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      InícioEntrevista“Macau não consegue acompanhar o ritmo da evolução do mundo”  

      “Macau não consegue acompanhar o ritmo da evolução do mundo”  

       

      Desactualizado, desorganizado, acomodado, demasiado brando, e demasiado dependente do dinheiro: esta é a forma como o activista Joe Chan descreve o comportamento das autoridades de Macau quanto às questões ambientais. Em entrevista ao PONTO FINAL, o apaixonado pela protecção das zonas verdes e espécies nativas do território falou sobre os temas-chave da problemática ecológica, e mais especificamente sobre todos os tipos de lixo que Macau produz, e que o Governo não sabe gerir de forma correcta, por mais que se esforce.

      Foi no 1930 Dream Corner, um pequeno espaço associativo na encosta da Fortaleza do Monte, que Joe Chan recebeu o PONTO FINAL. Na parede, um mapa-mundo com uma citação de Platão: “A mais elevada forma de lazer, era de ficar quieto e receptivo ao mundo”. Um modo de pensar, se levarmos em conta as opiniões do responsável da Green Students Union, que é diametralmente oposto ao das autoridades de Macau. Desde iniciativas de sustentabilidade mal implementadas, sem estrutura e visão, à incapacidade de estar a par das novas tendências mundiais no campo da protecção ambiental e redução de lixo urbano, para Joe Chan, o Governo da RAEM não consegue dar conta do assunto. O professor universitário e de ensino secundário considera que Macau tem muito a aprender com os exemplos de países vizinhos como Singapura ou o Japão, onde se leva muito a sério a questão do lixo e desperdício, com pesadas coimas e taxas pelo serviço prestado. Para Joe Chan, o Governo dá tudo de mão beijada, e é por isso que as mentalidades não mudam, porque se o Governo paga, “é para gastar”. Mas como o activista relembra, em Macau a factura da corrida ao crescimento económico sem desenvolvimento sustentável vai um dia sair-nos cara, quando já não tivermos fauna e flora, e perdermos com ela a nossa identidade autóctone.

       

      É vegetariano? Pergunto-lhe isto porque é uma das tendências das pessoas preocupadas por questões ambientais, já que a produção de carne e peixe são das indústrias mais poluidoras, e há muitas pessoas a tentarem alterar estes hábitos alimentares para proteger o meio ambiente.

      Não, mas sou “flexitarian”. Tento reduzir o consumo de carne, especialmente carne vermelha. Como peixe, carnes brancas, mas tento fazê-lo de uma forma mais reduzida, por questões ambientais, mas também, claro, por questões de saúde. Há muito que se sabe, e que estudos científicos provaram, que a redução do consumo de carne traz muitos benefícios para o sistema cardíaco e prevenção de doenças. O Governo devia ter mais educação sobre um estilo de vida sustentável, em Macau não há nada que se pareça com isto, ainda estamos no nível primário deste tipo de educação. Eu autointitulo-me de “Educador Ambientalista”? Tento estabelecer uma ligação entre o ambiente e os seres humanos, e uma das formas de o fazer é através daquilo que ensino durante as aulas, algo que não é habitualmente feito em Macau. A sociedade de Macau não funciona com essa mentalidade, apenas promovem o consumo. ‘Consumir mais, comprar mais! Quando as coisas ficam velhas, deita fora e compra novas! Faz a economia desenvolver-se ainda mais!’ Estes são os valores essenciais da sociedade, e não são os mesmos que os meus.

       

      E o que ensina então aos seus alunos?

      Por vezes não é fácil, eu sou professor de ensino secundário a tempo inteiro, ensino ciências naturais e biologia no Colégio Anglicano de Macau, e também sou professor a tempo parcial na universidade em que ensino sustentabilidade e coisas relacionadas com justiça ambiental, na Universidade da Cidade de Macau. Tento da melhor forma que posso colocar-me em vários pontos, e educar. Se queremos mesmo que a cidade seja mais sustentável, acho que o Governo devia ter um papel mais activo. Macau é uma cidade internacional, mas a meu ver não consegue acompanhar o ritmo da evolução do mundo. O mundo inteiro já mudou, as mentalidades já mudaram, mas nós ainda estamos muito acomodados.

       

      Acomodados em que sentido?

