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      O Silêncio da Memória

      O místico (e mítico) Tibete: uma construção do mundo ocidental

       

      Há 73 anos, mais precisamente a 23 de maio de 1951, representantes das autoridades tibetanas, chefiadas por Ngapoi Ngawang Jigme, com autorização do Dalai Lama [ver Goldstein, Melvyn C. (1997).  The Snow Lion and the Dragon: China, Tibet, and the Dalai Lama. Berkeley, California: University of California Press] participaram de negociações em Pequim com o governo chinês. Resultou no Acordo de Dezessete Pontos que afirmou a soberania da China sobre o Tibete oficialmente regulada pelo 14ºDaila Lama e o 10º Panchen Lama. O acordo foi ratificado em Lhasa alguns meses depois. A China descreveu todo o processo como a “libertação pacífica do Tibete”.

      (Disponível em: http://www.china.org.cn/english/zhuanti/tibet%20facts/163877.htm).

      Na perspetiva chinesa, ao posicionar o Tibete como o fulcro da sua política estratégica na sensível região dos Himalaias, impactando assim direta e negativamente a Índia, aumentando a pressão militar, económica e diplomática sobre a Índia na região dos Himalaias ao longo das fronteiras do norte do continente indiano,  houve outras razões objetivas geopolíticas da integração do Tibete na China, designadamente a necessidade de defender as fontes de água que nascem no planalto de Qinghai-Tibet e que há milhares de anos criaram e abastecem os maiores rios da China, dos quais dois estão intimamente à edificação da civilização chinesa, designadamente o rio Yangtze que é o terceiro rio mais longo do mundo e o primeiro rio mais longo da Ásia e que é o rio-mãe da nação chinesa e o Rio Amarelo que é o segundo rio mais longo da China e o sexto rio mais longo do mundo e também o berço da civilização chinesa e a área mais antiga desenvolvida da China.

      Outros tantos rios da China nascem no planalto de Qinghai-Tibet: o rio Yarlung Zangbo que é o rio mais longo de terras altas da China e um dos rios mais altos do mundo;  o rio Yarlung Zangbo que é o rio mais longo de terras altas da China e um dos rios mais altos do mundo;  o rio Mekong/Lancang que é o rio mais longo do sudoeste da China, o primeiro rio mais longo do sudeste da Ásia, o terceiro rio mais longo da Ásia, e o sétimo rio mais longo do mundo; e finalmente o rio Nuque  é um dos principais rios do sudoeste da China.

      O mítico Tibete, uma construção do Ocidente e os seus propósitos.

      Seria salutar a leitura obrigatória nas escolas da obra do historiador francês Marc Ferro,  “A Cegueira – Uma Outra História do Nosso Mundo”. A pergunta fundamental que o autor faz é “Por que razão somos tão cegos perante a realidade? Neste caso, a realidade  tibetana até 1959 que está amplamente documentada como adiante se referenciará.

      O caso do Tibete e do Budismo Tibetano são paradigmáticos de como o Ocidente construiu  um mito sobre uma região idealizada, espiritualista e transcendental, sobre um Shangri-La longínquo e místico escondido na cordilheira do Tibete. Uma das razões do Ocidente para tal romantização da religião tibetana terá sido usá-la como arma anti-China (Conboy Kenneth; Morrison James (2002). The CIA’s secret war in Tibet. Kansas:  University Press of Kansas).

      No seu livro autobiográfico My Land and My People, publicado em 1962, o Daila Lama foi bastante claro sobre o encontro com a CIA relativamente as questões que giravam em torno do envolvimento da CIA (e mais abrangentemente dos EUA) nas rebeliões no Tibete, estando tal matéria bastante documentada no que diz respeito às decisões diplomáticas e internacionais para ajudar a situação tibetana.

      Como refere Israel Epstein no seu livro Tibet Transformed (Beijing; New World Pres, 1983, p.8) a conclusão lógica das particularidades do Tibete não é o separatismo, como a história tem provado repetidas vezes. O separatismo tibetano dos tempos modernos, desde o seu nascimento, tem sido concreta e comprovadamente não ligado às necessidades de progresso da região e do povo, mas com as manobras do imperialismo americano e o incentivo estrangeiro ao separatismo tem sido associado não apenas à destruição económico-política-militar de toda a China, mas também a impulsos geopolíticos específicos para dominar o “teto do mundo” estratégico para fins globais.

