O Vasto Império do Coração, livro de Sara Augusto com edição do IPOR, reúne poemas e outros textos em língua portuguesa (e também em patuá) que testemunham a presença de Luís de Camões na literatura de e sobre Macau.
No mês passado, Sara Augusto apresentou ao público de Macau um livro que reúne textos, sobretudo poemas, de diversos autores de língua portuguesa. É uma antologia dedicada a Luís de Camões, cujas comemorações pelos 500 anos do seu nascimento ainda decorrem, mas com o foco apontado à presença do poeta em Macau. O tema, já se sabe, continua a fazer correr rios de tinta e muitos debates em torno da documentação existente e daquela que poderia existir, mas a presença que aqui se desdobra em poemas e textos alheios não é a física, ou a histórica, mas antes a presença emocional, cultural, poética, e essa é indesmentível, coisa que O Vasto Império do Coração vem confirmar.
Como explicou a autora ao Parágrafo, este livro, com chancela do Instituto Português do Oriente (IPOR), «nasceu de um trabalho conjunto apresentado por mim e pela Professora Lola Xavier no Centro de Estudos Camonianos em Coimbra. Aconteceu que, depois dele, continuei a investigar por causa de um convite por parte do IPOR para um congresso sobre Camões em Pequim. Nessa altura, as poucas notas iniciais já se tinham transformado num acervo substancial e já justificava que se publicasse um livro. Depois de assistir à apresentação, a coordenadora do IPOR concordou prestamente com a publicação e trabalhámos rapidamente para que o livro pudesse ser apresentado no mês de Junho de 2025.» Pedindo o título emprestado a um verso de António Manuel Couto Viana, são duzentas páginas que reúnem textos de autores de diferentes épocas e estilos heterogéneos, como Soares dos Passos, Sophia de Mello Breyner Andresen, Camilo Pessanha, Alice Vieira, José dos Santos Ferreira (Adé), Eugénio de Andrade, Fernanda Dias, Jorge Arrimar, Monsenhor Manuel Teixeira ou Carlos Morais José, entre tantos outros. Aos textos junta-se um estudo de Sara Augusto sobre as referências camonianas na literatura de Macau em língua portuguesa e um conjunto de fotografias também da autora. «Algumas das fotografias estiveram expostas numa pequena exposição na Chancelaria, sobretudo o retrato do busto de Camões, que já fazia parte do livro Macau – O Livro dos Nomes [de Carlos Morais José]. Fiquei muito feliz por, neste momento, esta fotografia já fazer parte do acervo do Instituto Português do Oriente», disse Sara Augusto a propósito deste elemento visual do livro.

A selecção dos textos para esta antologia envolveu um imenso trabalho de pesquisa que, a certa altura, se confirmou como uma espécie de tarefa infinita. Como se lê no estudo que fecha a antologia, a possibilidade de aparecerem novos textos que relacionem Camões com Macau está sempre em aberto. De tal forma que, para Sara Augusto, esta antologia não é um trabalho fechado: «A primeira linha foi escolher apenas textos poéticos, mas apresento alguns textos descritivos pela sua importância, ou por serem mais desconhecidos, como acontece com Latino Coelho. Sobretudo em 1880 e nos anos seguintes muitas antologias foram publicadas e é fácil, quando disponíveis na biblioteca digital, abrir miscelâneas e poder encontrar mais poemas que referem Camões e Macau. Tive de fazer um exercício de contenção de forma a que a antologia pudesse ser apresentada numa data ainda em 2025. Contudo, a pesquisa, livro a livro, prateleira a prateleira, na Biblioteca Pública de Macau foi muito importante. Estou consciente do risco. Depois da apresentação do livro, já recolhi mais material.»
O mito feito presença
A possibilidade de Luís de Camões ter passado por Macau e aí ter escrito uma parte de Os Lusíadas foi tendo diferentes leituras ao longo dos anos e cimentando muitos debates académicos a partir de diferentes documentos e testemunhos, directos ou indirectos. A partir de certa altura, é como se tivesse deixado de ser importante confirmar ou não a presença real de Camões no território, como se essa ideia fizesse um caminho independentemente de ser uma ideia, um desejo, uma lenda, ou um facto histórico. Isso mesmo se explica no estudo de Sara Augusto, que traça um percurso contextualizado e bem documentado sobre a presença camoniana na literatura de e sobre Macau em língua portuguesa.
Quase cinco séculos passados sobre essa hipotética estada do poeta em Macau, como explicou Sara Augusto, «a presença de Camões torna-se um lugar literário, sobretudo a Gruta e o Jardim. Ultrapassa a confrontação histórica e tem valor por si mesmo.» As romagens à Gruta de Camões aí estão para o comprovar, pelo menos desde o século XVIII, como apurou Sara Augusto: «Os textos do Álbum da Gruta reunidos pelo Monsenhor Manuel Teixeira mostram isso mesmo. As descrições de Macau nunca deixam de fora a Gruta. A visitação da Gruta é mesmo um acto que fazemos ainda hoje.» Muitos dos escritores cujos trabalhos aqui se reúnem nunca viveram em Macau, mas nem por isso deixam de reflectir essa mitologia camoniana em terras macaenses, quase como um outro modo de romagem, agora literária, e quase sempre cumprida em presença sempre que se proporcionou uma estada no território.

