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      Memorial de Saramago

                O ano de 2022 será de celebração da vida, da obra e do que emana da obra do único Prémio Nobel da Literatura em língua portuguesa. José Saramago nasceu há 100 anos e a fundação que carrega o seu nome está empenhada em fazer perdurar o seu legado, mantendo um olhar livre e crítico sobre a sua obra. «Não encaro Saramago como um santo que está num altar», diz Carlos Reis, académico e comissário do programa do centenário.

       

       

       

      Reler O Ano da Morte de Ricardo Reis enquanto prepara a celebração do ano da vida de José Saramago (1922-2022). Assim têm sido os dias de Carlos Reis, académico e comissário das comemorações do centenário do nascimento do único Nobel da língua portuguesa, que de caminho está a revisitar a obra saramaguiana. «A forma como O Ano da Morte de Ricardo Reis, ao mesmo tempo, interpela a literatura, Pessoa e o seu heterónimo; interpela a história, interpela o Portugal do século XX, tudo naquele estilo saramaguiano que atinge ali talvez o seu momento mais depurado, tudo numa tal harmonia e com tal capacidade de interagir com a nossa memória… é um livro riquíssimo sob muitos pontos de vista», diz ao Parágrafo numa entrevista por Zoom.

      José Saramago, que nasceu a 16 de Novembro de 1912, foi essencialmente escritor e Reis comunga do prazer de lê-lo. Enquanto comissário do seu centenário, porém, cedo decidiu que era preciso ir mais longe. «Da condição de romancista, poeta, dramaturgo e ensaísta de José Saramago emanam outras coisas: emana um pensamento social, político, literário, emana uma reflexão sobre grandes temas da nossa contemporaneidade, emana uma ética, mais do que uma ideologia», explica. Por isso, a decisão do comissário convidado para assumir a tarefa por Pilar del Rio, viúva do escritor e presidente da Fundação Saramago, foi de «não fechar as obras de Saramago sobre elas mesmas, partir delas para outras coisas». Muitas outras coisas.


      Programa cheio

      Uma exposição em Tavira, outra em Setúbal, outra no Museu da Língua Portuguesa em São Paulo, ópera e teatro em Lanzarote, Viagem a Portugal Revisited em parceria com o Turismo de Portugal – o programa do centenário do autor de Levantado do Chão compõe-se de um sem fim de actividades que, se têm a Fundação Saramago como pólo agregador, estendem-se a inúmeros parceiros de diferentes geografias. As muitas iniciativas estão organizadas por eixos – biografia, leitura, publicações e reuniões académicas – e contemplam «várias modulações do tal espírito de Saramago»: para lá das muitas conferências e debates, há teatro, música, cinema, dança, exposições.

      Entre os parceiros estão o Teatro Nacional de São Carlos, a Companhia Nacional de Bailado, O Teatro Nacional São João, a Biblioteca Nacional de Portugal, o Arquivo Nacional da Torre do Tombo, as Bibliotecas Municipais de Lisboa, a Cinemateca Portuguesa e a Orquestra Metropolitana de Lisboa, que a 16 de Novembro passado deu o concerto de abertura do centenário no Teatro São Luiz. Estas e outras entidades organizam e acolhem iniciativas das quais Carlos Reis destaca três. Uma delas é “Genealogia Literária Saramaguiana”, série de conferências organizada pela Fundação José Saramago sobre a relação do Nobel com os autores daquilo a que ele chamava a sua árvore genealógica literária: Saramago e Cervantes, Saramago e Pessoa, Saramago e Garrett, Saramago e Padre António Vieira, enumera Carlos Reis. «São conferências que decorrem muito no âmbito académico e que se vão realizar em Lisboa, em Coimbra, talvez alguma no estrangeiro.»

      Outro destaque vai para as “Conferências do Nobel”, organizadas em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa, que acontecerão no Salão Nobre dos Paços do Concelho. Trata-se de um «conjunto de reflexões alargadas sobre o pensamento de Saramago e questões que o pensamento de Saramago contemplaria, por exemplo a questão das alterações climáticas», elucida o comissário. Foram escolhidas «cinco personalidades com grande projecção na cena internacional em matéria literária»: Alberto Manguel, que comissaria as restantes sessões, Juan Gabriel Vásquez, Leila Slimani, Maaza Mengiste e Olga Tokarczuk. Além da conferência, cada autor dará mais uma palestra sobre um tema à sua escolha numa das bibliotecas da Rede de Bibliotecas de Lisboa.