      Mas a realidade histórica dessa sociedade mítica de contornos hollywoodescos é tenebrosa e dramaticamente diferente desse paraíso espiritual na Terra consagrado no livro “Horizonte Perdido“, do britânico James Hilton, em 1933. Essa admirável obra de ficção das edições de bolso Livros do Brasil conta a bela história de um Tibete intemporal e misterioso, escondido nos Himalaias, que me encantou nos meus 13 anos de idade. Na verdade, grande parte de nós tem no imaginário o desejo de encontrar um lugar secreto, silencioso e enigmático, desconhecido do mundo, um lugar recôndito protegido por uma geografia inacessível, onde a natureza desabroche colorida e verdejante em todo o seu esplendor.

      Para desfazer tal equívoco sobre esse Tibete misterioso bastará ler historiadores e analistas políticos, como o americano Michael John Parenti, a jornalista e professora indiana de relações internacionais, Jyoti Malhotra, e outros autores que citarei adiante para perceber como o idílico Tibete tem sido apresentado de forma intencional e politicamente branqueada, reveladora de um fundamentalismo religioso manipulador e desonesto. Vejam-se alguns extratos de outra versão do místico Tibete, ao reverso do discurso ocidental sobre a espiritualidade tibetana, a arte de levitação e outras particularidades do ocultismo secretamente guardadas na cordilheira dos Himalaias:

      As religiões têm tido uma relação estreita não apenas com a violência, mas também com a exploração económica. Na verdade, muitas vezes é a exploração económica que exige a violência. Tal foi o caso da teocracia tibetana. Até 1959, quando o Dalai Lama presidiu o Tibete pela última vez, a maior parte da terra arável ainda estava organizada em propriedades senhoriais trabalhadas por servos. Essas propriedades pertenciam a dois grupos sociais: os ricos latifundiários seculares e os ricos lamas teocráticos.

       

      Até mesmo um escritor simpatizante da velha ordem admite que “uma grande quantidade de imóveis pertencia aos mosteiros, e a maioria deles acumulou grandes riquezas. Grande parte da riqueza foi acumulada “através da participação ativa no comércio e no empréstimo de dinheiro” (Pradyumna P. Karan (1976). The Changing Face of Tibet: The Impact of Chinese Communist Ideology on the Landscape. Lexington, Kentucky: University Press of Kentucky, 64).

      O mosteiro de Drepung era um dos maiores proprietários de terras do mundo, com os seus 185 feudos, 25.000 servos, 300 grandes pastos e 16.000 pastores. A riqueza dos mosteiros estava nas mãos de um pequeno número de lamas de classe elevada. A maioria dos monges comuns vivia modestamente e não tinha acesso direto a grandes riquezas. O próprio Dalai Lama “viveu ricamente no Palácio Potala de 1.000 quartos e 14 andares” (vd. Gary Wilson’s report in Worker’s World, 6 February 1997. 11). Os líderes seculares também viviam na opulência: um exemplo notável é o do comandante-em-chefe do exército tibetano, membro do gabinete leigo do Dalai Lama, que possuía 4.000 quilómetros quadrados de terra e 3.500 servos, como referem Gelder & Gelder (1964), em The Timely Rain, Travels in New Tibet. London: Hutchinson & Co.

      O velho Tibete foi retratado por alguns admiradores ocidentais como “a nation that required no police force because its people voluntarily observed the laws of karma”, como observou com ceticismo Lopez (2018: p. 9), em Prisoners of Shangri-La. London/Chicago: The University of Chicago Press, Ltd. De facto, o país possuía um exército profissional, embora pequeno, que servia principalmente como forma de policiamento  para os proprietários manterem a ordem, protegerem as suas propriedades e perseguirem servos fugitivos.

      Meninos tibetanos eram regularmente retirados das suas famílias camponesas e levados para os mosteiros para serem treinados como monges. Uma vez lá, ficavam ligados para sempre à vida monástica. O monge Tashì-Tsering relata que era comum estas crianças serem abusadas sexualmente nos mosteiros. Ele próprio foi vítima de violação continuada a partir dos nove anos, como testemunha em Melvyn Goldstein, William Siebenschuh & Tashì-Tsering (1997). The Struggle for Modern Tibet: The Autobiography of Tashì-Tsering. Armonk. N.Y.: M.E. Sharpe. As propriedades monásticas também recrutavam crianças para servidão vitalícia como domésticas, dançarinas e soldados.

