Quem escreve em Macau diz que há poucas editoras profissionais a publicar no território e a dimensão do mercado não permite que se viva apenas dessa arte. Ainda assim, há autores na cidade e o PONTO FINAL foi conhecer alguns deles.
“Somos mais livres em Macau para escrever”, diz a poeta Un Sio San. Apontada como um dos nomes de referência entre os escritores do território, a autora aponta que, porque o mercado não é competitivo, as pessoas sentem-se mais à vontade para escrever. Outros escritores, como Joe Tang e Lawrence Lei, discordam e referem que poderia haver muito mais nomes, se houvesse mais editoras e o território fosse, naturalmente, maior. Já Li Yi, uma autora emergente com trabalhos publicados, afirma que, neste momento, não é só aqui que o negócio se encontra mal: também em Taiwan e na China Continental a vida não está fácil para aqueles que querem escrever.
Mas comecemos pelos mais jovens. Nasceu em Macau e começou a escrever ainda em criança. “Quando estava no ensino básico, a nossa professora de chinês pediu que, durante as férias do Verão, escrevêssemos todas as semanas um artigo sobre qualquer coisa: comida, casa ou viagens”, recorda Li Yi. Começou, assim, a preparar contos de ficção científica, numas férias de Verão. “A minha mãe mostrou a uma amiga e acabei por ter o conto publicado no jornal Macau Daily News”, acrescenta, esclarecendo que tinha 15 anos.
Após completar o ensino superior em Xangai, regressou a Macau e começou então a escrever sobre a cidade moderna e as mulheres. “Ficou mais sério do que antes”, diz. Conseguiu que os trabalhos fossem publicados no território, mas também em Hong Kong, numa revista. “Foi a primeira vez que descobri que podia esforçar-me mais por escrever e não ser apenas um passatempo”, revela, esclarecendo que “poderia usar para se expressar e para fazer algo mais criativo e profissional”.
No início, escrevia sobre temas menos ligados à sua cidade de origem, mas, posteriormente, começou a focar-se mais no território. “É uma cidade pequena, mas com tanto para escrever”, refere.
Já publicou dois livros de contos — em Taiwan e na China Continental — e um romance, o último dos quais, intitulado “Rising Island”, foi vencedor do Prémio Literário de Macau e, por isso, publicado no território. “É uma história sobre mulheres a viver em Macau: a pandemia acabou e as pessoas voltaram a ter novas vidas, mas a minha personagem principal descobre que a sua vida é um beco sem saída”, conta.
Sem editoras no território
A publicação de livros em Macau costuma funcionar de maneira diferente. “Em Macau, há muitos autores a pagar pela publicação do seu livro e depois enviam para amigos e família”, diz a jovem escritora. Prestes a voltar aos estudos e a começar uma pós-graduação na Universidade Normal de Pequim, em Escrita Criativa, a escritora de 32 anos diz que não é fácil trabalhar profissionalmente na área em Macau. “Na realidade, não é fácil em lado nenhum do mundo”, continua Li Yi. No território, acrescem algumas dificuldades, como a dimensão pequena do mercado e a ausência de editoras profissionais. “Em Macau, os escritores mais velhos têm outros trabalhos, porque precisam de se sustentar, têm crianças, são casados”, revela. Actualmente, está a acabar um conto sobre inteligência artificial (IA). “Streaming é muito popular na China Continental e os streamers costumam comer muita comida e comer demais é um problema mental”, diz, desvendando um pouco do véu por detrás da sua história. “A minha personagem é uma rapariga que tem um distúrbio alimentar e quer arranjar um trabalho como streamer, mas, para isso, precisa de recorrer à IA para criar uma imagem igual a si”, conta.
Quanto a um potencial romance, a autora diz que tem uma ideia ainda por explorar. “Quero escrever algo sobre a década de 90 em Macau, antes de eu nascer”, declara.
Sobre se algum dos seus trabalhos está traduzido para português ou inglês, a escritora afirma ser muito difícil. Aliás, diz, em Macau é muito difícil publicar, como já se sabe, também os mercados da China Continental e de Taiwan estão “fracos” neste momento, existindo agora menos oportunidades do que dantes.
