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      O MUNDO ABSURDO E VEROSÍMIL DE YAN LIANKE            

       

      Cultura – Destaque Livros

      Sara Figueiredo Costa

       

      A tradução portuguesa de Crónicas de Explosão, de Yan Lianke, chega às livrarias e traz com ela o acesso a um universo literário marcado pela estranheza e pela constatação de que o extraordinário é uma parte intrínseca (e considerável) do quotidiano.

       

      Naquela saga anual de apostas que indicam potenciais vencedores do Nobel, Yan Lianke costuma ser um dos nomes da lista. Claro que apostar no vencedor do Nobel é um exercício de pura diversão, muito longe de qualquer probabilidade, tendo em conta as intermináveis possibilidades e o frágil equilíbrio entre política, literatura, geografia e ar do tempo. Ainda assim, a persistência com que surge o nome deste escritor chinês indicia, pelo menos, o seu reconhecimento internacional, o que não é coisa pouca num mundo onde se publicam tantos livros.

      É possível que Yan Lianke tenha nascido em 1958. A data é incerta, porque o registo do tempo na aldeia de Songxian, província de Henan, não obedecia às mesmas imposições reguladas de outros lugares, mais urbanos, organizados e dependentes de documentos e certidões. Foi quando se alistou nas forças armadas, em 1978, que o autor teve necessidade de definir o ano do seu nascimento e para isso pediu ajuda à mãe, que pediu ajuda a outros habitantes da aldeia. O exercício colectivo de recuperação da memória ditou que terá sido em 1958, já que nesse ano a colheita de batata doce foi particularmente boa e esse facto estava bem guardado por todos. Ficou assim, como se conta no livro Three Brothers, um dos vários que o autor já viu traduzidos para inglês.

      Em português, há três livros publicados. No Brasil, A Serviço do Povo, Os Beijos de Lênin e O Sonho da Aldeia Ding. Em Portugal, o mesmo Sonho da Aldeia Ding e, mais recentemente, Crónicas da Explosão, ambos inseridos numa recente vaga de traduções de autores chineses que a Relógio D’Água tem assegurado.

       

      O progresso com pés de barro

      Com Crónicas da Explosão, entra-se no universo literário de Yan Lianke pela porta principal. Alguns dos temas mais frequentes nos seus romances encontram aqui um fio condutor que, assegurando uma narrativa extensa e complexa nos seus acontecimentos e personagens, vai acomodando questões como a corrupção, a vontade de crescimento desmesurado, os contrastes entre o mundo rural e o mundo urbano ou a família como unidade mínima de todas as tradições e de todos os conflitos.

      Explosão é o nome de uma aldeia da província de Henan e Yan Lianke é o famoso escritor de Pequim contratado para registar a evolução do lugar através de um conjunto de crónicas, em troca do preço absurdo que lhe apetecer cobrar. Já estamos no universo romanesco e a coincidência dos nomes do autor e do narrador são mais um dos muitos recursos desse universo. E é nesse recurso que a ironia começa: Yan Lianke, o verdadeiro, vive em Pequim, onde lecciona na universidade, e o seu reconhecimento é extensível a toda a China, mas assume contornos particularmente festivos na sua aldeia natal. Num artigo escrito por Jiayang Fan para a New Yorker, em 2018, o autor fala à jornalista que o acompanha numa das suas visitas à casa materna sobre essa fama, que o obriga a visitas, refeições e brindes intermináveis sempre que regressa, e explica que a esmagadora maioria dos seus conterrâneos não terá lido nenhum dos seus livros: a fama que o autor arrecadou basta-lhes. Não há desprezo nesta afirmação, o que há é uma consciência aguda do enorme fosso que sempre existiu entre as aldeias e a cidade. Aquilo que, na cidade, é apenas reconhecimento educado perante uma figura das letras, na aldeia é a confirmação quase impossível de que é possível traçar um destino que não seja o de trabalhar a terra para poder comer, todos os dias, sem outros horizontes.

