DESTAQUE – ENTREVISTA
Sara Figueiredo Costa
O professor e investigador Duarte Drumond Braga acaba de publicar um volume que reúne vários textos em prosa de Camilo Pessanha. China e Macau – Camilo Pessanha (Livros de Bordo) propõe uma leitura sobre essa relação complexa do poeta com a geografia oriental que lhe serviu, entre outras coisas, para definir uma outra relação: aquela que tinha com Portugal.
Camilo Pessanha deixou apenas um livro de poesia, A Clepsidra, e se mais nada tivesse escrito, continuaria a figurar no panteão dos grandes autores portugueses. Mas Pessanha escreveu muito, assinou textos na imprensa, proferiu discursos, assinou crítica literária, exerceu por escrito um pensamento em permanente inquietação. Esses textos foram sendo editados ao longo dos anos, com destaque para as obras Camilo Pessanha Prosador, da responsabilidade de Daniel Pires, e China: Estudos e Traduções, inicialmente editada por João de Castro Osório e mais tarde apresentada numa nova edição ao cuidado de Daniel Pires. Ambos os livros são hoje difíceis de encontrar e foi esse o motivo central para Duarte Drumond Braga, professor na Faculdade de Letras de Lisboa, investigador e também poeta, voltar a olhar para a prosa de Pessanha e editar parte dela num volume intitulado China e Macau – Camilo Pessanha (com chancela editorial da Livros de Bordo). Este livro reúne uma série de textos fundamentais para compreender a relação de Pessanha com geografia oriental que adoptou como casa, mas também com o seu país de origem.
Ao telefone desde São Paulo, Brasil, onde se encontrava para dar uma série de aulas, Duarte Drumond Braga explicou ao Parágrafo os motivos desse regresso aos textos de Pessanha: «É um autor que precisa de estar disponível. Os textos sobre a China e sobre Macau são importantes e as pessoas não os conhecem muito; centram-se mais nos textos sobre estética chinesa, mas depois ignoram outros que são mais sociológicos. Esses outros textos sobre a China também são muito interessantes e têm outro tipo de preocupações que não só a questão estética. Então, acho que também por isso mereciam estar mais disponíveis para leitura.»
O texto introdutório deste volume vai fazendo luz sobre esses textos mais sociológicos, como lhes chama o investigador, revelando aspectos que ajudam a compreender a relação de Pessanha com a China e a cultura chinesa, bem como a importância de Macau na mundividência do autor e na sua relação à distância com Portugal. Nesse texto, Drumond Braga defende que é altura de abandonarmos a ideia, sempre tão alimentada em relação a Pessanha, do génio solitário, isolado, exilado. Como nasceu essa ideia, entretanto elevada à categoria de mito? Foi o meio académico que a alimentou, à medida que pesquisava sobre a vida e obra de Pessanha, sobretudo em Macau, ou terá sido uma ideia popular, baseada nas impressões dos conterrâneos do poeta? Drumond Braga não tem a certeza: «Talvez tenha sido uma mistura das duas coisas. De facto, isso não é verdade, como os trabalhos do Daniel Pires, do Paulo Franchetti e de várias outras pessoas já mostraram. Pessanha é professor do liceu, juiz, advogado, participa de organizações, de sociedades, é provavelmente maçon, faz parte das comissões republicanas, portanto, não tem nada de solitário, isolado. E depois há aquela questão do ópio, do desmazelo, sempre muito aumentada, mas acho que isso é um disparate, sinceramente, porque as duas coisas podem perfeitamente coincidir. Pode ser uma figura considerada excêntrica na época, porque ficava deitado a fumar ópio, e pode ao mesmo tempo ser juiz, portanto as duas coisas são possíveis e acho que provavelmente aconteceram. Agora, também por causa da distância Macau-Lisboa, é possível que as pessoas em Portugal tenham começado a alimentar essa ideia… não sei se a questão se explica pelo meio académico versus meio não-académico, mas provavelmente os que estão em Macau versus os que estão em Portugal. Se calhar, quem estava em Portugal é que exagerava mais essa nota do exotismo, talvez seja por aí.»