      No antigo Tibete, havia um pequeno número de agricultores que subsistiam como uma espécie de campesinato livre e mais cerca 10.000 pessoas que constituíam as famílias de mercadores, lojistas e pequenos comerciantes de “classe média”. Milhares de outros eram mendigos. Havia também escravos, geralmente empregados domésticos que não possuíam nada, cujos descendentes já nasciam na escravidão (Gelder & Gelder, The Timely Rain, op.cit. p. 110). A maioria da população rural era constituída por  servos. Tratados pouco melhor do que os escravos, não recebiam educação ou cuidados médicos. Esperava-se também que fornecessem animais de carga e transporte mediante pedido (Melvyn C. Goldstein, A History of Modern Tibet 1913-1951. Berkeley: University of California Press, 1989). Os seus donos diziam-lhes que culturas cultivar e que animais criar. Não podiam casar sem o consentimento do seu senhor ou lama. Podiam também ser facilmente separados das famílias caso os seus proprietários os alugassem para trabalhar em locais distantes (Anna Louise Strong, Tibetan Interviews. Peking: New World Press, 1959, 15, 19-21, 24.). Os senhores não tinham responsabilidade pela manutenção do servo e nenhum interesse direto na sua sobrevivência, pois não eram uma propriedade cara. Os servos tinham de se sustentar; como em qualquer sistema esclavagista, estavam vinculados aos seus senhores, garantindo-lhes uma força de trabalho fixa e permanente. Não podiam organizar-se, nem fazer greve, nem partir livremente como os trabalhadores normais num contexto de mercado. Os senhores supremos tinham o melhor dos dois mundos.

      Relata uma mulher de 22 anos, serva fugitiva: “As servas bonitas eram geralmente levadas pelo dono como empregadas domésticas e usadas como ele muito bem quisesse”; elas “eram apenas escravas sem direitos” (citada por Strong (1959), em Tibetan Interviews. Peiking: New World Press, p. 25). Os servos precisavam de autorização para se deslocarem e os proprietários de terras tinham autoridade legal para capturar aqueles que tentavam fugir. Um fugitivo de 24 anos saudou a intervenção chinesa como uma “libertação”, testemunhando que sob a servidão fora submetido a trabalho incessante, a fome e a frio. Depois da sua terceira fuga fracassada, foi impiedosamente espancado até sangrar pelo nariz e pela boca pelos homens do proprietário, e então estes deitaram-lhe álcool e soda cáustica nas feridas para aumentar a dor (Strong, Tibetan Interviews, op. cit. p. 31).

      Os servos eram tributados ao casar, pelo nascimento de cada filho e por cada morte na família. Eram taxados por plantar uma árvore no quintal e por manterem animais. Eram também taxados pelas festas religiosas, por danças e por tocarem tambores em público, podendo inclusivamente ser mandados para a prisão. Aqueles que não conseguiam encontrar trabalho eram multados por estarem desempregados e, se viajassem para outra aldeia em busca de trabalho, pagavam um imposto de passagem. Quando as pessoas não podiam pagar, os mosteiros emprestavam-lhes dinheiro com juros de 20 a 50 por cento. Algumas dívidas foram passadas de pais para filhos e netos. Os devedores que não pudessem cumprir as suas obrigações corriam o risco de serem feitos escravos (Gelder & Gelder, The Timely Rain, op. cit. 175-176; Strong, Tibetan Interviews, op. cit.25-26).

      Os ensinamentos religiosos da teocracia sustentavam esta organização das classes. Os pobres e os desprivilegiados foram persuadidos de que tinham trazido estes problemas sobre si mesmos devido a más ações em vidas anteriores. Portanto, tinham de aceitar a miséria da sua existência atual como uma expiação cármica, na expectativa de que a a sua sorte melhorasse na vida seguinte. Os ricos e poderosos declaravam os seus privilégios como recompensa e evidência tangível de virtude em vidas passadas e no presente.

      Alguns servos tibetanos não se limitaram a ser vítimas. Como referido, alguns fugiram; outros resistiram abertamente, sofrendo por vezes consequências terríveis. No Tibete feudal, a tortura e a mutilação- incluindo arrancar olhos, arrancar línguas e amputação – eram as punições favoritas infligidas a ladrões e servos fugitivos ou rebeldes. Ao viajarem pelo Tibete na década de 1960, Stuart e Roma Gelder entrevistaram um ex-servo, Tsereh Wang Tuei, que roubara duas ovelhas pertencentes a um mosteiro. Por causa disso, arrancaram-lhe os olhos e mutilaram-lhe as mãos. Explicou que já não era budista: “When a holy lama told them to blind me I thought there was no good in religion.” (Gelder & Gelder, The Timely Rain, op.cit. p.113).

