da colónia britânica tinham partido para Macau também as orquestras filipinas, que haveriam de abrilhantar os salões da cidade, que nunca deixaram de acolher bailes e faustosos jantares. A vida continuava. Apareceram também novas casas de prostituição, jogo e ópio.
O ambiente de tensão, todavia, nunca se dissipava completamente. Mesmo quando a noite era das bebidas e das danças.
Conta Reeves que, num baile de caridade, um japonês bêbedo tentou forçar a orquestra, composta por músicos portugueses e filipinos, a tocar apenas músicas nipónicas. O homem tornou-se cada vez mais ameaçador, avisando que os japoneses tinham 30 homens armados no hotel, pelo que era melhor fazerem o que ele mandava. Foi nesse momento, escreve Reeves, que um chinês tocou no ombro do japonês, para lhe dar uma pequena informação: “nós temos 40”. O japonês acabou por abandonar o baile, mas, naquele hotel, nenhuma arma naquele ficou no interior do coldre. Esperava-se que o nipónico voltasse com reforços. “Estávamos sempre à beira de problemas como aquele; como é que nunca descambou num tiroteio, não faço qualquer ideia”.
Hugo Pinto
Jornalista











