Para o Observatório da China em Portugal, a lusofonia é fundamental para o país europeu e, como tal, Macau tem um papel importante de ponte, sobretudo para as pequenas e médias empresas. Em entrevista ao PONTO FINAL, o dirigente deste organismo, Rui Lourido, afirma ainda que o Fórum Macau pode fazer mais, ajudando as empresas na apresentação das suas candidaturas, evitando que tantos projectos fiquem pelo caminho.
A missão do Observatório da China, em Portugal, é combater a desinformação. Está a ser cumprido?
A missão é trazer conhecimento sobre a civilização chinesa à Europa.
Desde 2005, ano de fundação do Observatório, até agora, a perspectiva em Portugal relativamente à China tem mudado?
A perspectiva da Europa, e naturalmente de Portugal, está muito ligada à geopolítica, aos interesses que cada país tem. Os interesses de Portugal relativamente à China são diferentes dos interesses da Europa — do ponto de vista dos interesses da economia portuguesa, não são os interesses que a União Europeia tem, que está mais dominada por uma visão russofóbica, sinofóbica, eurocêntrica, e recusa reconhecer que, hoje em dia, o mundo mudou. E mudou radicalmente, porque deixou de haver uma única potência a ditar as regras, conseguindo dominar com a sua perspectiva o resto do mundo. Temos de ter a noção de que a Ásia e a China, em particular, é uma civilização com 5000 anos de existência, ao nível da História. Na pré-História muito anterior, duas grandes civilizações formataram o nosso mundo — a Suméria (Iraque) e a China. André Gunder Frank, um grande economista canadiano-americano, dizia que, se a economia-mundo, do século I até ao século XIX, pudesse ser comparada a um comboio, a carruagem da frente seria a China, a segunda seria a Índia e, no final de uma infinidade de carruagens, viria a economia europeia, que, na altura, não tinha projeção. Até ao século XIX foi possível a China ter um papel central, ainda que, do século XVI para a frente, aos europeus, devido à capacidade de navegação, fosse permitido começar a construir a narrativa do domínio europeu e da descoberta dos outros — seria melhor dizer do encontro dos outros, porque os outros já existiam nos seus territórios. A Europa, por exemplo, com os holandeses — substituindo o domínio português nesses mares — e a Inglaterra consegue, ao produzir o ópio na Índia, vender clandestinamente, porque era proibido vender ópio na China que não fosse do ponto de vista medicinal. Descobriram que, vendendo o ópio, criava dependência e a dependência criava clientes fiéis. Se os navios que vinham da China chegassem em condições à Europa, os lucros eram de 100 ou 200 por cento e, portanto, havia uma grande capacidade de entesouramento. Em Inglaterra, ao descobrir que trocar os produtos que lhe interessa comprar, que é a seda, as porcelanas e todos os outros, por ópio, deixa de pagar em prata e isso cria um entesouramento imenso e é esse entesouramento que vai impulsionar a revolução industrial na Europa, na Inglaterra, e essa revolução industrial vai permitir criar a máquina a vapor e, com a máquina a vapor dentro dos navios, conseguem obrigar a China a consumir uma droga que era proibida e, inclusivamente, impunha uma guerra. A China é dividida pelos impérios da altura: o britânico, a Prússia, os Estados Unidos e a França têm territórios dentro da China e esse desmembramento leva a perder essa capacidade de influenciar o mundo, como até aí. A Europa passa, durante 150 anos, a dominar. Mas, desde a implantação da República Popular da China, a China consegue até hoje ter um desenvolvimento económico de recuperação que leva à atual situação. Por isso, os interesses portugueses são diferentes dos europeus, porque temos Macau e Macau é fundamental para Portugal, para os países lusófonos.
Macau é fundamental para Portugal?