Curiosidade e preconceito
Para além do mito do poeta excêntrico e solitário, um outro mito tem atravessado a visão biográfica que guardamos do autor de A Clepsidra: a do português “achinesado”, uma descrição que se arruma ali entre a caricatura e um suave sentimento de traição. Camilo Pessanha aprendeu chinês, estudou a arte, a cultura, a caligrafia e a história chinesas, o que lhe terá dado um grau de compreensão da China e dos chineses que poucos portugueses em Macau possuíam. Não foi, no entanto, o único autor português a desenvolver essa curiosidade pelos vizinhos territoriais, alimentando-a com uma procura de conhecimento efectivo. Para o autor deste novo livro com textos de Pessanha, essa ideia é recente, uma forma contemporânea de olhar para a vida e o trabalho do poeta, e é pouco defensável, como se comprova em vários dos textos deste livro, que transbordam de afirmações que Duarte Drumond Braga classifica como eurocêntricas: «Acho que [a ideia de um Pessanha “achinesado”] é uma forma de orientalismo em que o autor também é apanhado pelos outros, que falam dele como se ele se tivesse achinesado e como se isso fosse sequer possível, muito menos na altura dele. Claro que Camilo Pessanha é muito eurocêntrico, como todos são; agora, há nuances, há variações, há autores que são menos, autores que são de outra forma… por exemplo, se calhar o Manuel da Silva Mendes é menos eurocêntrico do que o Camilo Pessanha, muitas vezes. Mas todos eles falam a partir de uma perspectiva europeia, ninguém se achinesou nem isso era possível, muito menos nessa época. Há sempre eurocentrismo e há sempre orientalismo, mas há menos em alguns autores e há outro tipo de posições em autores diferentes. Há uma compreensão profunda da China, há um conhecimento profundo, mas há sempre marcas radicais de eurocentrismo ao mesmo tempo. Se hoje há, ainda mais naquela altura. Depois geralmente fala-se muito daquele texto considerado maldito do Pessanha.»
Este texto a que Drumond Braga se refere é um dos que integra este volume, tratando-se do prefácio que Camilo Pessanha escreveu para o livro Esboço Crítico da Civilização Chinesa, de J. António Filipe de Morais Palha, publicado em Macau, em 1912. Não é um texto de fácil leitura para os padrões actuais, se esses padrões incluírem uma noção do outro baseada em respeito mútuo e algum relativismo sobre formas de mundividência. Apesar disso, desse olhar profundamente preconceituoso e devedor de uma visão do mundo em que a Europa é o centro e as suas formas de organização social e produção cultural as únicas aceitáveis, Pessanha não deixa de criticar certas visões maniqueístas que, levadas a um extremo do preconceito, falam do povo chinês utilizando o epíteto de “perigo amarelo”. Sobre esse texto, Duarte Drumond Braga comenta: «O que ali está é o que ele pode observar, porque os europeus não podem circular pela China naquela altura, é uma China muito decaída, do final da dinastia Qing, há ali várias coisas… Há muitas pessoas que ficam horrorizadas com este texto e não gostam muito de o difundir, porque ele fala muito mal da China, mas depois não se lê tudo até ao final, onde há uma inversão total, Pessanha muda o discurso completamente. O texto diz o contrário, no final.»
A complexidade deste prefácio assinado por Pessanha reflecte a de boa parte da sua prosa, numa sobreposição de abordagens que, lidas hoje, podem ser contraditórias, mas que não o seriam tanto na época. É uma atitude dúplice, a de Camilo Pessanha, mas não perde leitura nos dias de hoje, sobretudo se não abdicarmos de compreender essa complexidade no modo de ver do autor, como explica Drumond Braga: «Pessanha percebe o que é o exotismo, o que são as ideias orientalistas, como o “perigo amarelo”. Ao ter uma experiência muito longa e muito profunda da China percebe que isso é uma montagem totalmente ocidental sobre esse país. Ao mesmo tempo, ele está radicado numa perspectiva profundamente europeia e portuguesa, portanto, também imite juízos que são orientalistas. Acho que isso se entende, é um autor complexo, que é do seu tempo, que está lá, mas que não se retira completamente dos preconceitos eurocêntricos da época. São contradições que fazem parte dos discursos europeus sobre a China produzidos nessa altura. Ele simultaneamente percebe que há um orientalismo e é orientalista. Mas não é só ele, isso acontece com vários outros autores desse período, como o Silva Mendes, por exemplo.»
Macau como chave do pensamento de Pessanha
É em 1894 que Camilo Pessanha se instala em Macau, ali vivendo por mais de três décadas, com alguns regressos pontuais a Portugal. Contrariando essa ideia de um homem que se muda para os antípodas e ali se acultura de tal forma que abandona as suas raízes – ideia já contrariada por outros estudiosos de Pessanha – , o texto de Duarte Drumond Braga que abre este novo livro insiste na relação do poeta com os intelectuais portugueses da sua geração, relação essa que se prolongará em Macau, sempre com Portugal no horizonte.