      O terceiro evento destacado por Carlos Reis é um espectáculo que está a ser preparado pelo grupo Dança em Diálogos, uma adaptação de Memorial do Convento por Solange Melo e Fernando Duarte, que será estreada no Cine-Teatro Louletano a 4 de Junho de 2022. Neste caso, trata-se de uma actividade externa à Fundação Saramago que conta com o seu apoio institucional.

       

      Trabalhar é preciso

      A obra de José Saramago, se pensarmos por exemplo em Levantado do Chão, tem uma ligação especial à terra e aos trabalhadores. Ora, é exactamente trabalho aquilo que Carlos Reis considera ser necessário para manter vivo o legado do autor. «Há um fenómeno socioliterário e sociocultural conhecido e que é este de saber o que é que acontece a um escritor de grande nomeada dez, vinte anos depois da sua morte. Por vezes os escritores entram numa espécie de limbo e passam à história sem honra nem glória», avisa. «Nós entendemos que a presença e a continuidade de um escritor com a dimensão de José Saramago não é algo que seja de geração espontânea, tem de se trabalhar para isso – nas escolas, reuniões académicas, edições, etc., e fazer com que o escritor continue presente.» Como? «Por exemplo, que eu vá a uma livraria e estejam lá os livros dele, coisa que muitas vezes não acontece para escritores que morreram há dez anos e até há menos», diz Carlos Reis.

      Novas edições para conhecer ou revisitar a obra de José Saramago não faltarão durante este ano (ver texto nestas páginas). E, como em quase todos os corpos de trabalho literários com tamanha extensão, há momentos mais e menos felizes entre os muitos livros do Nobel. «Não devemos afirmar que Saramago é um escritor do cânone para todo o sempre, que é um escritor que só escreveu coisas geniais – não foi. Como todos os grandes escritores – talvez só com excepção de Shakespeare e Camões – Saramago tem grandes obras mas também tem obras menos conseguidas. É preciso mantermos o espírito livre para olharmos a obra do escritor com esse sentido crítico que ele aliás também tinha», prossegue Carlos Reis. O comissário, também à imagem do autor nascido na Azinhaga do Ribatejo, enjeita crendices: «Não encaro Saramago como um santo que está num altar. Encaro-o como um grande escritor; um homem que, como todos, teve qualidades e defeitos; alguém que deu um contributo honesto e talentoso à nossa literatura e que não podemos encarar como alguma coisa que está mumificada, que não é para se mexer mais.»

       

      Apesar de José Saramago ter sido galardoado pela Academia sueca há mais de 20 anos, Carlos Reis acredita que o prémio continua a ser importante para a literatura de língua portuguesa. E diz mais: «Penso que, olhando para trás, para o século XX, Saramago ficará como um dos grandes Prémios Nobel. Para uma literatura com pouca projecção internacional como a literatura portuguesa, isto é absolutamente excepcional.»

      Reis esteve presente na Casa dos Concertos, em Estocolmo, a 10 de Dezembro de 1998, para ver Saramago receber o Nobel da Literatura, um dia que não esquece: «Do ponto de vista pessoal, evidente que a cerimónia em Estocolmo foi uma emoção extraordinária que eu não saberia descrever. Tem também que ver com a imagem que temos da nossa relação com o mundo e ver um homem que fez uma instrução ou uma formação académica relativamente elementar, que foi um auto-didacta, que foi um escritor desconhecido praticamente até aos 60 anos, ver que a certa altura ele explode e adquire aquela projecção, é uma coisa emocionante.» Reis recorda o momento em que se dirigiu a alunos e professores aquando da recepção do Doutoramento Honoris Causa da Universidade de Coimbra por José Saramago, em 2004: «A minha intervenção foi em torno da noção de impossibilidade. Era impossível, olhando para este homem nascido de gente humilde, ali na Azinhaga do Ribatejo, era impossível pensar que chegaria aonde chegou. E para mim o que fica sobretudo é que provavelmente só a literatura permite isto – não há um prémio Nobel da Física auto-didacta, ou da Medicina, ou da Economia. Mas há um Prémio Nobel da Literatura auto-didacta, porventura até mais que um».

