E se os marcianos não forem como nos filmes de Hollywood?

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A imensidão do Universo sugere que não estamos sozinhos, mas talvez seja preciso desmistificar a ideia dos “marcianos verdes” popularizada pelo cinema de ficção científica. Em conversa com o PONTO FINAL, o investigador português André Antunes desconstrói a visão antropocêntrica do espaço e explica que os extraterrestres mais prováveis são, na verdade, muito parecidos com os micróbios terrestres.

Quem nunca levantou os olhos para o céu e questionou que formas de vida existiriam por aquela imensidão estrelada fora? A contemplação do cosmos é tão antiga quanto os primórdios da civilização, quando os primeiros astrónomos estudaram os astros e tentaram encontrar algum sentido na abóbada celeste. Estaremos sozinhos? Será que haverá também, algures no Universo, uma civilização de criaturas humanoides a tentar encontrar-nos? Volvidos milhares de anos, séculos de debates e inúmeras teorias, estas questões continuam sem resposta definitiva.

Ao longo do último século, os filmes de ficção científica ajudaram-nos a criar uma ideia de como seria a aparência destes povos longínquos: cabeça e olhos desproporcionalmente grandes, pele semelhante à de um anfíbio, tom esverdeado ou acinzentado, ausência de orelhas e nariz. Apesar destes traços peculiares, a maioria das criaturas saídas da fábrica de fantasias de Hollywood retém uma aparência antropomórfica, quer para suscitar mais empatia no público, quer para contornar as limitações técnicas. A astrobiologia apresenta uma perspectiva diferente: é provável que exista vida noutros planetas, sim, mas não como a imaginamos.

O microbiólogo André Antunes, director do Instituto de Ciência e Meio Ambiente (ISE) da Universidade de São José (USJ), foi recentemente entrevistado pela revista National Geographic, onde alertou para a necessidade de se “pensar fora da caixa” no que toca à anatomia das criaturas extraterrestres. Em conversa com o PONTO FINAL, o professor aprofundou as suas perspectivas sobre o tema e explicou que a exploração espacial passa, obrigatoriamente, pela compreensão das criaturas que habitam a Terra.

“Somos muito condicionados pela televisão e pelo cinema”, reconheceu. “Do ponto de vista dos efeitos especiais, é mais fácil pegar num actor, pintar-lhe a cara de azul e pôr-lhe umas antenas do que tentar fazer algo radicalmente diferente – e esse foi o grande factor que acabou por impactar as nossas expectativas de como serão os extraterrestres”. Ora, quando as primeiras missões a Marte revelaram um planeta aparentemente inóspito e despovoado de “homenzinhos verdes”, o entusiasmo inicial da corrida espacial rapidamente esmoreceu para uma decepção generalizada com a ausência de vida inteligente no planeta vermelho.

“O público em geral perdeu interesse, o que é pena”, lamenta André Antunes. “Marte é um planeta bastante interessante: é altamente provável que tenha existido vida e que continue a existir vida actualmente, no subsolo”. Isto não se traduz numa sociedade de criaturas humanoides que aprenderam a sobreviver nas profundezas do planeta, como a indústria do cinema provavelmente idealizaria. O mais provável é que os marcianos sejam, na verdade, “organismos muito simples, unicelulares” – o mesmo tipo de vida que prolifera no subsolo terrestre. Os extraterrestres que povoam o imaginário popular poderão, afinal, ser mais parecidos com micróbios do que com seres humanos.

A RESILIÊNCIA DA VIDA

Antes de sonharmos com Marte, é preciso olhar para a Terra. O planeta abriga uma imensa variedade biológica, por vezes tão distante que chega a parecer “bizarra” face aos padrões humanos. Desde ecossistemas de pressão extrema no fundo do mar até organismos com capacidade anaeróbica, que sobrevivem sem oxigénio, a vida parece encontrar sempre um meio (tal como dizia a personagem de Jeff Goldblum no filme “Parque Jurássico”).