A leitura dos textos escolhidos para esta antologia e do estudo com que Sara Augusto os acompanha mostra de forma clara o papel fundamental de Camões na relação dos portugueses de Macau com uma ideia de identidade, ou talvez de pátria cultural, independentemente da confirmação, ou da ausência de confirmação, da passagem do poeta pelo território. Como explicou a autora, «a presença de Camões é essencial, embora não seja tomado por todos da mesma forma. Mesmo para os macaenses, como acontece com Adé, Camões é essa matriz que representa sobretudo a língua portuguesa. Não se trata de território apenas, apesar de na década de 80 fazer sentido. O que perdurou foi a língua e a cultura.»
Um dos autores destacados, quer na antologia, quer no estudo, é Almeida Garrett, figura cimeira do Romantismo português. É de Garret a obra Camões, publicada em 1825, um longo poema que é simultaneamente projecção sobre a figura mítica do autor de Os Lusíadas e um diálogo à distância do tempo. No estudo, Sara Augusto explica a importância desta obra na inauguração do mito camoniano em Macau, e isto independentemente da questão histórica e da possibilidade ou impossibilidade de se provar a presença de Camões no território. Para Sara Augusto, a repercussão da obra Camões em Macau «é evidente na repetição dos tópicos relativos ao cenário da gruta e aos sentimentos de Camões reunidos por Garrett. O lugar solitário e a mágoa e a melancolia do poeta genial, mas injustiçado, formou-se e tornou-se uma imagem cristalizada». À obra de Almeida Garrett, a autora acrescenta a importância do trabalho do Morgado de Mateus, «cuja edição monumental de Os Lusíadas acontece poucos anos antes.»
Camões através da lente
Para além da antologia de textos e do estudo que a acompanha e lhe dá enquadramento, O Vasto Império do Coração faz-se também com uma série de fotografias da autoria de Sara Augusto, cujo trabalho fotográfico tem surgido regulamente em diferentes espaços de Macau, entre eles a revista Halftone, mas também em exposições e noutros livros. Muito mais do que ilustração ou acrescento visual, estas imagens compõem um ensaio, uma reflexão sobre a presença de Camões em Macau hoje, a partir do registo de espaços e momentos em torno da gruta e do jardim que têm o nome do poeta. Por essas imagens desfilam pessoas que jogam às cartas, conversam, fazem exercício físico, por vezes com a estátua do poeta mesmo ao lado, mas também fragmentos das pedras que compõem a Gruta de Camões, da rica vegetação do jardim ou dos muros da Casa Garden, logo ali. Sara Augusto apresentou estas fotografias como um exercício muito pessoal: «Talvez seja o que me permite cruzar olhares, o meu e o de Camões. Enquanto fotografava, tinha sempre esta pergunta: o que via o poeta, o que ouvia? Que vozes, que língua, que silêncio? Este contraste entre o pequeno busto e a vida quotidiana de quem visita e vive perto do jardim, que já nem se interroga mais sobre aquele poeta e aquelas letras estrangeiras, sempre me impressionaram. Também a mim o Morgado de Mateus e Garrett influenciaram. A gruta e o jardim estão nimbados, na minha visão, da mesma melancolia que vem da distância, de uma sensação de exílio. Sobretudo quando o sol começa a descer, parece que o rio se nimba de uma névoa e nos interrogamos sobre a vida e o nosso destino, tal como a lírica camoniana nos faz ler.»

A viver em Macau há nove anos, Sara Augusto partilha com os autores dos textos desta antologia essa ligação com a língua e a cultura portuguesas filtrada pelo território e pela ideia de Camões neste lugar. No seu caso, é uma ligação anterior à chegada a Macau: «Camões é um dos meus poetas preferidos desde sempre. Estar em Macau tornou essa relação mais forte. Depois deste trabalho fortaleceu-se ainda mais. A leitura de muitos poemas da antologia deixa-me verdadeiramente emocionada. Acompanho muitos amigos e visitantes ao Jardim e à Gruta, observo a reacção e participo dessa visitação sempre que posso. Como acontece no 10 de Junho.»
Uma entre os tantos visitantes regulares da Gruta de Camões, Sara Augusto tem neste O Vasto Império do Coração um enorme contributo para a compreensão dessa linhagem emocional e poética que faz de Camões cidadão de Macau, independentemente dos séculos passados e, até, da incógnita sobre a sua eventual presença no território. Não será exagero dizer que, ainda que um qualquer conjunto de documentos surgisse e provasse sem margem para dúvidas que Camões nunca esteve em Macau, nada se alteraria nesta relação de quem habita a cidade com a obra do grande poeta de língua portuguesa. Agora, às leituras em voz alta da obra camoniana que tantas vezes se fazem junto ao busto do poeta, podem juntar-se outras, as destas vozes múltiplas reunidas neste livro, testemunho intemporal de uma herança que, tudo indica, não será desbaratada.










