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      500 ANOS DE CAMÕES: CONTINUAR A LER, CONTINUAR A PERGUNTAR

      No âmbito das comemorações do meio milénio do nascimento de Luís de Camões, o Rota das Letras – Festival Literário de Macau reuniu autores e académicos em torno da vida e da obra do bardo português.

      Em Portugal, as comemorações oficiais nos 500 anos do nascimento de Camões continuam por desvendar. Depois de muitos atrasos, sabe-se agora que a programação que estava inicialmente anunciada para começar em Março começará apenas em Junho, o que não impede que vários outros programas de celebração deste meio milénio camoniano estejam já anunciados e alguns a decorrer um pouco por toda a parte, em Portugal e não só, sem o aval das comemorações oficiais.

      Em Macau, Camões foi o figura central na última edição do festival literário Rota das Letras, e foi em torno da sua vida e da sua obra que se reuniu uma mesa intitulada «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. As perguntas sem resposta de Luís Vaz de Camões». Numa das salas da Casa Garden, ali mesmo ao lado do lugar onde Camões terá ou não escrito uma parte da sua épica, os académicos Kenneth David Jackson e Filipe de Saavedra juntaram-se ao autor e ilustrador Fido Nesti, criador de uma versão em banda desenhada de Os Lusíadas, para uma conversa moderada pela professora Sara Augusto. O tema da presença do bardo em Macau e na gruta não deixou de ser abordado, mas foi pelas diferentes edições de Os Lusíadas, pelos estudos camonianos e pelas muitas formas de divulgar e dar a ler a obra de Camões que andou boa parte da conversa.

      Dar a ler Camões e Os Lusíadas

      Entre 1974 e 2010, Kenneth David Jackson registou e estudou vinte e nove primeiras edições de Os Lusíadas que encontrou em bibliotecas públicas de diferentes países. O resultado dessa empreitada publicou-se num CD-Rom, então um formato que prometia ser o futuro, com o título Luís de Camões e a Primeira Edição d’Os Lusíadas, 1572. O fascínio do professor de Yale, especialista em literaturas portuguesa e brasileira, pela épica de Camões começou cedo, como contou ao público do Festival Literário de Macau: «Quando fui leccionar na Universidade do Texas, em Austin, jovem professor iniciante, soube que a Universidade tinha comprado uma preciosa primeira edição de Os Lusíadas, a do Morgado de Mateus. Então, interessei-me pela edição, e através dela fui à procura de outras e comecei a fazer essa colecção de todas as primeiras edições disponíveis em bibliotecas mundiais, o que levou um certo tempo, até porque de algumas delas era muito difícil conseguir o microfilme e a tecnologia naquela época era um pouco diferente.»

      Antes disso, já Kenneth David Jackson havia estudado Camões com Jorge de Sena, seu professor, mas foi uma edição particular da épica camoniana que mudou quase tudo na sua vida profissional: «Tudo começou com esse famoso exemplar que tem, dizem, a assinatura de Camões no final. Ninguém sabe se isto é verdade, claro, se é autêntico, mas ajuda a tornar essa edição mais singular, mais ilustre.» Para além de Camões e da sua obra, o professor assinou ao longo dos anos vários livros sobre as vanguardas modernistas em Portugal e no Brasil, Machado de Assis, a herança colonial portuguesa na Índia e noutros territórios asiáticos ou a heteronímia de Fernando Pessoa, mas Camões continua a ser uma referência fundamental, para além de matéria de uma das cadeiras que lecciona em Yale. Por agora, Keneth David Jackson aguarda com curiosidade, como contou ao público desta sessão, a nova edição de Os Lusíadas que está a ser preparada pelo Centro Camoniano da Universidade de Coimbra. Não existem edições a mais da grande épica em língua portuguesa e a melhor forma de a homenagear será dando-a a ler.