      Por exemplo, todas as pessoas já estão a falar em reduzir, mas nós ainda só falamos de reciclar. Reciclar sim, concordo, é algo que deve fazer parte do nosso estilo de vida, mas primeiro é necessário tentar explicar às pessoas que devem tentar usar menos coisas. Reduzir o consumo desnecessário de água, por exemplo. Cá em Macau há subsídios do Governo nas nossas facturas mensais de água e electricidade. É bom, mas apenas se for mesmo necessário, para quem precisa e pediu esses apoios, não deveria ser dado a toda a população. Porque as pessoas pensam ‘ah, o Governo paga? Então vamos gastar’. Assim como o lixo urbano. Há anos que é o Governo de Macau que paga a conta. Quando deitamos coisas fora, não interessa se é muito ou pouco, Governo ajuda a limpar. Estas coisas são gratuitas? Não, o Governo paga por elas, paga à incineradora, aos funcionários, os transportes, as máquinas, e o ambiente, também se paga um preço por isso. Portanto, as pessoas não têm essa preocupação, nem essa noção, apenas usam e deitam fora. Em Hong Kong estão a começar a considerar penalizar quem produz mais lixo. Este tipo de ideias não chega a Macau.

       

      E em Macau considera importante haver este tipo de regulação e penalizações?

      Sim, tem de se legislar este tipo de problema. No futuro, o Japão, Singapura, todos os países asiáticos vão ter de pensar em como se livrar do lixo doméstico, e uma das formas é de taxar o lixo. Temos de partilhar os custos, e não deixar tudo para que seja o Governo e a natureza a pagar por isso. Deve ser a responsabilidade e dever de cada cidadão.

       

      E a questão da redução, como acha que se está a proceder em Macau em relação a estas iniciativas? 

      Hoje em dia há tanta gente a viver pouco tempo em Macau. Quando se vão embora, têm tantos móveis, electrodomésticos. Poderiam doar, talvez pudéssemos ter um lugar onde se pudesse trocar estas coisas por outras, passar este objectos para quem precisa, mas o Governo não tem este tipo de visão, para que seja mais fácil haver este tipo de iniciativas. Noutros países há feiras de segunda mão uma vez por mês, aqui apenas existe uma possibilidade: deitar tudo para o lixo. Isto torna-se um fardo para as autoridades, que têm de se livrar do lixo, e um fardo de desperdício de recursos humanos. Estamos a falar de objectos praticamente novos, a funcionar bem, mas estes tipos de serviços, de reparação de móveis, de mercado de segunda mão, não existem, e os que existem ali para os lados do Cinema Alegria, são todos ilegais. Porque não criar um espaço, uma forma mais sistematizada, disto tudo? O Governo poderia fazer muito melhor, como por exemplo fez, há que o admitir, com a reciclagem de computadores e aparelhos eléctricos. A DSPA há cinco anos que lançou um programa de colheita deste tipo de equipamentos, arranjando-os e doando-os a ONG que precisem. Aqui está um exemplo, mas que mesmo assim, ainda está dependente dos dinheiros públicos. Eles deviam arranjar forma de criar um sistema que se autofinanciasse. O Governo não vai ter dinheiro para sempre. Não sou apenas professor, sou membro activo da nossa ONG e estamos a abrir uma companhia que tenta ajudar as pessoas que fazem reciclagem de papel. Há tantos recursos de papel, dos supermercados, lojas, etc, e existem pessoas que andam pelas ruas a apanhar de forma ilegal essas caixas de cartão, com aqueles carrinhos de mão, vemo-las a carregar o papel, por vezes até bloqueiam as estradas. Não podemos fazer com que as coisas sejam feitas de uma forma mais legislada, mais eficiente? Então, com os meus colegas da ONG, tentámos formar uma empresa, dar educação, e juntar este tipo de trabalhadores e dar-lhes condições, para que toda essa circulação seja mais fluída. No futuro, se esta companhia for bem-sucedida, isto pode ser um modelo para outro tipo de economia paralela. Não há só o entretenimento, o jogo, nós também podemos ser autossustentáveis. Eu sei que Macau tem limitação de espaço, e não podemos reciclar tudo sozinhos, mas pelo menos, quanto ao passo primário de empacotar, organizar e enviar para o interior da China, pelo menos quanto a isso podemos fazer o nosso melhor, para evitar que material passível de ser reciclado acabe por ir parar à incineradora.

