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      Início Opinião Mudam-se os tempos, muda-se o tempo

      Mudam-se os tempos, muda-se o tempo

      Alterações Climáticas

      O clima terrestre tem passado por diferentes mudanças e é agora inquestionável que estamos perante aquecimento e alterações globais cada vez mais rápidas. As mudanças adversas provocadas pelas alterações climáticas, devem-se em grande parte às atividades humanas que aumentaram após a revolução industrial e têm vindo a ocorrer pelos mais diversos motivos, como o efeito de estufa, e o aumento da emissão de gases e de partículas na atmosfera. Nas últimas décadas, temos testemunhado o aquecimento da atmosfera, a diminuição da neve e do gelo, secas, e aumento do nível do mar, da sua temperatura, salinidade e disponibilidade de nutrientes. Estes fatores criam um efeito dominó, afectando todos os seres vivos e ecossistemas no nosso planeta. Embora comece a surgir uma percepção da gravidade deste tema por parte de várias entidades legislativas e políticas, e embora se tenham tomado algumas acções para reduzir os efeitos negativos, são precisos mais esforços para compreender e eventualmente contornar as suas consequências mais graves.

       

      Perspectiva micológica

      Como sabem, os fungos são os meus microorganismos favoritos. E, infelizmente, o efeito das alterações climáticas nos fungos afecta direta e indiretamente muitas áreas, antevendo-se um grande impacto em várias actividades humanas. Vou-vos explicar de seguida alguns exemplos.

       

      Agricultura

      Cerca de 90% das plantas terrestres beneficiam da associação com um determinado tipo de fungos: as micorrizas. Estes fungos desempenham um papel fundamental no desenvolvimento, crescimento e saúde das plantas, ajudando-as a extrair do solo um dos elementos essenciais: o azoto, ou nitrogénio. Os factores de stress, que aumentam com as alterações climáticas, interrompem estas associações e podem, por sua vez, influenciar aspectos agrícolas vitais, como requisitos de irrigação, rotação de produções de cultivo, época de colheita ideal e contaminação das colheitas.

      Estimativas atuais apontam para que espécies fúngicas, como as dos géneros Alternaria, Fusarium, Venturia e Phoma, aumentem a sua capacidade infecciosa nas plantas devido ao aumento das temperaturas globais. Pois algumas espécies quando expostas a altas concentrações de dióxido de carbono e altas temperaturas, tornam-se mais resilientes, sofrem várias alterações (entre as quais genéticas) e adquirem um aumento da capacidade de causar infecções e de produzir substâncias que podem ser tóxicas e perigosas como é o caso das micotoxinas.

      A contaminação das produções agrícolas por micotoxinas tem um grave impacto na distribuição geográfica de muitas culturas essenciais, como os cereais. A título de exemplo, vários estudos têm demonstrado que o cultivo de milho, de elevada relevância económica no Quénia, será muito afetado nas próximas décadas, com o aumento da contaminação por aflatoxinas (um tipo de micotoxinas cancerígenas, produzidas por determinados fungos como as espécies Aspergillus spp) que impede a utilização desse milho. Muitos destes fungos patogénicos podem arruinar plantações e levar a grandes perdas económicas. A economia baseada na agricultura, comum em várias zonas do nosso planeta, terá que mudar e adaptar-se para sobreviver.

       

      Biodiversidade e Ecologia

      Os fungos relacionados com as plantas (micorrizas) também podem proteger as plantas contra a sua extinção, facilitando ou atrasando a dispersão de plantas de ambientes inadequados, diminuindo os efeitos de stress para as plantas e permitindo-lhes uma mais fácil adaptação a novos climas. As plantas ameaçadas de extinção podem ter o seu grupo específico de micorrizas, e a seleção de alguns desses fungos para o tratamento dessas plantas pode ajudar a promover seu crescimento. Assim, com as mudanças ecológicas, a biodiversidade dos fungos mudará, tal como a sua influência no ambiente circundante.

      Por exemplo, a trufa negra Tuber melanosporum, é uma micorriza geralmente encontrada em regiões de clima mediterrâneo. Cresce no subsolo, numa uma relação simbiótica com as raízes das árvores e é de elevado valor económico. Mas, o clima mediterrâneo tem sido afetado por secas há algum tempo, tem havido uma diminuição na produção de trufas. Assim, tornou-se imperativo encontrar habitats alternativos, mais adequados do que o original, e perante as condições climatéricas actuais consegue-se ter uma boa produção destas trufas no norte das Ilhas Britânicas, onde há umas décadas seria impensável produzi-las.

       

      Segurança alimentar e saúde

      Alimentos e rações são frequentemente contaminados por fungos e pela sua produção de micotoxinas. Essas contaminações afetam a nutrição e por consequência a saúde.

      As aflatoxinas, geralmente encontradas no leite, ovos, queijo, cereais e nozes, têm a sua produção favorecida perante as mudanças no clima. O aumento da sua produção, pode gerar doenças como a aflatoxicose aguda e inclusive mortes pelo consumo de alimentos contaminados. Outra micotoxina também regularmente encontrada em produtos alimentares (como cereais, grãos secos, amendoim, queijo, café, cacau, frutas secas, uvas e vinho), a ocratoxina A (OTA), é tóxica para os rins (nefrotóxica), com riscos para a saúde de humanos e outros animais. Esta é influenciada pelas mudanças climáticas que aumentam a colonização por fungos por exemplo nas uvas, o que consequentemente aumenta a contaminação da OTA, tanto nas uvas quanto nos produtos derivados.

      Além disto, nos últimos tempos têm sido reportados cada vez mais casos de fungos patogénicos emergentes relacionados às mudanças climáticas, e infelizmente espera-se uma continuação dessa tendência. Podemos vir a ter no futuro, infeções causadas por fungos que nas condições actuais não nos afectam, mas que por se adaptarem a novos climas se tornarão ameaças para nós e outros seres vivos.

       

      Visão geral

      Muitas previsões têm sido feitas e muitos estudos elaborados, no entanto, ainda existem muitas lacunas de conhecimento. Precisamos urgentemente de mais estudos e pesquisas para planear melhor acções futuras e para nos adaptarmos às mudanças que não podemos prevenir ou evitar. Compreender os mecanismos microbiológicos, que permitem que espécies naturalmente adaptadas ou tolerantes a extremos se desenvolvam e sejam metabolicamente ativas em ambientes hostis, pode ajudar-nos a implementar medidas de adaptação e planear melhor as nossas ações na Terra. Só assim conseguiremos assegurar que teremos no futuro, mais por contar.

       

      Marta Simões
      Cientista

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