Ficção científica em Macau
Joe Tang também gosta de escrever sobre ficção científica. O autor, bem conhecido em Macau, está agora a colaborar com uma editora da China Continental e, por isso, a escrever e publicar mais. “Estou a trabalhar num romance de ficção científica e alguns contos, mas acabei agora dois contos de ficção científica, um dos quais será incluído numa coleção com contos da China Continental, Macau, Hong Kong e Taiwan, que deverá ser publicado no próximo ano”, conta.
Mas Joe Tang tem mais projectos, que ainda não quer revelar. “Ainda não está confirmado, mas deverá ser uma colaboração com uma revista da China Continental e corresponde a um pequeno ensaio sobre ficção científica, com histórias de diferentes escritores de Macau. “A ficção científica é, atualmente, um tópico quente na China Continental, mas há pouco conhecimento sobre o território: Macau é bastante invisível para os leitores da China Continental”, destaca.
No ano passado, o escritor publicou um romance histórico, intitulado “Lost City” e venceu um prémio numa competição literária com um conto de ficção científica. “Agora estou a fazer a revisão da história e a desenvolvê-la para transformá-la num romance”, diz. Além disso, está agora a trabalhar num novo romance histórico, encontrando-se agora na fase de pesquisa. “Tenho a história, tenho o tema, mas estou a desenhar a estrutura”, esclarece.
Apesar de se tratar de um dos escritores que mais escreve no território, Joe Tang garante que continua a ter outro trabalho a tempo inteiro. “O rendimento da escrita não é suficiente”, declara. E a publicação não é assim tão fácil no território, acontecendo, sobretudo, através de competições da modalidade. “Em Macau não há muito espaço para livros grandes, é melhor fazer contos”, afirma.
Entre os seus trabalhos publicados, apenas alguns estão traduzidos para inglês, como o “Lost Spirit”, em inglês, e “O Assassino”, em português e inglês. “Eu tento, mas é difícil [traduzir]”, declara.
Para o autor, há poucos escritores no território. “Fazer um livro é fácil, porque não exige recursos, mas parece que as pessoas, hoje em dia, preferem ler online”, afirma, acrescentando: “Na China Continental, temos até o romance móvel, que se lê nos telemóveis.”
Dramaturgo e escritor de Macau
Já Lawrence Lei tem no currículo 50 anos de escrita, que incluem quatro romances publicados, em chinês, sem tradução para outras línguas, além de vários contos, alguns dos quais vertidos também para inglês e português. “Publiquei quatro livros — três são romances e um deles é uma coleção de contos”, declara, revelando que acabam por se centrar em temáticas ligadas a Macau. “Os leitores são, na maioria, residentes do território, que querem saber mais sobre Macau e é, por isso, que escrevo mais sobre isso”, acrescenta.
Mas o foco da sua escrita acaba por ser peças de teatro, área na qual está particularmente envolvido, considerando que é director de palco — e aí já viu peças ganharem vida com as suas palavras, em Macau, na China Continental, em Hong Kong e no Sudeste Asiático.
Neste momento, acabou de escrever um romance sobre a pandemia e está a trabalhar em novas peças, uma das quais deverá subir ao palco em Novembro.
No geral, diz que escrever em Macau é difícil, já que o mercado é pequeno. “Consegues publicar, mas não te sustentas com isso, é sempre preciso ter outro trabalho”, afirma. Quanto à escrita de romances, não compensa nada, já que há poucos leitores no território, mas há uma maior audiência no teatro.
Considerando as dificuldades, Lawrence deixa um conselho aos mais novos: “Sejam mais persistentes, concentrem-se em escrever e não se preocupem com dinheiro.”
E a poesia, como vai?
Natural de Macau, Un Sin San diz que acabou agora o quarto livro. “Vai ser publicado este ano e estou agora a trabalhar num livro sobre comida de Macau que talvez seja publicado no próximo ano”, declara, esclarecendo: “É uma colectânea com artigos meus, publicados em jornais de Hong Kong e Macau, sobre comida macaense, cantonense e portuguesa.”
A autora começou a escrever artigos logo quando se encontrava a frequentar o ensino secundário, mas, antes disso, aos 10 anos, já escrevia poesia. “Quando era mesmo muito nova e estava na infantil, não conhecia os caracteres chineses, mas ouvia muita música cantonense e ópera chinesa e sempre quis dizer algo: dizia as palavras e os meus irmãos ajudavam-me a escrever”, conta. Tinha algo para dizer e saía-lhe naturalmente, como respirar. Assim que cresceu um pouco, começou a ler muita poesia, de todos os géneros. “Já sabia que queria ser poeta”, revela.
