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      VÍRGULA – Crónica

      Reler os lugares

      Ir pela primeira vez é como ler, regressar é como reler. Quando regressamos a lugares, acrescentamos impressões às que tivemos quando tudo era novidade. Então, estávamos a receber uma notícia, éramos diferentes porque não sabíamos muito que aprendemos depois ou, do mesmo modo, porque sabíamos muito que esquecemos mais tarde. Ao ler, entregamos palavras ao que somos capazes de entender naquele momento específico, a quem somos. Noutra hora, com outra idade, ao reler, entregaremos palavras à memória que tivermos delas próprias e, também, ao que formos capazes de entender naquele momento específico, a quem formos.

      Nas viagens, de uma forma muito clara, pode existir uma ansiedade que me parece equívoca. Refiro-me à ideia de que, estando num lugar, se tem de ver tudo o que lá existe. Só assim se pode dar esse destino como visto, e seguir para o próximo. Em paralelo, na leitura, há a ideia de que um livro lido está definitivamente lido. De certa forma, estas ideias são defesas. Não queremos assumir que fica muito por ver, por ler, ficará sempre. De certo modo, assumir isso é o reconhecimento de um fracasso, é confrontarmo-nos com a imperfeição da nossa experiência.

      Sinto sempre que regressarei a todos os lugares aonde vou. Nunca me aconteceu estar numa cidade ou num país e achar que tinha de ver algo porque nunca mais lá regressaria. Posso estar nos lugares mais recônditos e inusitados, mas nunca me sinto na obrigação de provar o bolo que só existe naquela região ou de apreciar determinada paisagem única. Eu sei que todas as paisagens são únicas e qualquer bolo é sempre único no momento em que é comido. A obrigação, principalmente a auto-imposta, é um dos maiores obstáculos à fruição tranquila de um espaço e de um momento. Ter de ir a um determinado lugar, ter de fazer determinada coisa, ter de consumir determinado produto. As listas de tarefas são úteis quando se tem de tratar do IRS ou da Segurança Social. Nas Seychelles, em São Tomé e Príncipe ou na República Dominicana, são uma perda de tempo precioso.

      Estive em Roma cerca de uma dezena de vezes antes de entrar na Capela Sistina. Não senti a menor preocupação. Sem precisar de o repetir para mim próprio, sem palavras, sempre acreditei que, mais cedo ou mais tarde, teria essa oportunidade. Como aquela expressão da montanha e de Maomé, parece-me que mais do que ser eu a ir à Capela Sistina, teria de acontecer o contrário. No entanto, essa nunca foi uma crença ilimitada. Não acreditava que, por força, teria de ir à Capela Sistina. Não escondo de mim próprio a fragilidade e a transitoriedade de tudo isto. Amanhã, ou ainda hoje, podem acontecer mil imprevistos que me impeçam de regressar a Itália, a Roma ou, sequer, de sair da minha casa, da minha cama. Posso, com grande facilidade, parar de respirar.

      Na primeira vez que fui a Nova Iorque, não fui ao Metropolitan Museum. Neste momento, já o visitei três vezes e, em cada uma delas, apenas repeti o que quis repetir. Também nessa primeira vez, fui ao Guggenheim com intenção de visitá-lo, mas estava fechado. Depois disso, já passei várias vezes à porta desse museu, mas ainda não se conjugaram as circunstâncias que me permitissem entrar.

      Não sou capaz de expor todas as razões que fazem com que encare as viagens desta forma, não creio que seja apenas uma questão de decisão, de vontade, deve haver alguma raiz mais profunda. Estar longe dos lugares que conhecemos melhor é um convite ao imprevisto. É muito habitual que os planos saiam frustrados: ou porque chove nos dias em que pensávamos passear no jardim ou porque o mapa tem um erro de impressão. Em qualquer uma dessas situações, é de grande valor concedermos a nós próprios a tranquilidade de apreciarmos um copo de água de uma torneira internacional, ou de caminharmos entre uma multidão estrangeira, ou de desfrutarmos de um qualquer pôr-do-sol quase igual àquele que conhecemos desde sempre.

      Como viajar, ler é algo que experienciamos, não é um fim. Se lêssemos durante mil anos seguidos, ou se viajássemos durante mil anos seguidos, encontraríamos sempre novidade. Essa incapacidade de concretizar não é triste ou frustrante. Na verdade, essa é a beleza e a alegria de ler e de viajar.