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      InícioParágrafoParágrafo #84Macau e a magia dos anos 50: A ficção de Sid Fleischman...

      Macau e a magia dos anos 50: A ficção de Sid Fleischman em Look Behind You, Lady

      CRÓNICA

      Paul French

       

      Sid Fleischman adorava Macau. Uma vez escreveu: «Já não há muitos paraísos no Oriente, mas há sempre Macau». É certo que Fleischman chegou a Macau depois de um período difícil na Ásia. Esteve na Marinha dos Estados Unidos, na Segunda Guerra Mundial, destacado nas Filipinas antes de aterrar em Xangai, pouco depois da rendição japonesa. Foi difícil apanhar os torturadores japoneses em fuga na outrora lendária, mas agora bastante deprimida, “Paris do Oriente”.

      Depois disso foi destacado para Hong Kong, onde achou os britânicos um pouco pomposos e decidiu apanhar um ferry para Macau, que se tornou num fascínio. Fleischman acabou por conhecer bem Macau e decidiu que «se não se consegue divertir em Macau, há algo de errado consigo – não com Macau».

      Fora da Marinha e de volta à Califórnia, Fleischman não tinha muitas aptidões civis úteis. Mas sabia fazer truques de magia, era obcecado por magia. E não conseguia tirar a Ásia da cabeça. Comprou uma máquina de escrever portátil Royal e escreveu um romance sobre Xangai (Shanghai Flame, 1951). Foi comprado por uma editora. Era bom, mas não mais do que pulp fiction – histórias de ritmo acelerado, escritas rapidamente, com tipos durões e belas damas, invariavelmente em cenários exóticos. Shanghai Flame saiu-se bem. O editor pediu-lhe outro –  «continua com o Sid do Oriente, os leitores gostam. Escreve o que sabes». E assim recordou aqueles fins-de-semana preguiçosos em Macau, a bebericar vinho e licores e a ver os solteiros de Hong Kong a dançar com hospedeiras euro-asiáticas ao som de uma banda filipina no Hotel Bela Vista. E juntou os seus dois interesses –  Macau e magia. O resultado foi Look Behind You, Lady (1952).

      A mistura resultou. O público adorou o livro, adorou o cenário. Macau, «pendurada como um colar de diamantes e rubis falsos no pescoço de Hong Kong» e um mágico americano falido, Bruce Flemish, que sabe todos os truques exceto como ganhar num casino. Flemish está a fazer espectáculos de magia – depois dos acrobatas chineses, antes da stripper grega –  no Hotel China Seas (uma versão pouco disfarçada do Hotel Central, na Avenida de Almeida Ribeiro). Dois andares dedicados ao jogo, um bordel, vários andares de suites e ópio no menu do serviço de quartos.

      Flemish está falido. Oferecem-lhe uma forma de ganhar algum dinheiro. Não é exactamente kosher, mas quando se perdem as últimas patacas, que se pode fazer? E isto é pulp fiction, um género com regras que Sid Fleischman rapidamente dominou. A sua Macau tem um chefe de casino macaense sem polegares (a sua mulher atrasou-se no pagamento do resgate a uns raptores piratas), um gangster americano elegante mas brutal, um emigrante russo “branco” que se entrega a um pouco de espionagem casual e uma “dama” – invariavelmente americana, muito longe de casa, «perdida no Oriente», com algum tipo de problema e, claro, completamente irresistível. E em Donna Chandler, de Fleischman, temos uma dama clássica da pulp fiction – não devemos apaixonar-nos, mas não conseguimos evitar, apesar de ela ser um problema com P maiúsculo.

      O enredo passa por contrabando de ouro, espionagem e um monte de dólares falsos. Há tiroteios, um garrote, um pouco de acção romântica, antes de um ou dois truques de magia salvarem a pele de Flemish. A pulp fiction não é muito moralista, ainda que, se o leitor estiver à espera de alguma lição de vida por parte de Fleischman, o melhor que encontrará é este concelho: quando um gangster lhe der um rolo gordo de HK$ para dar a outro gangster, não o vá apostar num casino!

                   Look Behind You, Lady não é o melhor romance sobre Macau alguma vez escrito… mas é divertido. E Fleischman sabia de facto o que estava a escrever. A atmosfera é muito semelhante à de Macau no início da década de 1950. Não é bem um documento histórico, mas também não deve ser totalmente descartado.

      Ponto Final
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      Redacção do Ponto Final Macau