Hรก conflitos que nascem de grandes ideias. Outros, de grandes egos. E hรก ainda os mais inquietantes: os que nascem de pequenos desencontros e crescem, por falta de forma, atรฉ parecer inevitรกveis.
Nas comunidades, como na vida, รฉ verdade que ninguรฉm trabalha โpara aquecerโ. Todos tรชm objetivos, ambiรงรตes e visรตes.
Ainda assim, convรฉm nรฃo generalizar. Hรก quem trabalhe com horizontes mais abrangentes, a pensar no todo, e nรฃo apenas no imediato ou no espaรงo que ocupa.
O problema nunca foi a ambiรงรฃo. O problema comeรงa quando diferentes legitimidades โ umas construรญdas no terreno, outras afirmadas nas instituiรงรตes โ deixam de ser complementares e passam a disputar o mesmo espaรงo.
Durante muito tempo, esse equilรญbrio existe. Funciona atรฉ bem. Uns agregam, outros estruturam. Uns falam com muitos, outros pensam para muitos. E, enquanto cada um permanece no seu lugar, tudo parece natural.
Atรฉ deixar de ser.
O que era entendimento passa a expectativa. O que era expectativa passa a direito. E o que nunca chegou a ser formal passa a ser lembrado como se tivesse sido.
ร nesse momento que o informal colide com o institucional. E, curiosamente, รฉ tambรฉm nesse momento que todos descobrem โ um pouco tarde โ que os estatutos existem.
Depois vem a fase mais moderna do conflito: a sua versรฃo pรบblica. Com textos, metรกforas, leituras profundas sobre a natureza humana, a fragilidade da vida e a injustiรงa do mundo. Tudo muito legรญtimo. Tudo muito bem escrito, mas raramente suficiente para resolver o essencial.
E, do outro lado, instala-se tambรฉm a reaรงรฃo โ por vezes em tom semi-pรบblico, entre insinuaรงรตes, sinais de ressentimento e atรฉ acusaรงรตes de traiรงรฃo, alimentando um galhardete aรฉreo que, curiosamente, dispensa o confronto direto e se sustenta ร distรขncia.
Pelo meio, nรฃo faltou sequer quem apontasse a via mais elementar e mais digna: um encontro franco, direto e sem plateia, capaz de pรดr termo a uma guerra aberta que hรก muito deixou de honrar quem nela persiste.
Porque, no fim, os conflitos reais nรฃo se resolvem em parรกbolas โ nem em campanhas verbais.
Resolvem-se com clareza, com responsabilidade e, sobretudo, com a capacidade โ hoje cada vez mais rara โ de conversar diretamente sem plateia.
Talvez o maior equรญvoco destes episรณdios seja a necessidade de transformar desacordos em narrativas รฉpicas, como se cada decisรฃo tivesse de carregar um simbolismo maior do que a prรณpria realidade, como se tudo tivesse de ser uma travessia, uma luta ou uma metรกfora.
Nem tudo precisa de ser tรฃo grande.
รs vezes, trata-se apenas de reconhecer que houve caminhos que divergiram, decisรตes que alteraram equilรญbrios e expectativas que nรฃo foram acauteladas.
Um lรช o lugar como continuidade do que foi construรญdo; o outro, como exercรญcio legรญtimo do cargo que assumiu.
E quando estes dois planos nรฃo coincidem, o conflito torna-se quase inevitรกvel.
Mas inevitรกvel nรฃo รฉ o mesmo que interminรกvel.
Talvez ainda vรก a tempo de prevalecer o bom senso sobre o ruรญdo, a contenรงรฃo sobre o impulso e a responsabilidade sobre a vaidade. Nenhum estatuto se dignifica no desgaste pรบblico, nenhuma causa se fortalece na troca de acusaรงรตes, e nenhuma comunidade ganha quando os seus acabam por se consumir uns aos outros.
Hรก momentos em que insistir deixa de ser firmeza e passa apenas a prolongar o erro. E hรก silรชncios, recuos e conversas francas que valem mais do que muitas proclamaรงรตes.
Hรก guerras que mobilizam. Outras apenas desgastam.
Hรก conflitos que pertencem a quem os vive. E hรก outros que, mesmo quando expostos, pouco acrescentam ao que verdadeiramente importa ร nossa terra.
E depois hรก aquelas que, vistas com alguma distรขncia, nunca chegaram verdadeiramente a ser nossas โ embora, de ambos os lados, haja sempre quem procure recrutar participantes.
Nessas, talvez a maior prova de maturidade nรฃo seja escolher um lado.
ร, simplesmente, nรฃo entrar. E, quando jรก se entrou, saber sair a tempo.












