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      InícioOpiniãoQuando Coloane era desconhecida (II)

      Quando Coloane era desconhecida (II)

       

      “A esta hora crepuscular a ilusão do campo é perfeita… Há uma quietação nas cousas; eleva-se no ar tranquilo o canto uníssono dos ralos – Uma doce paz tomba dum céu onde a última luz esmorece e as largas folhas das palmeiras recortam silhuetas a negro sobre o fundo anil do mar. – Misturado ao rolar das vagas escutam-se sons aqui e além que se confundem e se repetem; alguns evocam antigas paisagens perdidas e esfumadas na memória e emprestam a este anoutecer uma estranha e suave melancolia”.

      Esta não é uma transcrição de algum discurso de um governante mais inspirado por ocasião dos jantares de Primavera. Também não é a tradução livre e criativa de alguma prosa clássica chinesa mais abeirada da poesia. Trata-se, sim, do começo de um artigo do jornal “A Voz de Macau”, de 17 de Setembro de 1932. Não era um artigo qualquer. Era o principal, o que dominava a primeira página daquele dia.

      É verdade que era um sábado, dia supostamente prazenteiro, mas custa-nos imaginar, a nós, criaturas contemporâneas deste industrioso mundo das cidades e notícias que não dormem, que os jornais (“esse grande livro de todos os dias e quase todas as horas, em cujas páginas volantes colabora por mil formas a reportagem de todo o mundo”, como caracterizava Alfredo Cunha, um dos primeiros historiadores da imprensa portuguesa), custa-nos imaginar, dizia, que em vez de urgentes actualizações do calamitoso estado das coisas as parangonas se detivessem em impressões e devaneios líricos. Como o passado era, realmente, um país estrangeiro, onde se faziam coisas de forma diferente.

      Esta era uma Macau bucólica e tudo o que isso significava – rústica, simples, cândida. Era uma Macau que até tinha à sua disposição uma terra desconhecida. Uma “terra de ninguém”, como dizia o título (a manchete?) do jornal.

      “Esta terra distante e ignorada é a misteriosa ilha de Coloane”, desvendava o autor, Santa Clara. “Não chegam aqui os pregões chineses nem o buzinar dos carros que fazem, na Praia Grande, o passeio elegante das cinco da tarde. Isto é calmo”. Não havia, portanto, um quotidiano dominado por “preocupações mundanas de vestuário nem convivências forçadas com uma sociedade escolhida”. Nem havia sociedade propriamente dita, apenas “a fauna local”. Em suma, “vive-se uma existência simples e bárbara sob uma tenda nómada, à sombra de árvores seculares” ou vagueando à beira-mar, “contemplando os longes sem melancolia nem saudade que são modernas complicações psíquicas”.

      Não que Macau vivesse nesta angústia. Na indefinição da penumbra de um passado cuja luminosidade esmorecia, o território resguardava-se à margem da modernidade que, por exemplo, cidades como Hong Kong ou Xangai exibiam com exuberância. Mas Coloane era, realmente, um caso especial, verdadeiramente à parte, e que acabava, também, por representar uma ilha do tempo, um pedaço isolado, imune às normas da passagem das horas.

      “A existência decorre assim num sossego bucólico, alheia aos grandes acontecimentos que agitam o globo e às profundas lucubrações do nosso tempo”, exultava Santa Clara, satisfeito que ali não houvesse “espírito filosófico nem científico: as estrelas deixam de ser mundos submetidos a leis matemáticas e voltam a ser simplesmente estrelas…”

      Este era um mundo em que as ideias do futuro pareciam impraticáveis demais para alguém se dar sequer ao trabalho de as congeminar, sobretudo um espírito tão conservador como o do nosso autor. Era um mundo de distâncias que (ainda) pareciam impossíveis. Um mundo de lugares inacessíveis. Mesmo que se vislumbrassem no horizonte.

      Na década de 1930, a travessia de Macau para Coloane fazia-se num “barquito sem condições algumas de conforto”, que aportava “a um cais em miniatura onde ninguém nos espera”. Depois, a vila, “meia dúzia de ruelas sujas, um jardinzito desenxabido com um monumento comemorando um vago feito de armas, um repuxo e um macaco que ali vive há dez anos atado a um poste com infinitas nostalgias dos trópicos”.

      Rumando ao interior da ilha – então muito pouco procurado –, encontravam-se “vestígios dum vago e antigo interesse dos poderes públicos”. Eram sinais de promessas e planos que acabaram por não se cumprir: “o esboço de duas estradas que se dirigem da vila às povoações de Hac-Sá e Ka-Hó; uma ponte “sobre uma estrada que desapareceu” e que ali permanecia como “testemunho vivo da descontinuidade que caracteriza os nossos empreendimentos, feitos de heroicos esforços momentâneos, seguidos de discursos inúteis e de períodos de longa e suave letargia”.

      E era a este ponto que, enfim, se chegava nesta “terra de ninguém”: ali, em pleno nenhures, esperava-nos o confronto com a eterna ponderação sobre o que era e o que podia ser, e também sobre o que valia e não valia a pena. Do alto em que se podia contemplar toda baía de Hac-Sá, a mais pequena ambição de progresso esfumava-se numa vã glória, efémera demais para perseguir.

      “Olhando esta planície e esta pitoresca baía”, concluía Santa Clara, “não podemos deixar de nos lembrar de Macau confrontando o que é actualmente tal cidade com o que seria uma cidade moderna aqui construída. E a imaginação – esta cousa irrequieta e inútil que só traz dissabores – em alguns momentos aqui estabelece os fundamentos da nova cidade: habitações modernas, cercadas de jardins, ruas largas, traçadas a direito, perspectivas inteligentes e claras, campos desportivos, manchas verdes de relva. Nós, porém, sorrimos, com um ar superior, destas ingenuidades dum espírito visionário e vamos construindo em Macau, pondo de lado preocupações de paisagem, aquelas edificações que visam apenas a um equilíbrio mais ou menos estável e a um alojamento mais ou menos incómodo”.

      Coloane, que era “de ninguém” (e, por isso mesmo, era “de todos”), estava em aberto, tal como o futuro, o que podia querer dizer tudo ou até nada. Que mais havia de se pedir?

       

      Hugo Pinto

      Jornalista