       

      Há muita polémica em torno da reciclagem, com suspeitas da ineficiência do sistema. Há quem, por um lado, não acredite que a reciclagem sirva para alguma coisa, pelo custo que implica, e por outro, há rumores de que em Macau, a maior parte do lixo que é depositado nos contentores não é sequer passível de ser reciclado, por estar sujo ou mal seleccionado. Qual a sua opinião sobre este assunto?

      A DSPA tem feito alguns esforços, da colheita que o departamento faz, há bons resultados, porque consegue controlar e limpar e organizar bem o plástico recebido, mas quanto à colheita na rua, posso dizer que apenas 10% dela é verdadeiramente reciclável. Tanto lixo está contaminado, portanto, qual é o sentido da iniciativa, é apenas para decoração? Para os turistas verem? Devia haver mais legislação, para que as pessoas a façam bem, e se não o fizerem deviam ser multadas. Como em Singapura, em que há um controlo e regulamentação muito apertada. Em Macau, há mais de 20 anos que fazemos reciclagem, a reciclagem de três cores, e nada melhorou. Foi por isso que nos últimos cinco anos a DSPA começou ela própria a fazer a limpeza do lixo. Porque não começar a taxar ou beneficiar as pessoas que fazem reciclagem? Como no Japão ou Coreia, estão todos a começar a fazê-lo, a taxar quem não faz reciclagem. Mas antes de mais tem de haver mais educação, a reciclar de forma limpa. Pode-se tentar educar, mas estou convicto que se nos próximos anos, começarmos a dizer às populações que vão ter de começar a pagar pelo lixo que deitam fora, a mentalidade delas muda logo. Por vezes, se queremos alterar o comportamento das pessoas, é preciso persuadi-las.

       

      Assim como o caso dos sacos de plástico, de aplicar o custo de 1 pataca, acha que foi suficientemente persuasivo?

      Acho que sim, até agora o consumo de plástico desceu bastante, aliás, aí está outro exemplo de algo que o Governo fez bem, ao banir o plástico de uso único. Hong Kong também está a legislar a situação, não baniram a importação, mas baniram o uso em todos os restaurantes. Temos de fazer isto todos juntos porque a poluição de plástico está a tornar-se um problema sério em todo o lado. Fazemos limpeza costeira todas as semanas, e por mais que tentemos, o lixo plástico continua a vir. O Governo quer construir uma sociedade sustentável, mas não passa à acção, são tudo palavras. Se queremos passar à acção, e apresentar resultados, é preciso coisas concretas. Por exemplo, o lixo electrónico e as pilhas. A DSPA começou uma campanha que partiu de um bom princípio. Durante tantos anos pedimos às autoridades para não ignorar este problema. Macau é uma cidade tão moderna, com tanta gente com equipamentos electrónicos, e o lítio de bateria, que é tão poluidor, se não for bem reciclado, é tóxico para o ambiente. É muito bom o Governo ter lançado este programa, mas agora o contrato está quase a terminar. Há uma avaliação feita? Qual é a taxa de sucesso? Quanto desde lixo electrónico conseguiu ser reciclado com sucesso nos locais onde foi desmantelado? Porque não é em Macau que o fazemos, acho que é no Japão. Não há muita transparência e muita informação sobre estes procedimentos, e eles estão a usar fundos do Governo, mas será que está a funcionar? Até agora não sabemos. Noutros países há regulação destes produtos. Por exemplo, se és uma operadora de telemóveis, tens de ter o teu próprio programa de reciclagem de baterias, mas em Macau o Governo permite tudo. Isto não é uma solução a longo prazo.

       

      E qual é a sua opinião sobre os carros eléctricos?

      Macau é uma cidade tão pequena, acho que o uso de carros eléctricos é uma forma eficiente de melhorar a qualidade do ar. Porque Macau é tão denso, temos a maior densidade de veículos e densidade de população do mundo, portanto, se usarmos todos carros com combustível tradicional, é tanto fumo expelido. Os veículos eléctricos são uma das soluções, mas não podemos esperar que os carros eléctricos resolvam todos os problemas. A questão das baterias é que se não se conseguir reciclar bem, tornam-se numa segunda fonte de poluição, por isso é que, a meu ver, os veículos públicos, os autocarros, os ‘shuttle bus’ de turismo, deviam ser todos substituídos por veículos eléctricos. Quanto aos carros de uso pessoal, não é a solução ideal. O mais importante é incentivar as pessoas a usarem mais os transportes públicos, ou a fazer mais zonas pedonais, em que seja mais fácil circular a pé pela cidade.

