A Fundação Rui Cunha acolhe esta tarde uma mesa-redonda dedicada à “Gastronomia Macaense e os Desafios da sua Divulgação”. O evento, parte do ciclo de conferências “Ser Macaense no Século XXI”, reunirá quatro chefes emblemáticas da culinária local para discutir o futuro deste património intangível, considerado a primeira cozinha de fusão global.
A Fundação Rui Cunha promove hoje, pelas 18h30, mais uma sessão do ciclo de conferências “Ser Macaense no Século XXI – Cultura, Tradição, Identidade, Desafios”. A terceira mesa-redonda, intitulada “Gastronomia Macaense e os Desafios da sua Divulgação”, será conduzida por José Luís de Sales Marques, presidente do Conselho das Comunidades Macaenses, e contará com a presença de quatro chefes de renome na culinária tradicional de Macau. O debate parte do reconhecimento de que, apesar de ser um “marco singular da identidade Macaense” e património intangível, a cozinha local enfrenta ainda uma “grande distância entre o reconhecimento e a sua divulgação, tornando-a acessível ao grande público”.
O evento enquadra-se num esforço mais amplo de reflectir sobre o modo de vida e os desafios diários da comunidade macaense, tanto em Macau como na diáspora, para manter viva a sua identidade e sentir as culturas portuguesa e chinesa. A organização sublinha que a gastronomia macaense, reconhecida como a primeira cozinha de fusão do mundo, prestou um contributo significativo para a classificação de Macau como Cidade Criativa da Gastronomia pela UNESCO em 2017. A sessão pretende, assim, ser um espaço para uma discussão construtiva que olhe para o presente e o futuro, sem esquecer a tradição e os marcos identitários diferenciadores da comunidade.
Entre as quatro figuras presentes no debate de hoje encontra-se a chef Antonieta Manhão, mais conhecida por Neta, que é professora de culinária macaense na Universidade de Turismo de Macau e membro da Confraria de Gastronomia Macaense. Com um percurso marcado pela vontade de levar a cozinha local “aos quatro cantos do mundo”, Neta desenvolve um trabalho de resgate e ensino de receitas tradicionais, muitas delas transmitidas oralmente. A sua missão centra-se em ensinar pratos que possam ser reproduzidos em casa com ingredientes locais, defendendo a autenticidade num cenário onde, na sua opinião, muitos restaurantes adaptam os sabores ao gosto dos clientes, afastando-se da receita original.
A mesa-redonda contará também com Florita Morais Alves, a força por trás do icónico restaurante La Famiglia, na Taipa. Considerada a “grande dama da cozinha macaense”, Alves é uma embaixadora da gastronomia local, tendo sido distinguida com o prémio de “Melhor Chef Europeia” pelo CEUCO. A sua abordagem defende a integridade histórica dos pratos, recusando a confusão comum entre a culinária portuguesa e a macaense. Para ela, a culinária macaense é “provavelmente a primeira” cozinha de fusão, resultado de séculos de influências globais que vão da Europa à Ásia. Através do La Famiglia, premiado como um dos “Essence of Asia 2021”, partilha pratos essenciais como o minchi, o porco balichão tamarindo e o bafassá.
Outra convidada é Marina Senna Fernandes, responsável pela cantina da Associação dos Macaenses (ADM). Desde 2019, dedica-se a um projecto missionário de resgatar pratos e sabores macaenses que “há muito sucumbiram à voragem do tempo”. Organiza workshops focados em receitas antigas que muito poucas pessoas confeccionam hoje, argumentando que a gastronomia macaense “não se resume ao minchi, ao tacho e à capela”. O seu trabalho tem despertado um interesse crescente, inclusive junto da comunidade chinesa local, o que a leva a acreditar que a cozinha “não vai morrer”. Marina contribuiu ainda como consultora para obras de referência sobre a cozinha de Macau e ministra formações no Instituto de Formação Turística (IFT).
Completando o painel estará Sónia Palmer, co-fundadora do grupo de teatro em patuá Dóci Papiaçám di Macau e guardiã do legado culinário da sua mãe, Aida de Jesus. O envolvimento de Palmer com a cultura macaense é profundo e multifacetado, passando pela preservação da língua de origem crioula e pela promoção da gastronomia familiar. A sua mãe foi a fundadora do lendário restaurante Riquexó, que ajudou a tirar a culinária macaense da esfera doméstica, e a sua filosofia é de total partilha. “Sou uma pessoa que, se me pedem as receitas, eu partilho. O que quero é que a comida macaense continue”, afirmou recentemente à Revista Macau. Esta missão de continuidade levou à abertura, por parte da sua família, do Cozinha Aida.
O evento, de entrada livre, tem como objectivo principal uma “discussão construtiva a olhar para o presente e o futuro”, focando-se em dois pilares da identidade macaense que são também património intangível: a gastronomia e o teatro em patuá. A sessão realizar-se-á em português.













