Sem conseguir traçar um perfil de um eleitor do Chega, partido político de extrema-direita, dada a complexidade e as contradições que se encontram, Miguel Carvalho considera que, em comum, há um universo de recalcamentos e frustrações. De passagem pelo território, para participar no Festival Literário de Macau, em entrevista ao PONTO FINAL, o jornalista e autor de “Por Dentro do Chega”, falou sobre quem está por detrás do partido que, na sua opinião, tem tudo para chegar ao governo de Portugal, caso haja uma crise política e eleições antecipadas.
O que é que permitiu que o Chega fosse criado?
Costumo dizer, meio a brincar, que o criador do Chega não foi o Ventura. Foram os governos todos que falharam antes. Quando estava toda a gente concentrada no líder, eu queria perceber o que é que levava uma série de gente tão diferente a ir para ali. Comecei a ir para o terreno e percebi que era, em muitos casos, um recalcamento, um ressentimento e uma raiva que vinha de muito atrás. Tenho entrevistas de quatro ou cinco horas, em que as pessoas só falam do Chega no fim, porque é a estrada que não foi construída e a escola que fechou.
O Chega teria esta força toda sem o Ventura?
Ele foi o íman disto tudo. Chegou a ir a zonas do país onde não ia um político há muito tempo. Ele já tinha algum espaço mediático: a CMTV, Loures [candidato à Câmara Municipal, em 2017]. Foi com alguma humildade, até para servir muitas vezes de saco de boxe às próprias pessoas. Muitos diziam: não vem aqui um político há bastante tempo, mas, já que cá está, vai levar por eles. Ele não levava nenhuma proposta, mas por ser, ao mesmo tempo, ombro amigo e saco de boxe, e por dizer três ou quatro coisas ou simplificar coisas complexas, porque as pessoas as queriam ouvir, foi muito inteligente. Não haveria Chega sem ele. Toda a gente se lembra do programa de futebol, mas há outro programa, que fez, mais ou menos na mesma época, que era o Rua Segura. Há um dia em vai substituir alguém, que não pôde ir, e acaba por ir ficando. Fui ver as audiências desse programa na altura — a CMTV estava a começar — e estávamos a falar de 100.000, 150.000 pessoas. Ele aí começa a perceber as fissuras que há na sociedade portuguesa, pelo feedback que recebe. Há um caminho a fazer com narrativas que são aquelas do Chega.
O Chega é um partido de extrema-direita?
Nos textos da Visão, nunca chamei ao Chega partido de extrema-direita. Utilizei sempre o termo: direita radical populista. O que acho que aconteceu (daí eu usar extrema-direita neste livro) é que o Chega, que já tinha passado alguns limites, no último ano e meio, passou muitos mais. O Ventura não dizia, de uma forma tão aberta e tão provocadora, sobre a Assembleia da República e sobre os tribunais, o que diz hoje. É alguém que vai a Espanha, vai a um comício do Vox e diz: se mandasse, o Pedro Sánchez era preso. Trata a Assembleia da República como sabemos. Sobre o Tribunal Constitucional e os acórdãos a dizer que o Chega tem órgãos ilegais, fala com desprezo. Ao nível do seu aparelho político, naquilo que é a hierarquia do Chega, é, cada vez mais, um partido de extrema-direita. Mas dizer que o seu universo eleitoral é de extrema-direita já é um carimbo que recuso.
Quem são as pessoas que votam no Chega?
Não sei qual é o eleitor típico do Chega, porque, em Bragança é uma coisa e, em Faro, é outra. É gente que traz a esta discussão muita complexidade e muitas contradições. Entrevistei fundadores do Chega, como a Lucinda Ribeiro, que já não está lá, que era capaz de fazer um discurso de meia hora sobre o papel das mulheres na sociedade. Ao mesmo tempo, se lhe falares da imigração, já é outra questão. Eu dizia-lhe: a Lucinda tem noção de que isso poderia ter sido dito pela Catarina Martins [ex-líder do partido Bloco de Esquerda]? Ela respondia: isso é um problema vosso, não é meu. Vocês é que têm de compreender isso. As coisas já não são em gavetas. Há gente no Chega que detesta o discurso do André Ventura sobre os ciganos. Podes perfeitamente ser militante do Chega e, daqueles dez ou 12 temas que o Ventura insiste sempre, escolher quatro temas.