       

      Acha que o planeamento urbano em Macau é de fraca qualidade?

      Isto nem é uma questão. Macau não é ‘user friendly’! Quando saio do meu escritório, não há um passeio, posso ser logo atropelado por um carro, não há qualquer planeamento urbano! Bem sei que não é só uma questão do Governo actual, porque Macau foi colonizado pelos portugueses durante tantos anos, mas agora, quando se está a planear uma nova zona, não se deveria fazer um plano mais adequado?

       

      Como vê então o desenvolvimento de Macau daqui a 10 anos, será que a cidade vai ficar mais verde e sustentável?

      Vemos que nos últimos anos há mais plataformas electrónicas, e isto é uma boa forma de reduzir o consumo de papel, e acho que no futuro vamos sem dúvida recorrer mais ao ‘big data’ para monitorizar as questões ambientais, como, por exemplo, a questão das árvores, das zonas verdes. Se ler último o relatório da DSPA podemos ver que as zonas verdes estão a diminuir. Se calhar é porque há mais zonas urbanas, ou é consequência da reflorestação em Coloane, que está lenta, mas o ponto que eu queria fazer é que quando falarmos de zonas verdes, não importa pensar só na área, temos de pensar na função. A função ecológica de uma zona verde. Se estamos a criar uma zona, ela vai aumentar a biodiversidade? Imagine a praça do Tap Seac, é contabilizada como zona verde, quando ela apenas tem umas plantas lá em cima, mas não tem qualquer função ecológica. Portanto, na minha perspectiva, se queremos uma cidade verdadeiramente mais verde, podemos usar estes novos sistemas tecnológicos para monitorizar os pássaros, por exemplo. Os famosos pássaros, os colhereiros-de-cara-preta: descobriu-se que o número desta espécie em vias de extinção está a aumentar mundialmente, mas em Macau não houve qualquer aumento, o que a nosso ver mostra que aquelas zonas estão cada vez mais afectadas pela poluição visual. Daqui a 10 anos devíamos ter um maior controlo da poluição de luz, e não vejo o Governo a planear ou pensar nestas coisas. Com a nossa ONG estamos de momento num processo de petição para o nosso Chefe do Executivo, e responderam-nos da DSPA, garantindo que iam falar com as empresas para apenas usar certas luzes ao fim de semana, o que é um progresso. Fomos ouvidos, mas no futuro o Governo tem de ter um papel mais activo. Os cidadãos de Macau deram aos governantes o direito de gerir todos os recursos, não deveria depender da decisão de empresas. O céu pertence a todos. Aqueles feixes de luzes, sabe? Há cada vez mais em hotéis e casinos, que os usam como forma de publicidade. Com tantos no céu, é claro que os pássaros não querem vir migrar para as suas zonas de nidificação. Uma previsão para os próximos anos em Macau? Haverá cada vez menos espécies nativas, e alguns destes pássaros em vias de extinção provavelmente irão desaparecer do território. Macau será apenas uma cidade de casinos, sem zonas verdes. O Governo vai continuar a tentar convencer-nos a ir relaxar para as zonas naturais da Grande Baía, vamos poder ir para lá de carro todos os fins de semana, e vão nos dizer que aqui já não há zonas verdes, que aqui é o sítio para fazer dinheiro.

       

      E não concorda com isso?

      É claro que não concordo! Devemos ter os nossos recursos naturais, o nosso património natural, que é único. Macau tem uma combinação de elementos tão únicos. Já viajei muito, mas nunca vi um sítio que combine zonas de pantanal e terras húmidas com casinos. Porque não encontrar um equilibro? Não estamos a impedir ninguém que ganhar dinheiro, apenas queremos que haja alguma protecção da natureza. Qual é a necessidade de usar e destruir todos os recursos? Tem de haver mais equilíbrio. Sem zonas verdes não estás a viver, estás a sobreviver, porque não tens qualidade de vida. Qual é o sentido de viver, se apenas podes ir a um sítio relaxante no interior da China? É triste, e é pena, porque Macau tem elementos que são únicos, e não se podem encontrar na China, por isso temos de preservá-los. Especialmente Coloane, que é um dos meus focos, e é o único local onde posso levar os meus alunos e os meus filhos. É o único local com espécies nativas, embora elas estejam a diminuir. Continuo positivo, e com esperança que o Governo consiga o seu desenvolvimento económico, mas sem deteriorar mais o ambiente. Estes são os recursos das gerações vindouras.