Edição do dia

Segunda-feira, 22 de Junho, 2026
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
nuvens dispersas
27.5 ° C
27.5 °
27.5 °
87 %
5.5kmh
30 %
Seg
33 °
Ter
33 °
Qua
31 °
Qui
32 °
Sex
30 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More
      InícioCultura“Um Quarto Só Seu”: Reviver o fluxo da consciência de Virginia Woolf...

      “Um Quarto Só Seu”: Reviver o fluxo da consciência de Virginia Woolf através da dança-teatro

      O terceiro e último episódio da série “Um Quarto Só Seu” traz ao público mais uma análise da obra e vida de Virginia Woolf, desta vez numa interpretação adaptada para uma performance de teatro-dança, coreografada por Tina Kan e Jay Zheng. As apresentações de “Dearest” estão marcadas para os dias 28 e 29 de Junho, ambas dando início às 19h45, no auditório secundário do Centro Cultural de Macau. O projecto artístico, com curadoria de Alice Kok, vem sendo realizado desde 2022 e esteve inserido no 13.º Festival Rota das Letras 2024.

       

      A colectânea de eventos “Um Quarto Só Seu” receberá mais um episódio, na sua saga que deu início há quase dois anos. A performance de dança-teatro, que leva o nome “Dearest”, marca a terceira e última parte do projecto, que leva o mesmo nome que a conhecida obra literária de Virginia Woolf, proeminente escritora feminista do início do século XX. Marcado para os dias 28 e 29 de Junho, com uma apresentação do espectáculo para cada dia, o projecto foi um dos vários eventos inseridos no 13.º Festival Rota das Letras 2024.

      A obra “Um Quarto Só Seu” de Virginia Woolf é um ensaio feminista seminal que tem sido amplamente lido e estudado desde a sua publicação em 1929. Proferido numa conferência na Universidade de Cambridge, onde as mulheres ainda não eram autorizadas a frequentar como estudantes, o ensaio argumenta que a capacidade das mulheres para criar obras literárias de génio é gravemente prejudicada por restrições sociais, incluindo a falta de independência financeira, educação e oportunidades de desenvolvimento intelectual.

      Foi sobre este tema que a curadora e directora executiva do festival, Alice Kok, decidiu unir forças com uma série de outras figuras femininas da comunidade artística e intelectual de Macau, para lançar o primeiro episódio da série, em 2022.

      “A ideia surgiu das obras literárias de Virginia Woolf, há dois anos, e a vontade de tentar explorar a condição da mulher contemporânea em relação ao pensamento crítico da autora, nascida há mais de um sáculo”, disse Alice Kok ao PONTO FINAL.

      Em comemoração aos 140 anos do nascimento de Virginia Woolf, foram criados workshops de literatura e teatro, bem como oficinas de criação de música e prática de instrumentos, para além da performance final, que será apresentada para a semana. Figuras como a autora e académica da Universidade de Macau, Agnes Lam, estiveram a guiar participantes na criação de histórias pessoas, num formato de diário anónimo, que foram mais tarde colectados e adaptados para a performance.

      “Woolf falava sobre as mulheres precisarem de um ‘quarto próprio’, um espaço onde possam pensar, escrever e criar sem interferências ou distracções. Um ‘quarto mental’, para que as mulheres pudessem ultrapassar as barreiras impostas pela sociedade patriarcal da época. Argumento pertinente ainda nos tempos de hoje, infelizmente”, destacou mais uma vez Alice Kok.

      “Mas não pretendemos criar uma oposição entre os sexos, mas sim uma reconciliação. Tanto que a primeira performance no terraço do Art Garden foi sobre a androginia do ser humano. Sobre a ideia de Woolf, que todos nós possuímos o feminino e masculino dentro de nós”, acrescentou.

      Para além das histórias colectadas pelos participantes, também foram feitos ensaios para teatro, com um workshop apresentado pela terapeuta e actriz, membro da associação Comuna de Pedra, Jojo Lam. Experiência que contribuiu para a interpretação conclusiva da obra de dança-teatro, coreografada pela bailarina de Macau, Tina Kan, e o coreógrafo baseado em Pequim, Jay Zheng, para este terceiro e último episódio da saga.

      “Quando descobri Virginia, soube que ela tinha sofrido muito no passado. Foi abusada sexualmente em criança. Devido à depressão, sofria de sintomas prolongados, como dores de cabeça e alucinações auditivas. Apesar disso, nunca deixou de escrever. Como escritora, é boa a usar a escrita de ‘Fluxo de Consciência’, trazendo as imagens do mundo interior para uma expressão fluente e profunda”, esclareceu Tina Kan.

      O espectáculo “Dearest” será uma combinação de narrações, com textos retirados tanto das histórias colectadas como da própria obra de Virginia Woolf, servindo de pano de fundo para a trama desta performance, com coreografias interpretadas da própria experiência dos artistas envolvidos, em relação à vida e estado mental da autora em destaque.

      “O meu conceito criativo é sobre o ser humano, as relações, a vida e a natureza. Cada um de nós terá experiências diferentes. Não temos tempo para ter medo do desconhecido na vida. Só podemos avançar passo a passo, viver no presente. Na performance, utilizámos algumas histórias reais de mulheres e apresentámo-las criativamente em palco. Trata-se de uma obra de arte contemporânea e de literatura”, concluiu Kan.

      Serão cinco actores-bailarinos, sendo Tina Kan uma das que também vai actuar, juntamente com a bailarina Helen Ko, a actriz de teatro Wang Xuan e os bailarinos Cai Guan Tao e Lin Bencheng, ambos de Pequim. Além da presença de Faye, do grupo Evade, de Macau, para a banda sonora original.

       

      Obra prima intemporal

       

      O ensaio “Um Quarto Só Seu” de 1929 critica as expectativas sociais depositadas nas mulheres, que muitas vezes dão prioridade à domesticidade e à maternidade em detrimento das actividades intelectuais. Refere que estas expectativas podem levar a sentimentos de culpa e ansiedade, dificultando a prossecução dos interesses criativos das mulheres. Em contrapartida, Woolf celebra o poder da imaginação e a sua capacidade de transcender os constrangimentos sociais.

      O ensaio recebeu críticas mistas aquando da sua publicação inicial, mas desde então tornou-se um texto de referência na literatura feminista. Os seus argumentos sobre a importância da independência financeira, da educação e da liberdade criativa permanecem actuais e relevantes, tornando-o um texto essencial para qualquer pessoa interessada em estudos de género, literatura ou justiça social.

      Em termos gerais, “Um Quarto Só Seu” é uma obra-prima da literatura feminista que continua a inspirar e a desafiar os leitores actuais. A sua ênfase na necessidade de as mulheres terem um “quarto só seu”, tanto literal como figurativamente, continua a ser um poderoso apelo à acção para a mudança social e do status quo dos actuais sistemas de domínio.

      O projecto recebeu apoio do Fundo para o Desenvolvimento da Cultura e tem como colaborador a Zhengjie Arts. O espectáculo será apresentado no auditório secundário do Centro Cultural de Macau, oposto à entrada do auditório principal. A página de Facebook do festival Rota das Letras já tem os bilhetes disponíveis para reserva, sendo possível comprar bilhetes para grupos com desconto. Cada espectáculo tem a duração de 1 hora e será aberto a pessoas maiores de 13 anos de idade.