O que é que diferencia o Chega dos movimentos neonazis de Mário Machado, por exemplo?
São coisas diferentes. Há uma direita ideológica, que estava entregue a pequenas tertúlias e editava os boletins. A figura tutelar disso tudo é o Jaime Nogueira Pinto. Depois tens a outra — essa do Grupo 1143 e derivados — que também estava nas margens do sistema (aliás, a outra também estava). Para essa direita, tanto a mais intelectualizada como a mais violenta, não é o que eles sonharam, mas é o que está à mão para cumprir uma agenda mínima que sempre sonharam. Para o Grupo 1143, o Chega é uma espécie de braço político. O 1143 não deixa de ser um braço armado do Chega, porque, embora não haja uma ligação orgânica, a verdade é que ambos contribuem para a narrativa um do outro. A outra direita mais intelectualizada também percebe que o Chega é a única forma de tentar que uma parte da sua agenda se cumpra.
Quem são as pessoas que estão no partido?
Há de tudo. Há os derrotados do 25 de Abril, que se acomodaram ali, os saudosistas da ditadura e as pessoas que ainda acham que fazia sentido ter colónias. Ao mesmo tempo, tens uma elite económico-financeira que sempre financiou os partidos do arco governativo, mas agora sente que no Chega pode cumprir mais rapidamente a sua agenda. Ao mesmo tempo, o Chega atrai muitos ressentimentos e recalcamentos de várias ordens. Ouvi pessoas que andam há 10 ou 15 anos em concursos públicos, a concorrerem a tudo, até para serem varredores de rua. Vais às redes sociais e percebes que alguém se candidatou ao Fundão para tentar não sei quê e depois falha quase sempre nas provas de aptidão cultural ou não vai. Isto vai criando um ressentimento. Queres mudar de vida e não consegues. O capitalismo nunca é um falhanço colectivo, é um falhanço teu. Agora imagina que te levantas às 5 da manhã para o emprego e depois ainda tens outro, ao final da tarde, e chegas a casa às 10 da noite e nem sequer estiveste com os teus filhos, e há alguém que diz: ‘não, a culpa não é tua, é do sistema’.
Qual é a ligação entre o Chega e o salazarismo?
O salazarismo é meramente utilitário. Interessa ao Ventura que esse imaginário esteja lá. Assisti a isso desde os primeiros comícios, porque havia sempre saudosistas nas mesas e nos jantares. Ele tinha sempre o cuidado, no seu discurso de 45 minutos, de lhes dedicar cinco ou dez minutos. Ele até pode ser, em termos de imagem pública, uma espécie de Salazar 2.0, mas isso é marketing, porque lhe interessa buscar essa gente, como também lhe interessou perceber que alguns dos seus posicionamentos mais conservadores podiam ir buscar sectores conservadores do PCP.
O jornalismo ajudou a que o Chega crescesse?
Claro que ajudou. Ainda tolero que, no início, muitos de nós acharam: vamos dar-lhe corda, que isto não vai durar muito tempo. Como não tínhamos qualquer experiência deste género e como não tínhamos aprendido com as experiências de outros sítios, é natural que, em 2019/2020, andássemos a patinar. Mas o que acontece hoje não tem desculpa nenhuma. Convidam-no para estúdio, sempre em exclusivo e em directo, e ele não cumpre os mínimos do valor notícia. A primeira coisa que começa por fazer é bullying ao próprio pivô ou à pessoa que o está a entrevistar. Faz bullying também ao próprio canal, que já o está a convidar pela terceira vez. Depois ainda tem a suprema lata de falar contra o sistema. Nós, como se isto não fosse suficiente, estamos a abdicar do último reduto que ainda temos, que é fazer perguntas. Estamos a entregar perguntas a comentadores encartados, que ele aproveita para promover dois dias antes.

Além do jornalismo, há as redes sociais. Foi o grande factor que o fez crescer?
Sim, fez. No início, muito graças à Lucinda Ribeiro, programadora informática. Ela coordenava dezenas de grupos de apoio ao Chega e ao próprio André Ventura. Depois ainda aproveitou os movimentos negacionistas [da Covid-19] para ir buscar mais alguns. Muito inteligente, harmonizou as redes evangélicas a favor do Chega. O Chega soube rapidamente perceber como é que o algoritmo funcionava a favor deles. Se odeias e escreves Chega e Ventura, as redes só estão a funcionar a favor. Depois, partilham vídeos a partir da própria página do Chega e a partir das próprias redes sociais do Ventura ou da Rita Matias. Além de as narrativas não serem complexas, muitas delas são falsas e estão de acordo com uma série de coisas que estão por resolver na escola, desde os manuais à forma como se ensina.