De acordo com o especialista, Macau terá sido, para Pessanha, um ponto privilegiado para olhar para Portugal, imaginando nas terras do Rio das Pérolas um pedaço inequivocamente integrante de uma certa ideia de pátria portuguesa. Essa ideia decorre, naturalmente, de uma visão nacionalista que nunca se afasta, como se insiste nesse texto introdutório do livro, da dimensão imperial e colonial. É sempre aí que Pessanha se situa e é a partir daí, dessa terra, que olha para Portugal, como explica Duarte Drumond Braga: «Acho que Macau é a chave, é a porta para Pessanha ter acesso a um Portugal na China. Isso está naquele texto muito importante sobre a Gruta de Camões, em que ele descreve como é possível recuperar Portugal na China, aquela espécie de magia que acontece.» O texto faz parte deste livro e intitula-se “Macau e a Gruta de Camões”, tendo sido originalmente publicado no jornal A Pátria, em Macau, no ano de 1924. Prossegue o investigador: «Há uma espécie de transfiguração da realidade nesse texto e a paisagem transforma-se numa paisagem portuguesa. Acho que Pessanha está a pensar em como é que Macau pode ser esse Portugal na China, sem abdicar de um estatuto colonial, coisa que nunca está em questão. Aliás, todos os autores aceitam isso, acho que nem sequer passa pela cabeça de nenhum deles. Claro que hoje temos de ler isso de outra forma, mas acho que é isso, Pessanha, como outros autores, está preocupado em perceber como é que Macau pode ser um Portugal dentro da China, literalmente. E claro que isso é sempre impossível, eles estão sempre a aperceber-se de que isso é impossível, só através de uma espécie de magia, e por isso é que o texto tem essa vertente.»
Língua e arte
Um dos artigos que se publica neste China e Macau – Camilo Pessanha é “Kuok Man Kan Fo Shu – Leituras Chinesas”, originalmente impresso em Macau em 1915. Ao contrário de outros textos do livro, este não voltou a ser reeditado, em Portugal ou em Macau, depois da sua publicação original.
O interesse e o estudo que Camilo Pessanha dedicou à língua chinesa é sobejamente conhecido, e o próprio procurou incentivar outros portugueses em Macau a aprenderem esse idioma. Numa das conferências cujos textos se publicam neste livro, deixa esse mesmo conselho aos jovens que vão trabalhar para Macau, dizendo que, «além do alto serviço que com esse estudo prestarão à pátria portuguesa, auferirão do seu próprio esforço, inefável deleite espiritual.» De certo modo, as “Leituras Chinesas” são um contributo mais prático que Pessanha faz nesse sentido de promover a aprendizagem da língua chinesa. Os pequenos textos reunidos sob esse título incluem poemas, fábulas e narrativas de pendor moral e foram traduzidos por Pessanha em parceria com José Vicente Jorge. Sobre a real aplicação prática deste pequeno manual de aprendizagem do chinês, pouco se sabe, como contou Duarte Drumond Braga ao Parágrafo: «É uma óptima pergunta, mas não consegui saber se aquilo chegou a ser adoptado por alguma escola… alguém teria de fazer essa investigação. Ainda pensei se valia a pena publicar o manual com o texto também em chinês, mas depois alguns amigos chineses dissuadiram-me, porque aquilo é o chinês tradicional, já não se aprende chinês assim. Mas queria destacar esse livro porque, quer o Daniel Pires, quer as pessoas que editaram Camilo Pessanha, não o consideraram muito, mas vendo com atenção, aquilo são textos do Taoísmo, há alguns poemas, portanto aquilo também é o Camilo Pessanha tradutor. Talvez esse trabalho tenha sido interpretado como uma coisa meramente escolar, mas aquilo não é só isso, tem algum interesse e reflecte esse lado do Pessanha tradutor.»
Há outros artigos curiosos neste volume, sendo um deles uma lista, o “Catálogo da Colecção de Arte Chinesa Oferecida ao Museu de Arte Nacional”. O editor do livro explica a origem dessa lista: «Tem uma longa história. Pessanha quis doar as obras ao Museu Nacional de Arte Antiga, que recusou, e depois foi tudo para o Museu Machado de Castro, em Coimbra, e é lá que está, penso eu, havendo uma parte emprestada à Fundação Oriente. Isso é a lista do que ele mostrou em Macau, que também não corresponde a tudo o que chegou a Portugal, porque houve coisas roubadas, ou perdidas… O Daniel Pires faz a história dessas peripécias, creio que no livro da Correspondência de Camilo Pessanha editada pela Biblioteca Nacional. Portanto, isso é a lista do que ele mostrou em Macau, ainda que não corresponda a tudo o que chegou a Portugal.» Apesar do que possa ter-se perdido na viagem, esta lista de objectos artísticos que inclui bronzes, bordados, joalharia e caligrafia é um dos elementos que ajuda a revelar esse interesse profundo de Pessanha pela China. Não é que o poeta se tenha alguma vez aculturado ao ponto de existir como se tivesse nascido nesse país, mas a sua curiosidade pela cultura e pela história chinesas e a vontade de as conhecer profundamente estão presentes em toda a sua existência em terras de Macau.