As expedições de André Antunes já o levaram um pouco por todo o mundo, da Antártida ao Mar Vermelho. Seja qual for a temperatura, a salinidade, a abundância ou escassez de água, a vida encontra sempre forma de prosperar através dos chamados “extremófilos” (como o nome indica, criaturas que vivem em ambientes extremos). “No imaginário popular, ainda há a ideia de que a vida é muito frágil”. Nada poderia estar mais longe da realidade: “Nas últimas décadas, chegou-se à conclusão de que a vida é, afinal, incrivelmente resiliente e adaptável. Temos uma série de ambientes no nosso planeta que originalmente se pensava que eram estéreis, onde era impossível existir qualquer forma de vida”. Isto é, até a ciência nos recordar que o mundo existe para lá das limitações humanas.

“Temos tendência a pensar: este ambiente é muito quente, muito acídico, tem muita radiação – de certeza que não viveríamos lá. Estamos condicionados pela nossa perspectiva. O certo é que, extremo após extremo, a vida microbiana consegue adaptar-se e prosperar. E não está só a resistir àquelas condições extremas: depende mesmo delas para se desenvolver e reproduzir”.

Tome-se como exemplo os micróbios que vivem em ambientes de extrema salinidade. Nas palavras do investigador: “Mesmo que não se consiga encontrar estes depósitos de água muito salgada, terão de ter ficado para trás cristais de sal. Dentro dos cristais, existem bolhinhas de água que ficam lá retidas, protegidas da radiação, e que criam uma espécie de cápsula do tempo geológica onde é possível ver o passado da água do mar, quando foi aprisionada dentro do cristal de sal”.

Aplicando a mesma lógica aos restantes planetas do Sistema Solar, compreende-se que a inexistência de água à superfície – ou mesmo no subsolo – não implica necessariamente a inexistência de vida. “Participei num debate promovido pela China, que reuniu especialistas de todo o mundo para recolher opiniões sobre o tipo de amostras que se deve tentar trazer de Marte”, revela o académico ao PONTO FINAL. “Um dos pontos que defendi foi, precisamente, a recolha de amostras de cristais de sal”.

As luas de Júpiter e Saturno parecem igualmente promissoras quanto à possibilidade de albergar vida alienígena. Encélado, mais concretamente, tem a particularidade de expelir jactos de água salgada em plumas semelhantes a géiseres, o que remete para a atividade vulcânica terrestre e sugere a existência de um oceano sub-superficial com potencial actividade hidrotermal. E o que se encontra nos ambientes hidrotermais no fundo dos nossos mares? “Encontramos formas de vida exóticas, bastante diferentes, mas que têm um sucesso tremendo”, lembra André Antunes. “Por isso, do ponto de vista da procura de vida no nosso Sistema Solar, há todo um conjunto de recantos por explorar que acho que nos vão trazer surpresas muito interessantes nas próximas décadas”.

MARCIANOS: “PRIMOS AFASTADOS” DOS HUMANOS?

A descoberta de qualquer tipo de vida alienígena levará, invariavelmente, a uma revolução científica. Até à data, a definição de “vida” e todas as suas possibilidades e condicionantes baseiam-se no único exemplo de que dispomos: a vida na Terra.

Quando acontecer (“não é uma questão de ‘se’, é uma questão de ‘quando’”), a descoberta de micróbios extraterrestres abrirá dois cenários possíveis, de acordo com o especialista. Numa primeira hipótese, podemos estar perante um tipo de vida semelhante ou até mesmo aparentado com o nosso, tornando a teoria da panspermia bem mais verosímil.

“Há quem defenda que houve grandes movimentações de moléculas entre várias partes do Sistema Solar, numa era mais primitiva da sua formação, e que poderá ter havido transferência de matéria entre Marte e a Terra”. Segundo esta hipótese, a vida teria surgido primeiro no planeta vermelho e posteriormente sido transplantada para a Terra, onde acabou por proliferar. Os marcianos seriam, assim, “primos afastados” dos seres vivos terrestres – incluindo a espécie humana.

Numa segunda possibilidade, a vida microbiana em Marte poderá revelar-se completamente distante de tudo aquilo que conhecemos. André Antunes considera que “essa seria uma revolução ainda maior”, ao obrigar a uma reconsideração profunda da definição de “vida” e das condições para a sua existência. Obrigaria, de igual modo, a uma reavaliação da visão antropocêntrica do Universo, ao comprovar que a experiência humana (e a própria vida terrestre) não passa de uma fracção ínfima da imensidão cósmica.