       

                  Um Nobel para ler e reler

      José Saramago não é como Fernando Pessoa: não há uma qualquer arca de inéditos inesgotável escondida algures numa casa ribatejana ou na paisagem lunar da ilha de Lanzarote. «Está tudo publicado», conforme assegura o comissário do programa do seu centenário, Carlos Reis. O que não quer dizer que os 100 anos do nascimento do Nobel não sejam motivo para que os livros de Saramago voltem a circular com roupagens novas e a encher os escaparates das livrarias – em Portugal mas também no Brasil e em Espanha.

      A Porto Editora lançou no final do ano passado uma nova edição de Viagem a Portugal, livro que relata o périplo do autor pelo país entre Outubro de 1979 e Julho de 1980 e que foi decisivo para José Saramago, na medida em que lhe ofereceu condições materiais para se dedicar à escrita a tempo inteiro. Esta nova edição de capa dura inclui as fotografias que Saramago fez ao longo da sua viagem — quase todas inéditas —, a par de fotografias de Duarte Belo, cujo trabalho fotográfico tem incidido intensamente sobre a paisagem cultural, natural e arquitectónica de Portugal.

      A Porto Editora prepara ainda a edição de Poesia Completa, bem como de A Viúva (ou Terra do Pecado), primeiro livro de Saramago, dos textos infantis Uma Luz Inesperada e O Silêncio da Água, bem como uma edição de Viagem do Elefante com ilustrações de Manuel Estrada.

      Em Espanha, a Alfaguara, editora por excelência da obra saramaguiana, publica pela primeira vez uma tradução de A Viúva e tem planeada a republicação de toda a obra de Saramago em território espanhol e na América Latina, com novas capas.

      No Brasil – de onde, a título de curiosidade, chega o humorista Fábio Porchat para ser protagonista de uma série baseada em Viagem a Portugal a estrear na RTP – também estão previstas várias edições. A Companhia das Letras vai publicar O Silêncio da Água, com ilustrações de Yolanda Mosquera, e Uma Luz Inesperada, com desenhos de Armando Fonseca. Ensaio sobre a Cegueira e O Evangelho Segundo Jesus Cristo terão direito a edições especiais, e será reeditado o volume As Palavras de Saramago, organizado por F. Gómez Aguilera. Finalmente, a Universidade Federal do Pará publicará o título José Saramago: “O Homem mais Sábio”, recolha de textos de doutrina literária e social de José Saramago organizada por Carlos Reis.

      Muitas outras obras dedicadas a José Saramago estão no prelo e chegarão às livrarias nos próximos meses. Ainda de Carlos Reis e Sara Grünhagen, sairá pela Imprensa Nacional O Essencial sobre José Saramago. Saramago, Os Seus Nomes, é uma fotobiografia de José Saramago, por Ricardo Viel e Alejandro García, com fotografias e originais inéditos, que terá edições pela Alfaguara, Porto Editora e Companhia das Letras. Na Tinta da China publica-se José Saramago: a Escrita Infinita, volume de ensaios de vários autores, coordenado por Carlos Nogueira. Finalmente, a Guerra&Paz reeditou recentemente Biografia – José Saramago, de João Marques Lopes, obra há muito esgotada e agora actualizada, com ilustrações da autora luso-britânica Lucy Pepper.

       

      Prémio Saramago recebe candidaturas até Maio

      Todos os autores de países de língua portuguesa e idade até 40 anos podem concorrer à 12ª edição do Prémio Literário José Saramago até 31 de Maio de 2022. A obra vencedora será publicada em Portugal (pelo Grupo Porto Editora) e no Brasil (pela Globo Livros) e terá distribuição em todos os países lusófonos. O vencedor receberá ainda um prémio monetário no valor de 40 mil euros. De acordo com o edital publicado pela organização, os concorrentes deverão submeter a concurso uma obra literária inédita no domínio da ficção, romance ou novela, com um mínimo de 200 mil caracteres com espaços, escrita em língua portuguesa. Não são admitidas obras póstumas nem trabalhos de autores que já tenham sido premiados em edições anteriores. Nesta edição, cujo vencedor será anunciado no último trimestre de 2022, José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe, João Tordo e Bruno Vieira Amaral formam o júri final do galardão. Toda a informação está disponível em www.premiojosesaramago.pt