Na máquina partidária há vários casos, de queda de pessoas ligadas ao partido, por crimes e um histórico duvidoso. É só o Ventura que monta esta máquina toda? Não há outras pessoas capazes?
Não. Aquilo está muito assente nele e é, desde o princípio, um projecto de poder pessoal, como anos antes tinha sido o Benfica. Está muito concentrado nele. É um partido menos livre do que era no início. Ainda havia gente com algum pensamento e que se atrevia a ir a palco fazer uma crítica. Tenho sérias dúvidas que o congresso de Maio tenha uma voz crítica que seja. É um partido que vive da intuição e da inspiração momentânea do seu líder e da espuma que ele cria e não quer muito mais do que isto. A pauta ideológica é o neoliberalismo. Comparar o Chega a outros partidos europeus da sua família política é absurdo. Esses, mal ou bem, fazem uma discussão com alguma profundidade.
O Ventura cresceu na linha de Sintra e não vem de um ambiente burguês, elitista ou de direita. Não tem as características tradicionais que o apontariam como líder de um movimento destes. O que se passou?
Percebeu que havia um nicho. É uma pessoa extremamente ambiciosa, com uma vertigem enorme de controlar tudo e todos. Há mensagens dele enviadas do Parlamento para a sede [do partido] a perguntar: alguém já comprou areia para o gato? É um tipo que, durante algum tempo, até defendeu posições progressistas.
Ele não acredita em nada do que diz?
É tudo utilitário. Entrevistei a pessoa que lhe geria o Twitter e, muitas vezes, ele dizia: não acredito nisto, mas publica, porque vai provocar ruído. A pior coisa que podem fazer é ignorá-lo.
Quem financia o Chega?
O que posso provar é que o grosso do financiamento do Chega é português. Estamos a falar, em alguns casos, de empresários e investidores, que têm redes internacionais ou que têm offshores. Há o João Bravo, que foi um dos principais financiadores do Chega e era o maior negociador de armas e de equipamentos militares com o Estado português. Há uma elite económico-financeira. Dou pistas no livro para se perceber que pode estar a nascer outra coisa. Há dirigentes do Chega a criarem institutos e organizações para organizar seminários e colóquios, e percebemos, pelos apoios, o que poderá vir para esse tipo de eventos. O pai da Rita Matias, presidente ao Instituto Imperador Carlos I da Áustria, leva a que a família Matias ande sempre muito próxima da embaixada húngara e dos dirigentes húngaros. Mas não consigo provar que há financiamento exterior ao Chega.
Durante a investigação, houve pressões?
A minha relação com a direcção e com o aparelho do Chega de topo foi sempre mais difícil. A direcção do Chega, ao longo dos anos, tentou bloquear o meu acesso a uma série de coisas, que culminou, em 2024, com a tentativa de impedirem que eu fosse ao Congresso. Não resultou, porque eu fiz uma queixa à ERC [Entidade Reguladora para a Comunicação Social] e foram obrigados a deixar-me entrar. Já no universo eleitoral do Chega e dos seus dirigentes intermédios, a minha relação foi sempre boa. Nunca ninguém me hostilizou por aquilo que eu escrevia.
Há alguma probabilidade de André Ventura vir a ser primeiro-ministro?
Sim. Se houver eleições antecipadas outras vez e se houver uma crise política, em que voltem a estar em cima da mesa questões éticas ou de suspeita de corrupção, é quase inevitável. Se isso não acontecer e a legislatura for até ao fim, mesmo que por más razões, o Chega vai ter um problema. Já há alguns sinais de desgaste. É verdade que o partido cresceu. É verdade que, nas últimas eleições, o partido até estendeu a sua manta eleitoral para norte, mas há zonas do sul onde já se nota algum desgaste. É bom não esquecer que o Ventura perdeu, entre as legislativas e as presidenciais, 100.000 votos na primeira volta. Na segunda volta, são outras contas muito diferentes. Há possibilidade de desgaste, se a impossibilidade de chegar ao governo se prolongar.