      A força do mito

      Coordenador da Rede Camões na Ásia & África, Felipe de Saavedra tem feito a sua parte nesta tarefa de divulgar a vida e a obra camonianas. Para lá das comemorações dos 500 anos do nascimento de Camões, o professor e investigador foi um dos organizadores do recente congresso Meio Milénio de Camões, que aconteceu no passado mês de Fevereiro, em Macau. Como contou ao público nesta sessão do Rota das Letras, Felipe de Saavedra quer, no âmbito da Rede Camões na Ásia & África, «estabelecer uma conferência anual de estudos camonianos em Macau, um dos principais pontos destes estudos e destas pesquisas que aqui se irão promover, e estamos a pensar quais são os moldes, ainda não estão definidos».

      Para além dessa vertente académica, essencial para fazer progredir o conhecimento sobre Camões e a sua obra, o investigador partilhou com a audiência desta sessão um outro projecto, este implicando Macau de uma forma mais directa: «O meu sonho era estabelecer um centro interpretativo da memória ligado aqui à Gruta, ou noutro espaço, mas onde houvesse algo virado para os visitantes. Camões atraía muitos visitantes no século XIX, de todas as partes do mundo. Na verdade, a Gruta de Camões é o primeiro santuário cívico que existe à volta da cultura portuguesa, onde há essa tradição quase religiosa de vir fazer uma oferenda. Tínhamos barcos que aportavam aqui e havia marinheiros que vinham de propósito fazer essa peregrinação à Gruta, que na verdade não é bem uma gruta, são uns penedos em forma de anta, mas que funcionou miticamente como gruta, porque isso tem outro simbolismo. Queremos reactivar a ideia de que esses visitantes, esses peregrinos, poderão vir aqui a Macau e ter algo mais do que só o busto, ter também um centro interpretativo com explicações sobre as questões das edições, dos livros, da vida, as questões por responder e as respondidas – porque também já há muitas respondidas.» Sobre algumas dessas questões, nomeadamente a data do nascimento do poeta, Felipe de Saavedra tem desenvolvido uma série de pesquisas e apresenta o início desse processo aqui mesmo, na página ao lado.

       

      Camões em imagens e humor subtil

      O paulista Fido Nesti nunca tinha estado em Macau e ainda não tinha visitado a Gruta de Camões no momento desta sessão do Rota das Letras. Fê-lo logo a seguir, nada incomodado com o facto de não haver certezas sobre a presença de Camões naquele lugar. Ao público do festival, explicou como nasceu a ideia de adaptar uma obra tão extensa e complexa como Os Lusíadas para a banda desenhada: «Este livro tem quase 20 anos, é de 2006. No Brasil, estudamos Os Lusíadas na escola, alguns trechos, e eu recebi esse convite da editora Peirópolis para fazer a adaptação para quadrinhos. E foi uma surpresa, porque tinham se passado tantos anos desde os meus tempos de estudo… tive de buscar na memória, reler o livro, buscar os cantos que mais me despertaram a atenção e ir costurando a partir daí. Não se compara com o volume do original, claro, mas ele funciona precisamente como um aperitivo para despertar o interesse pelos leitores mais jovens.»

      Esta versão em banda desenhada está longe de ser canónica. Fido Nesti escolheu alguns cantos de Os Lusíadas para resumir uma história longa, e fê-lo utilizando o texto original, o que não é prática comum nestas adaptações com intuito didáctico. Na verdade, a versão de Nesti vai muito além do gesto de contar uma história com recurso a outra linguagem, tirando partido de um humor refinado para ilustrar ou comentar visualmente certas cenas da épica. O resultado será um livro pensado para os mais novos, para lhes aguçar a vontade de ler Camões nas suas palavras, mas é sobretudo um livro onde algumas das muitas camadas da obra camoniana são trazidas à superfície, o que talvez seja um deleite também para leitores mais velhos.

      Encerrada a sessão, nada a acrescentar à factualidade da presença de Camões em Macau, ou à sua ausência. A Gruta continua ali ao lado, recebendo visitas e homenagens, e talvez esclarecer esse mistério não traga nada de novo àquilo que verdadeiramente importa para uma comunidade: a força de um mito vivida quotidianamente. Essa é real e não precisa de documentos históricos.