      A aldeia inventada por Yan Lianke crescerá ao ritmo das páginas que se sucedem e dos esquemas e ganâncias de um membro da família Kong, um dos dois clãs rivais da comunidade. Será tentador atribuir a responsabilidade desses esquemas ao momento quase místico em que o pai dos Kong diz aos filhos para saírem de casa e abrirem os olhos: «(…) se derem com alguma coisa, baixem-se para a apanhar. Esse objecto indicará o destino das vossas vidas.» (pg.18) Kong Mingliang encontrará uma mulher, Zhu Ying, filha da família rival, e assim se traçará o futuro de Explosão. Com a Revolução Cultural instalada, Mingliang tratará de enriquecer através de esquemas diversos (que começam com o roubo de carvão e se estendem a vários outros expedientes) e acabará por se tornar chefe da aldeia. Cumprindo a peripécia clássica das famílias rivais, Mingliang e Zhu Ying acabarão por casar, mas trocam os contornos shakespeareanos dos apaixonados que contrariam os pais por um ódio mútuo e um interesse prático, ainda que por vezes, raras, disfarçado de amor.

      Primeiro promovida a cidade, a velha aldeia acabará por ser município, avançando a passos largos para a megatrópole que parece acalmar os anseios gananciosos de Mingliang e dos seus conterrâneos. Pelo caminho, os campos e os rios enchem-se de poluição, o sossego desaparece, as tradições são abandonadas de forma impositiva. A aldeia deixa de reconhecer-se por entre a grandeza e a complexidade urbanas. Ao mesmo tempo, estranhos fenómenos naturais vão sendo registados, coisas fantásticas como o surgimento de dióspiros em macieiras, a mudança abrupta de estações ou a alteração da cor facial de algumas personagens, quase num passe de mágica como o que se pratica na ópera de Sichuan, mas aqui sem truque cénico. Apesar de referências óbvias ao progresso acelerado que tem definido a política económica chinesa e a problemas como a poluição, nada é linear nesta narrativa e não há aqui derivas pedagógicas. Os velhos que lamentam o fim dos enterramentos dos mortos em prol da moderna cremação são os mesmos que aceitam o lucro trazido pelas grandes empresas. Não há inocentes em Crónicas da Explosão, mas sobram personagens complexas na sua psicologia e capazes de decisões inesperadas e, sobretudo, de absurdos épicos.

      A tradução de Tiago Nabais assegura uma leitura escorreita, sem empecilhos sob a forma de intermináveis notas de rodapé (no fim, uma lista de termos em chinês romanizado permitem esclarecer alguns conceitos que podem não ser tão acessíveis, e isso basta) e com os diferentes ritmos narrativos bem equilibrados.

       

      Mitorrealismo

      Num extra-texto incluído na edição portuguesa das Crónicas da Explosão, Yan Lianke disserta sobre o Mitorrealismo, termo de que se socorre para descrever os seus próprios caminhos literários, mas sobretudo para contextualizar as possibilidades e as contingências da literatura chinesa contemporânea.

      Ao contrário do Realismo, que obedece a uma relação de causa-efeito dentro de um princípio de verosimilhança baseado na racionalidade e na ciência, ou do Realismo Mágico com que a América Latina conquistou o mundo literário, apoiado em pequenos desvios das possibilidades reais que convocam o Fantástico para o seio de uma sequência narrativa dominada pelas regras do real, o Mitorrealismo procura trabalhar com o absurdo que integra a realidade. Esse absurdo não é o da deturpação literária de uma realidade, mas antes a realidade propriamente dita. E em muitos casos, a sua recepção não parece de todo absurda, sobretudo para quem vive na China. Os exemplos apresentados pelo autor são vários e todos resultam de acontecimentos devidamente testemunhados e documentados, não de romances ou divagações literárias, como é o caso dos dez mil cadáveres de porcos que, em 2013, vogaram pelas águas do rio Huangpu, em Xangai, ou do homem que morreu afogado numa bacia de água enquanto estava detido pelas autoridades.

      «O Mitorrealismo não foi criado como uma doutrina, não nasceu no cérebro do autor nem da sua pena, provém integralmente dos indivíduos e dos factos de uma realidade chinesa cuja absurdidade banalizada pode parecer irracional aos olhos do mundo», explica o autor. E continua, assumindo que o Mitorrealismo é, na verdade,  «(…) a essência da “narrativa” e da “história” da China contemporânea. A ponto de não se tratar de uma conceção literária, mas sim da origem, natureza e substância da realidade chinesa.» (pg.391)