Na perspectiva do Observatório da China, a lusofonia é fundamental e Portugal deve privilegiar as suas relações com os países lusófonos e, essencialmente, com o Brasil, Angola e Moçambique, os pontas-de-lança da lusofonia no mundo. Angola será, em 20 ou 30 anos, o principal país de língua lusófona, porque ultrapassará o próprio Brasil e a população com 18 anos é incomensurável, Moçambique o mesmo. A população jovem vai promover estes países e estes países têm a consciência de que têm muito a ganhar com a China, de forma que têm, pela primeira vez, infraestruturas que não tiveram com os 500 anos de colonização portuguesa. A nossa indústria e o tecido comercial em Portugal são essencialmente pequenas e médias empresas e estas empresas têm todo o benefício em comerciar com grandes mercados, como os mercados lusófonos, mas também os chineses.
O território continua a desempenhar este papel de ligação entre a China e os países lusófonos?
Naturalmente que as grandes empresas não necessitam de Macau para negociar, vão directamente a Pequim. As médias e pequenas empresas têm em Macau um ponto fundamental para a sua penetração na China, porque têm o mesmo corpo jurídico: o português. A identidade de Macau é uma identidade que tem a ver com a identidade lusa, portuguesa, porque isso faz de Macau um ponto muito mais importante para a China. O Fórum Macau foi criado especificamente para Macau, para que Macau continuasse a ter esse ponto de identidade que necessita de reforçar. Macau é um território com um quinto da população mundial e tem de dar contas à sua própria população. Não pode oferecer dinheiro aos outros países, como se fosse um país sem necessidades no interior. Mas, negociando nesta perspectiva de ‘win-win’, Macau conseguiu aproveitar fundos que incentivam as empresas com responsabilidade, ou seja, que têm capacidade de desenvolver os projectos. O Fórum Macau foi muito importante para Macau, para a sua administração interna, para a população de Macau e para os portugueses que agora estão outra vez em maior número do que após a devolução de Macau à mãe-pátria. Há, porém, outra coisa inteligente do Governo chinês para privilegiar Macau. Inglaterra deixou em Hong Kong uma série de alçapões/armadilhas para a administração chinesa de Hong Kong — os currículos de Hong Kong eram decididos exclusivamente pelas universidades de administrações britânicas e não tinham nada a ver com a história da China. Pelo contrário, Macau teve a inteligência de aceitar gradualmente que as escolas de Macau e as escolas portuguesas tivessem também história da China. Ao longo dos anos, o Governo Central oferece a Macau a possibilidade de desenvolver sectores que nunca tinha tido, dá-lhe a possibilidade de utilizar a Ilha de Montanha, a possibilidade de fazer um túnel debaixo do mar para chegar directamente à população que é de origem portuguesa ou que é chinesa de Macau, sem passaporte, mas dá mais. Criou a ilha de Hengqin e toda aquela área de Zhuhai tem a possibilidade de investimento directo europeu, por Macau. Hengqin é a possibilidade de Macau ser autónomo do jogo. Para Portugal, as empresas têm interesse: temos empresas farmacêuticas portuguesas em Macau, que têm interesse em entrar na China para comerciar.
Ao longo dos anos, o Fórum Macau tem sofrido algumas críticas por ter um papel pouco activo. São fundamentadas?
Sim e não. O Fórum Macau é uma instituição ainda jovem e é uma experiência de um território que é uma região administrativa e o fundo é chinês. O próprio Fórum Macau é uma instituição chinesa sediada em Macau para privilegiar Macau e tem um secretário executivo permanente que é da administração macaense. A capacidade económica dos países de língua portuguesa é realmente reduzida e o seu nível de endividamento é imenso e, se queremos fazer ‘win-win’, tem de haver uma contrapartida do investimento chinês e os projectos têm de ser sustentáveis. Em Portugal, temos uma ótima instituição de pequenos e médios comerciantes dirigida por Y Ping Chow, a Câmara de Comércio Portugal-China PME, que leva delegações a muitas províncias, e temos a Câmara de Comércio e Indústria Luso-Chinesa, que é extremamente ativa. Hengqin dá possibilidades ao nosso tecido industrial bastantes grandes. O Fórum tem estas dificuldades e os próprios países têm delegados no Fórum Macau, mas poderá ter um desenvolvimento muito mais acentuado e terá obrigação de o ter. É preciso, porém, criarem-se as estruturas dentro do próprio Fórum, que ajudem os países. É tão complexo e burocrático, que leva tanto tempo a organizar os projectos para serem submetidos, e são aprovados só os que têm esta capacidade de concretização no terreno de investimento chinês, mas podem ser mais rápidos e mais vastos.