      Como era contra os ensinamentos budistas tirar a vida humana, alguns prevaricadores foram severamente açoitados e “deixados para Deus”, para morrer na noite gelada. Os paralelos entre o Tibete e a Europa medieval são impressionantes e Tom Grunfeld, no seu livro sobre o Tibete (Grunfeld, A. Tom.  The Making of Modern Tibet, rev. ed. Armonk, N.Y. and London: 1996, p. 4) afirmou a propósito: “Tibet as a society that had been based on the gravest inhumanities, where a handful of aristocracy- both lay and clerical- had enslaved the people in a European-style medieval feudalism that visited the most barbaric punishments and cruelties upon the populace”. Para uma análise da sociedade feudal tibetana, vale a pena consultar a obra de Grunfeld nas págs. 7 a 33; e também Felix Greene, A Curtain of Ignorance. Garden City, N.Y.: Doubleday, 1964, p.241-249; Goldstein, A History of Modern Tibet, op. cit. 3-5; e Lopez, Prisoners of Shangri-La, op. cit.)

      Em 1959, Anna Louise Strong visitou uma exposição de equipamentos de tortura usados pelos senhores tibetanos. Havia algemas de todos os tamanhos, inclusive pequenas para crianças, e instrumentos para cortar narizes e orelhas, arrancar olhos, quebrar mãos e torcer pernas. Havia ferros para marcar pessoas, chicotes e instrumentos especiais para estripação. A exposição apresentou fotografias e depoimentos de vítimas que ficaram cegas, aleijadas ou amputadas por roubo. Havia o caso de um pastor cujo patrão lhe devia um reembolso em yuan e trigo, mas que se recusara a pagar. O pastor então levou uma das vacas do patrão e por causa disso teve as mãos decepadas. A outro pastor, que se opôs a que a esposa fosse levada pelo seu patrão, partiram-lhe as mãos. Na exposição havia também fotos de ativistas comunistas com o nariz e o lábio superior cortados e de uma mulher que fora violada e a quem depois cortaram o nariz (Prisoners of Shangri-La, passim. Strong, Tibetan Interviews, 91-96).

      Outros viajantes que visitaram o Tibete nos séculos XIX e XX comentaram o despotismo teocrático. Em 1895, o tenente-coronel inglês Dr. A. L. Waddell escreveu  no seu livro de viagens The Buddhism of Tibet or Lamaism, With Its Mystic Cults, Symbolism and Mythology and in Its Relation to Indian Buddhism (1895) que a população estava sob a “intolerável tirania dos monges” e documentou as superstições diabólicas que eles tinham criado para aterrorizar o povo. Em 1904, Perceval Landon, escritor e jornalista inglês, descreveu em The Opening of Tibet (1905) o governo do Dalai Lama como “uma máquina de opressão”. Mais ou menos nessa época outro viajante inglês, o capitão W. F. T. O’Connor, observou no seu livro Lhasa: an account of the country and people of Central Tibet (1905) que “os grandes proprietários de terras e os padres… exercem cada um no seu próprio domínio um poder despótico do qual não há apelo”, enquanto o povo é “oprimido pelo crescimento mais monstruoso do monasticismo e do ofício sacerdotal”. Os governantes tibetanos “inventaram lendas degradantes e estimularam um espírito de superstição” entre as pessoas comuns. Em 1937, outro visitante, Spencer Chapman, escreveu no seu livro Lhasa: The Holy City (1938). London: Chatto & Windus, que o monge lamaísta não gasta o seu tempo a pregar ou a educar o povo. O mendigo à beira da estrada não é nada para o monge. O conhecimento é a prerrogativa zelosamente guardada nos mosteiros e é usado para aumentar a sua influência e riqueza

      Por mais que se que queira acreditar no contrário, o antigo Tibete feudal e teocrático estava e continua a estar muito longe do romantizado Shangri La tão entusiasticamente nutrido pelos prosélitos ocidentais do budismo tibetano. Estes testemunhos históricos provenientes de fontes tão diversas ilustram o tipo de pessoa que “Sua Santidade” o Dalai Lama é e em que contexto, e como, exercia o seu poder teocrático absoluto.

      Infelizmente para “Sua Santidade”, nem com a ajuda dos serviços secretos americanos foi possível manter-se no seu recanto teocrático, mas tão só fugir para a Índia em 1959, o maior apoiante do Tibete na comunidade internacional, repudiando o Acordo de Dezessete Pontos.

       

      Rui Rocha

      Investigador

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      Redacção do Ponto Final Macau