É ESTATISTICAMENTE ABSURDO ESTARMOS SOZINHOS

À medida que a ciência expande os limites do conhecimento e comprova que a Terra é apenas mais um ponto insignificante na imensidão do espaço, também o ser humano “cai um bocadinho do pedestal” que erigiu por e para si mesmo.

“Durante um longo período, questionou-se se o Sistema Solar era excepcional; se tínhamos condições específicas que permitissem este tipo de configuração. Havia a ideia de que a Terra era o centro do Universo e que a alma o centro da Criação. Na verdade, a conclusão a que temos chegado é a de que não há nada de particularmente diferente, exótico ou único na Terra”. Será, então, estatisticamente absurdo pensar que estamos sozinhos num universo infinito e largamente desconhecido?

André Antunes não hesita na resposta: “Com certeza. Não faz sentido nenhum”. Com o aperfeiçoamento contínuo das técnicas de exploração espacial, a comunidade científica tem vindo a descobrir que os recursos que propiciam vida neste pequeno planeta são, afinal, mais comuns do que se imaginava. Aliás, “do ponto de vista da química, os elementos que são essenciais à vida como a conhecemos – carbono, oxigénio, hidrogénio, azoto – são incrivelmente banais e abundantes no Universo”.

A descoberta de vida microbiana nas próximas décadas é “quase garantida”, impulsionada pela nova corrida especial disputada entre a China e os Estados Unidos. Quanto à vida inteligente, a resposta exige mais contenção. Tendo em atenção a escala incomensurável do Universo, é altamente provável que se tenha desenvolvido, algures, uma civilização tão ou mais avançada do que a nossa. É o Paradoxo de Fermi, tão válido hoje como quando foi formulado em 1950: se a existência de civilizações extraterrestres é altamente provável, como se explica a ausência de quaisquer provas que o comprovem?

André Antunes propõe várias teorias. “O nosso tipo de comunicação pode ser muito diferente daquele que é usado por outras eventuais civilizações extraterrestres, o que faz com que nem eles nos consigam contactar a nós nem nós a eles”, conjectura. “Também há aquela teoria de que eles estão escondidos, que não querem ser detectados pela Humanidade”. Esta perspectiva conecta-se directamente com outra hipótese, frequentemente levantada em discussões filosóficas: a de que a civilização humana se encontra ainda num patamar demasiado primitivo.

“Há quem defenda que a Humanidade precisa de atingir um determinado nível tecnológico para que outras civilizações se possam revelar. Precisamos de chegar a um ponto da nossa evolução em que já não nos vamos destruir nem destruir outras civilizações”. Enquanto permanecermos neste estado em bruto, longe de sermos uma sociedade pacífica, será como se vivêssemos numa espécie de “pseudo-quarentena galáctica”. Talvez sejamos ainda demasiado perigosos e hostis, tanto para eventuais civilizações extraterrestres como nas nossas próprias relações intra-específicas.

A propensão histórica do ser humano para a violência, a guerra e a auto-destruição está na origem de muitos debates sobre a capacidade de colaboração da nossa espécie, servindo também como ponto de partida para muitas histórias de ficção científica. “Está na vossa natureza destruir-vos uns aos outros”, sentenciava o Terminator, no segundo filme da saga. Mas será mesmo assim?

“Há quem diga que esse momento de união da Humanidade só acontecerá quando aparecerem extraterrestres”, diz o professor da USJ. “Enquanto isso não acontecer, há sempre algum argumento para nos dividir: é a religião, é o facto de vivermos em diferentes continentes… Tenta-se sempre ampliar as diferenças”. Segundo esta teoria, as divisões e barreiras entre seres humanos dissipar-se-iam por completo perante o contacto com uma forma de vida verdadeiramente alienígena. “De repente, estas linhas e fronteiras deixariam de fazer sentido. Não seriam nada, comparadas com algo completamente diferente”.

A busca por inteligência extraterrestre confronta-nos com a nossa própria ignorância e, na fase actual, parece abrir mais perguntas do que respostas. Ao imaginarmos um eventual contacto entre civilizações, a questão mais premente será, talvez, “quando?”. Para André Antunes, a resposta é um enigma: o contacto que redefinirá o nosso lugar no Universo pode acontecer daqui a séculos ou, se “eles andarem por aí”, até pode surpreender-nos já na próxima semana. Estaremos preparados?