De que forma?
O Fórum recebe “n” demandas dos países de língua portuguesa e de muitas empresas. Deveria apoiar essas empresas a construir a candidatura, para passar.
De tudo o que acabou de dizer, retira que, ainda que os resultados sejam bastante favoráveis, a perceção portuguesa em relação à China continua a não ser a mais positiva?
Não é só não ser percebida, isso é um facto. Mas há o Congresso americano, que aprova em 2023 milhões de dólares norte-americanos só para propaganda sobre a China. Isso é alimentar toda a máquina de desinformação sobre a China. Se há alguma coisa sobre a China, os média europeus alimentam uma máquina de propaganda. Por exemplo, a Europa não permitiu que a China entrasse no complexo aeroespacial europeu para a estação espacial internacional, porque os Estados Unidos disseram que não, e a China desenvolveu a sua. Hoje é a China que tem a estação mais desenvolvida que a nossa e nós estamos a enviar europeus para terem conhecimento do que se passa lá e para desenvolver experiências lá — europeus e de todo o mundo.
Mas há questões, como os direitos humanos, que opõem tradicionalmente o Ocidente à China. São pontos contornáveis?
São, porque tudo depende das elites. Quando a juventude, que está nas universidades, chegar ao poder ou aqueles que estão nos actuais partidos, mas com outra visão, perceberem que ninguém consegue ter serviços sociais se não tiver impostos — se o Estado não for rico. O nosso avanço económico depende do maior relacionamento económico de Portugal com o Brasil, com a China, com a Índia, com a Rússia, com os Estados Unidos, mas não podemos estar, como a Alemanha está, a prejudicar a economia, em que reduziu imenso a capacidade de exportar os seus veículos automóveis para a China e, portanto, decaiu.
Considerando o contexto internacional de guerras e conflitos, a China tem sido um elemento neutro. Está a tentar redesenhar o seu papel, dentro do relacionamento internacional?
A China não vai interferir militarmente em nenhum país, não é essa a sua missão. Os Governos mudam e a China quer ter relações pacíficas com todo o mundo, mas tem poder e só terá poder se tiver um exército que demonstre capacidade para impor respeito, porque, se não, inventam-se pretextos: ou porque não é uma democracia ou tem armas nucleares.
A China não vai pôr o exército contra Israel e o que está a fazer em Gaza. Não lhe compete, não é a sua missão. Compete-lhe pressionar e dizer que esta não é a forma. A China, demonstrando aos seus aliados que tem capacidade nuclear, que tem capacidade efectiva do seu exército, da sua marinha e da sua força aérea, dá confiança aos seus parceiros para serem mais exigentes na diplomacia internacional, ou seja, não aceitarem que um país se imponha aos outros, como tem acontecido com os Estados Unidos, com Israel em relação à Palestina e a todo o mundo árabe. Esta guerra de genocídio de Israel tem sido fortemente criticada pela China. Da Ucrânia, a opção de invasão da Ucrânia não é apoiada pela China, mas reconhece que a segurança de um país não pode ser feita à custa da segurança de outro país. Estes princípios permitem um ambiente internacional mais saudável.
Há toda uma narrativa europeia que é anti-chinesa, mas há também uma narrativa de universidades e de institutos que é favorável à perspectiva chinesa de um mundo multipolar.