Não se considera propriamente uma poeta de Macau, ainda que esteja na sua génese e em alguns dos seus trabalhos. “É a minha essência, mas Macau está presente na escrita (apenas] de forma indirecta — escrevo sobre outros locais e sentimentos”, refere. Un Sio San tem dois livros em chinês e inglês, publicados em Hong Kong, e outro, também bilingue, lançado no território, em parceria com o antigo professor da Universidade de Macau, Kit Kelen. Em mãos, tem outro livro de poesia, pronto para ser publicado até ao fim do ano em Taiwan.
Na realidade, olhando para o panorama literário, a autora garante que há muita gente a escrever no território, mesmo que não o faça profissionalmente. “Considerando que Macau tem uma população pequena, tem bastantes escritores”, refere, acrescentando: “E, por não ser um mercado competitivo, há mesmo muitos que escrevem, mesmo que não seja profissionalmente, já que é fácil ter o teu trabalho publicado.” Por exemplo, olhando para o jornal Macau Daily News, há entre 10 a 15 pessoas que lá escrevem todos os dias. Além disso, diz, esse ambiente mais amador no território garante também alguma liberdade. “Somos livres de escrever o que quisermos em Macau; é diferente em Hong Kong, Taiwan e na China Continental, em que temos uma editora a fazê-lo profissionalmente.”
Divulgar aos portugueses a cultura chinesa
Por seu turno, o médico gastroenterologista, Shee Va, é autor de diferentes livros sobre a cultura chinesa. “Tenho, pelo menos, três romances publicados e outros três, que são guias de ópera, todos escritos em português — sem tradução ainda”, revela. O primeiro, intitulado “Uma ponte para a China”, explora a cultura chinesa. “Explica como se põem os nomes em chinês, como se festeja o nascimento, o casamento, a morte, portanto, no fim das contas, a vida”, diz. Já o segundo livro, “Espíritos”, é também uma ficção. “É um casal que perde um filho e, quando quer ter o segundo, a mulher revela que, na morte do filho, viu um espírito”, conta. Por outro lado, o terceiro, intitulado “Boi cabeça cavalo cara”, tem um nome alusivo à cultura chinesa. “É uma expressão traduzida à letra, porque são os dois generais que fazem a guarda na porta do inferno e, portanto, fala sobre o inferno chinês”, diz. Mas tem mais em mãos. “Tenho dois — um, que se chama ‘Caos’, está à espera de publicação, e o outro é um livro de contos; estão os dois feitos, até já estou a escrever um terceiro, que é um romance”, afirma. Mas a publicação como é feita? “Normalmente, pede-se subsídio à Fundação Macau, mas, desde a Covid-19, não têm atribuído tantos subsídios para publicação”, responde.
Shee Va representa também a Associação Amigos do Livro de Macau, uma organização fundada nos anos 80, por iniciativa do jornalista Rogério Beltrão Coelho. “Ele tinha uma editora [Livros do Oriente] e a associação divulgava também as publicações”, revela. Com a saída do jornalista do território, Shee Va acabou por tomar conta da associação. “A ideia era também publicar livros e ainda conseguimos fazer isso com dois, mas, dada a falta de subsídios, resolvemos fazer com a associação tomasse outro caminho, associando-se ao Clube de Leitura”, diz.
“O Clube de Leitura está activo há ano e meio e estamos a fazer sessões mensais com os nossos associados, em que uma pessoa se oferece para coordenar uma sessão e, antecipadamente, revela o livro que quer falar”, conta, esclarecendo: “Começámos com autores portugueses, passámos para os brasileiros, moçambicanos e de Macau não chegámos a tanto, mas estamos a fazer este périplo de lusofonia e depois queremos também ter intervenção de autores de língua chinesa, mas será em paralelo.”
Há assim tanta gente a escrever em Macau? “São poucas as pessoas que escrevem, penso que haveria necessidade mesmo de as editoras em Macau publicarem mais”, declara, salientando ainda que a distribuição é um problema. “Circulam pouco por Macau, porque a comunidade portuguesa é pequena em Macau, mas acho que devia abranger os outros países lusófonos”, sugere. No fundo, na sua opinião, deveria haver também mais divulgação. “Por exemplo, nunca estivemos numa Feira do Livro”, diz ainda.













