Novo livro de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, editado pela Fundação Jorge Álvares, narra as aventuras de Camões em Goa e Macau, misturando realidade e ficção.
Em Camões no Oriente, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, o leitor é conduzido pelos protagonistas a vários episódios reais da vida do poeta português nesta parte do mundo. Por isso, depois de Goa, a história passa por vários momentos, em Macau: o cargo de provedor dos defuntos e ausentes, a escrita de Os Lusíadas, o convívio entre portugueses e chineses e o regresso a Portugal. O título é o quarto de uma série intitulada Portugueses no Oriente e, confidenciam as autoras, em entrevista ao Parágrafo, já há um próximo quase pronto: um livro sobre o primeiro embaixador português enviado à China, Tomé Pires.
Camões no Oriente inclui uma parte ficcional e histórica, num equilíbrio que pretende atrair os mais novos para a vida do poeta português. «Tentámos manter um rigor histórico e fazer uma ficção histórica, mas respeitando os parâmetros da vida naquela época e daquilo que se sabe das personagens que trabalhamos», conta Isabel Alçada.
A integrar a biblioteca digital da Fundação Jorge Álvares desde o fim do ano passado, o livro Camões no Oriente começou a ser distribuído, em Abril, na Rede Nacional de Bibliotecas Escolares, em colégios privados e nas escolas portuguesas do mundo.

O poeta esteve em Macau?
Nos livros de História, um ponto particularmente enigmático da vida do poeta português é a passagem por Macau. Em Camões no Oriente, as autoras não tiveram dúvidas. «A maioria dos historiadores actuais diz que não tem dúvidas de que Camões esteve no território», diz Ana Maria Magalhães. «Além de tudo o mais, ele foi nomeado para um cargo em Macau e teve mesmo de lá estar agora, se foi um ano ou dois», continua a autora, deixando no ar a incerteza sobre o tempo que lá esteve.
Na opinião das autoras, a dúvida maior é se Camões terá escrito parte de Os Lusíadas numa gruta em Macau. «Os historiadores não têm certeza se ele iria para lá escrever», diz Isabel, acrescentando, entre risos: «Mas nós achamos que sim e acabou nós é que somos as autoras. Aliás, Os Lusíadas foram todos escritos no Oriente — durante 17 anos Camões não terá ido a Portugal. «Nós até arranjámos uma solução fantástica [no livro], que foi pôr umas tábuas [na gruta] e as pessoas irem lá escrever, porque Macau é muito quente e ali há alguma aragem», continua.
Admiradoras da lírica de Camões, as autoras quiseram «dar a ideia de como foi a vida do poeta que está por detrás daquela maravilhosa obra», diz Isabel, logo apoiada por Ana. «Não há nada dele que eu não diga que não é genial.»
Com uma vida errática e sem depoimentos escritos, as autoras consultaram muitos biógrafos e centraram-se nos pontos de consenso entre todos. «Seguimos os episódios que são seguros da vida dele, no Oriente», diz.
Um génio com uma vida errante
Ao fazer a pesquisa para este livro, Ana revela ter ficado com o «coração partido», perante as desventuras de Camões. «O nosso maior poeta teve uma vida tão triste», admite. «Preso três vezes», diz, acrescentando: «Quando regressa a Lisboa, ninguém lhe liga nenhuma.» Isabel continua: «Não tinham percebido ainda o valor que aquele homem tinha. Era um estroina, um boémio.» O que queria era escrever e «nem dinheiro para a passagem de volta a Lisboa conseguiu juntar».
Tratando-se de «um dos maiores escritores do mundo», com uma vida cheia de amores e peripécias, as autoras afirmam que o objectivo é «atrair os mais novos» para o trabalho do poeta. «O que queremos transmitir é que foi uma vida entusiasmante, porque sabemos que, quando conhecemos a vida de uma personagem que escreve, a obra torna-se mais apetecível», salienta Isabel.
Aliás, diz Ana, para as crianças, muitas vezes «Camões entra pela pior porta», que é o estudo de Os Lusíadas, na escola. «A distância é muito grande», refere, salientando: «É o grande poeta, mas temos de estudar este livro, que é uma obra complicadíssima.» Por isso mesmo, ao longo de Camões no Oriente, além de ficção entrecortada pela realidade, foram-se introduzindo trechos da lírica do poeta, assim como de Os Lusíadas. A esperança é de que «se crie um laço de amizade e de afecto com quem lê».
A integrar a biblioteca digital da Fundação Jorge Álvares desde o fim do ano passado, o livro Camões no Oriente começou a ser distribuído, em Abril, na Rede Nacional de Bibliotecas Escolares, em colégios privados e nas escolas portuguesas do mundo.

Os vários títulos
Camões no Oriente é o quarto livro de uma série assinada pelas duas autoras e intitulada Portugueses na China, editada pela Fundação Jorge Álvares. Desta colecção fazem também parte Encontros na Cidade Proibida, Navio Mistério – a Nau do Trato e Missão Impossível.
Qualquer um destes títulos, é um misto de ficção e realidade. «Por exemplo, Navio Mistério – a Nau do Trato baseia-se numa maqueta extraordinária de uma nau, que existe no Museu do Centro Científico e Cultural de Macau», diz Ana. «Imaginámos dois miúdos, que foram absorvidos pela maquete e seguiram viagem na nau do trato já não a maqueta, mas a verdadeira.»
O que as autoras procuraram fazer, em qualquer um destes títulos, foi «pegar em personagens que, de alguma forma, conduzem o leitor e vão sendo os intérpretes das coisas que vêem e que os nossos leitores podem não ver nem perceber», esclarece Isabel. Há depois a parte histórica, que é apenas informativa. «E é o mais clara possível e simples, destinada ou aos leitores que são mais curiosos ou aos professores, pais ou adultos que queiram ter também a informação», acrescenta Ana.
Quanto ao último título, que está na fase final de ajustes, Viagem à China Tomé Pires ao Serviço do Rei, exigiu também muita investigação, cabendo a revisão científica ao historiador Rui Loureiro. «É uma figura fascinante, este primeiro embaixador de Portugal na China, que é também o primeiro embaixador europeu na China», esclarece. Dada a sua importância, merece ser recordado, mas, para o tornar mais interessante aos olhos dos mais jovens, foi necessário adicionar mistério. «Era um químico, um boticário, um farmacêutico», refere Isabel, acrescentando: «Era também um homem com uma curiosidade incrível que, na Suma Oriental, faz uma descrição que vai do Mar Vermelho à China dos povos, dos costumes, dos hábitos, dos alimentos, das religiões e dos produtos que havia em cada local.»
A ponte para os leitores mais jovens foi feita com a introdução de um elemento novo para as autoras: a inteligência artifical. «No livro, os protagonistas estão a fazer uma pesquisa para uma apresentação de um trabalho e lembram-se de consultar a inteligência artificial», conta Ana. «Eles também não sabem ao certo se aquilo que lhes aparece é real ou se é uma viagem no tempo.»
A colaboração com a Fundação Jorge Álvares começou ainda quando Carlos Melancia, antigo Governador de Macau, estava à frente da instituição. «Desafiaram-nos para um primeiro livro sobre Jorge Álvares», recorda Isabel Alçada.