      Mais do que assumir que não precisa de recorrer à fantasia para criar o seu universo literário, Yan Lianke afirma deste modo as características únicas do seu ponto de partida, esclarecendo que aquilo que cria começa a nascer do que o rodeia e que o facto de quem o lê, sobretudo fora da China, poder assumir o contrário decorre desta sobreposição excepcional de absurdos aceites como banais e elementos universalmente compreensíveis de que se faz a realidade chinesa: «Se a obra romanesca, de diferentes formas, inscreve os seus factos e personagens no interior de uma lógica de causalidade, o mitorrealismo apreende uma relação de causa e efeito interna, invisível, embutida na realidade chinesa. Apodera-se de um núcleo em fusão, mas indiscernível, a fim de racionalizar e pôr em evidência tudo o que há de absurdo, caótico e desarticulado no interior do processo, na sua irrealidade e ilogicidade.» (p.390) É bem possível que aquilo que, nos romances de Yan Lianke, parece golpe fantasioso e artifício seja, afinal, a forma mais verosímil de transformar certos quotidianos da China em matéria literária.

       

                  Memórias e desvios

      Com mais de três dezenas de livros publicados, entre romances, contos e ensaios, e um cargo de professor numa das universidades da capital chinesa, o facto de Yan Lianke ter a maior parte da sua obra censurada na China parece uma decorrência natural desse Mitorrealismo de que nos fala o autor. Seria de esperar que a alguém cujas obras parecem constituir alguma espécie de perigo para o sistema não fosse permitido aceder ao ensino, até pela possibilidade de espalhar uma qualquer subversão através das aulas… Na verdade, a censura sobre os livros do autor nunca foi explícita, existindo na prática sob a forma da não reimpressão dos seus livros e da dificuldade quase plena de os encontrar nas livrarias, mas não através de algum decreto que proíba a sua publicação. Não está proibido, mas está. Os livros não estão à venda, mas estão, ainda que num mercado paralelo onde se cruzam a pirataria, as cópias ilegais e a partilha de ficheiros pelas avenidas menos frequentadas da internet. É difícil de perceber quando não se vive na China, mas Yan Lianke esforça-se por explicar, não com palavras claras que opinem sobre esta ou aquela escolha política, mas antes com a criação de universos literários onde nada disto é estranho. Ainda que seja.

      Se as traduções de Yan Lianke para a língua portuguesa prosseguirem, avançar para o livro de memórias 我與父輩 (traduzido em inglês como Three Brothers) seria uma escolha plenamente acertada. Sem artifícios de homonímia ou estratégias de descrição de uma realidade autoral a partir da visão de personagens romanescos, aqui lemos a voz do autor em busca da sua própria memória. Não significa isso que o absurdo esteja ausente – pelo contrário – ou que tudo o que se regista tenha acontecido tal e qual como se lê, coisa muito improvável quando se trata de remexer na memória. Olhando para a geração do seu pai e dos seus tios, Yan Lianke traça o seu próprio percurso em relação com estas figuras mais velhas, analisando o que estava traçado como uma espécie de destino (trabalhar de sol a sol para poder comer, sem outras perspectivas de futuro que não deixar uma casa aos filhos, para que estes também possam trabalhar de sol a sol para poder comer) e registando os desvios que acabaram por permitir-lhe uma outra vida.

      O reconhecimento da ironia e da sátira, tão presente em livros como 堅硬如水 (Hard Like Water) ou 受活 (Lenine Kisses), é imediato e inevitável também em Three Brothers, mesmo que se trate de não-ficção. Mas talvez esse reconhecimento seja apenas a superfície. Mais do que satirizar, Yan Lianke propõe-se a dura tarefa de reflectir sobre a ideologia e os seus mecanismos de controle, poder e comunicação, sempre mantendo os pés fincados na terra onde nasceu, não por uma questão geográfica, mas porque essa realidade o fez perceber que o fosso entre o campo e a cidade nunca foi transponível, independentemente de revoluções ou anúncios de progresso. Toda a sua escrita é um movimento constante para transpor esse fosso, como diz em Three Brothers: «Percebi que escrever um romance tornava possível escapar da terra e chegar à cidade de uma vez.» Que depois desse alcance triunfal da cidade o autor não mais tenha parado de regressar ao campo, nos livros que escreve como na vida quotidiana, é apenas mais uma dessas contradições que respiram por baixo da superfície das coisas e que a literatura se esforça por expor, revelando o avesso do mundo.

       

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