Há muitos modos possíveis de contar uma história, qualquer que ela seja e independentemente da sua maior ou menor aproximação àquilo a que chamamos realidade. A escolha de um desses modos costuma ser fulcral em literatura, uma vez que o modo como se conta é a pedra de toque de um bom texto, para começo. O que se segue dependerá de demasiadas coisas para que generalizemos. De qualquer modo, se a escolha desse modo é fundadora no que à literatura diz respeito, a não assunção de uma via única nessa escolha pode ser o modo mais aproximado de uma verosimilhança, a tal que aproxima literatura e vida – como se fossem coisas afastadas… É isso que faz Hernan Díaz em Confiança, originalmente publicado em 2022 e vencedor de vários prémios, entre eles o Pulitzer de 2023. Em português, está publicado pela Livros do Brasil, com tradução de Francisco Agarez.

Em vez de um modo unívoco de contar a história que quer contar, Díaz opta por desenrolá-la a partir de quatro narrativas tão distintas que só o avanço da leitura permitirá ir decifrando as ligações entre elas. Dentro deste livro há, então, uma novela, um registo autobiográfico inacabado, uma memória e um diário. Cada um desses registos narra um conjunto de acontecimentos de um determinado modo, umas vezes contraditório, outras complementar. Na verdade, o que aqui se narra não são apenas os acontecimentos – e esses passam pela construção do império de um milionário norte-americano que acabará por ter um papel fundamental no crash da bolsa, em 1929, e nos acontecimentos subsequentes – mas também o novelo emaranhado de fios que conduziram a esses acontecimentos, puxados por diferentes personagens, com percursos familiares que não faziam prever que acabassem por se cruzar. Confiança tem essa vertente de romance histórico, se quisermos, mas seria redutor descrevê-lo como um livro sobre o colapso financeiro de 1929, ainda que esse facto histórico o atravesse. Este romance não é tanto sobre dinheiro como sobre o estranho modo de ver o mundo que as pessoas que o detêm em quantidades exorbitantes praticam. De certo modo, Díaz assume uma espécie de pesquisa antropológica movida pela curiosidade, tanto quanto pela estranheza, mas em vez das ferramentas canónicas para um trabalho dessa natureza, usa a literatura. O cenário do crash bolsista de 1929 oferece um contexto histórico, ainda por cima sobejamente conhecido e reflectido na literatura e no cinema, portanto, inculcado no imaginário ocidental, mas o que Confiança quer alcançar é algum sentido para essa estranha forma de vida que passa pela acumulação de capital a um nível astronómico e pela estranheza de boa parte dessa acumulação decorrer de operações que negoceiam com mais capital e onde nunca nada parece ser construído, criado, produzido. Nesse sentido, para lá da relação histórica com 1929, é fácil recolocar a narrativa na crise do subprime de 2008 ou na bizarra tendência que os mercados têm para se “aborrecerem” com coisas muitas vezes impalpáveis.
No original, Confiança intitula-se Trust, o que permite esse duplo sentido remetendo para a confiança propriamente dita e para um fundo financeiro, um artifício da linguagem permitido pela língua inglesa que não deixa de ser sarcástico. Para lá do crash, da estranheza de quem enriquece com fogos fátuos e do papel que apenas uma pessoa pode desempenhar naquilo a que chamamos economia mundial, Confiança é também sobre a solidão e sobre essa contradição entre tudo poder fazer, porque o dinheiro assim o permite, e nunca saber com quem contar. Que a narrativa decorra em Nova Iorque permite ao autor abrir o foco para lá do enredo, assumindo a cidade e o seu frenesi como elemento estruturante, contando partes da sua história e da sua construção sempre em curso, na qual os imigrantes tiveram um papel tão fundamental. Confiança será sobre tudo isso, mas o seu mais íntimo ponto de irradiação é este: quem conta as histórias que nos fazem e definem? A voz ou as vozes a quem se dá o direito de dizerem como tudo aconteceu não são necessariamente as que o dizem melhor e de modo mais claro, sobretudo porque o que aconteceu é sempre muitas coisas. O poder de controlar a narrativa não é alheio aos outros poderes descritos neste livro, todos decorrentes da acumulação de riqueza, e, nesse sentido, Confiança tem um está mais interessado em assumir a polissemia do seu título e confirmar que é preciso escutar as histórias de muitas pessoas para percebermos alguma coisa do mundo do que em fixar uma narrativa linear que guarde para a posteridade o que aconteceu lá longe, em 1929.







