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      InícioParágrafoParágrafo #82LUCA ARGEL: “DÃO-TE UM BOLO QUE É A HISTÓRIA, MAS NÃO PRECISAS...

      LUCA ARGEL: “DÃO-TE UM BOLO QUE É A HISTÓRIA, MAS NÃO PRECISAS COMÊ-LO”  

       

      Há um verso de uma canção de Caetano Veloso que diz que “os livros são objectos transcendentes”. Luca Argel, nascido no Rio de Janeiro e a viver em Portugal, no Porto, há mais de uma década, confirma esse verso, lançando mais um disco que não acaba nas canções. Sabina é o seu mais recente trabalho, um disco que é também livro de banda desenhada, uma narrativa para escutar entre canções, canções que formam uma história que importa conhecer. Conversando com o Parágrafo a partir do Brasil, onde esteve de visita por estes dias, Luca Argel conta como encontrou Sabina, a vendedora de laranjas perseguida pela polícia e apoiada pela comunidade, e como quis fazer da sua memória uma herança para contarmos agora, levando-a para o futuro.

       

      A história resume-se assim: Sabina foi uma quitandeira que vendia laranjas na rua, no Rio de Janeiro, ali pelo Verão de 1889. A monarquia já ameaçava cair quando um grupo de estudantes de medicina, republicanos convictos e clientes habituais de Sabina, usou as laranjas que comprou à quitandeira para alvejar o visconde de Ouro Preto, que se passeava pelas ruas cariocas na sua carruagem. Com o poder vexado pela chuva de citrinos, a polícia encontrou em Sabina o seu bode expiatório e proibiu a vendedora de continuar a trabalhar no posto que sempre tinha sido o seu. Em solidariedade, os estudantes convocaram uma manifestação, a que se juntaram várias outras pessoas, descontentes com o regime monárquico e com a atitude da polícia. Jovens desfilaram pelas ruas com laranjas espetadas na ponta das bengalas, num gesto de apoio a Sabina e aplaudido por muita gente que, à janela, ia dando vivas aos manifestantes. A proibição foi levantada e Sabina recuperou o seu posto. Entretanto, chegou a República.

      Como todas as histórias, o resumo não lhe faz justiça e Sabina ganhou contornos de mito entre os vendedores de rua e a gente do Rio de Janeiro. O seu nome nunca foi totalmente esquecido, mas acabou por perder-se nas memórias da cidade, acessível apenas aos garimpeiros de histórias afastadas da grande história oficial. Foi assim, nesse garimpo, que Luca Argel encontrou a quitandeira: «Descobri a história da Sabina durante as pesquisas para o Samba de Guerrilha. É uma coisa assim continuada, que não termina nunca, lendo livros sobre a história do samba e coisas relacionadas com o samba. Um dos autores que eu mais leio é um historiador aqui do Rio, chamado Luiz Antonio Simas, e ele tem um livro óptimo chamado Corpo Encantado das Ruas, onde conta a história da Sabina, baseando-se em alguns trabalhos que saíram sobre ela. A história dela é muito interessante, do pouco que se sabe, e a primeira vez que eu li esse texto do Simas, imediatamente fiquei apaixonado pela história e achei que merecia ser conhecida por mais pessoas, merecia ser explorada mais profundamente. Aí, surgiu a ideia de fazer um disco. É o que eu sei fazer.»

      Nessa altura, Luca Argel trabalhava no projecto Samba de Guerrilha, o disco anterior, que percorria a história do samba envolvendo as canções de outros compositores numa narrativa em que a voz de Telma Tvon ia desfiando as memórias dos porões de navios cheios de pessoas escravizadas, dos terreiros de candomblé, da jinga da capoeira, da resistência que juntou tudo isso e fez nascer o samba. Na verdade, o plano era lançar Sabina primeiro: «Achava que o Sabina, talvez por ser uma história muito contida no tempo e no espaço, podia ser mais fácil de compreender e depois o Samba de Guerrilha seria uma expansão dessa história para o panorama macro, mas acabei invertendo a ordem das coisas. Acho que foi uma boa ideia, até, porque veio a pandemia no meio, o tipo de produção que eu queria exigia colaboração de outros músicos, entrar em estúdio, então o Samba de Guerrilha pulou na frente.»

      A mulher que virou mito

      A dada altura, pela voz de Nádia Yracema, que vai narrando a história de Sabina por entre as canções, ouve-se no disco: A saga de Sabina vive na encruzilhada em que mito e história se encontram. Há quem afirme que a punida não foi ela, mas outra vendedora, de nome Geralda. Não importa. As palavras são de Luiz Antonio Simas, a história é a de Sabina, de Geralda e de tantas outras pessoas invisibilizadas pela grande narrativa histórica. «A história de quem testemunhou os grandes acontecimentos de um outro ponto de vista, eu acho isso muito interessante», diz Luca Argel. «Para quem lê e se interessa por história de uma perspectiva que não é a da narrativa oficial, hegemónica, e para quem acredita que a história é uma coisa que se constrói a posteriori, não é um relato fiel dos factos, é uma interpretação sempre cheia de interesses e vieses embutidos, esses outros pontos de vista são sempre muito reveladores, muito bonitos. O escritor Victor Heringer tem uma crónica imaginando como seria a história do Brasil contada por essa figura do vendedor ambulante, anónima e omnipresente na vida brasileira. Essas pessoas foram testemunhas de todos os acontecimentos históricos, mas nunca foram ouvidas. A gente não sabe como assistiram a tudo isso, o que mudou para elas, e a Sabina representa essas pessoas. No caso da Sabina, é muito flagrante que a polícia continuaria tratando ela da mesma forma na Monarquia ou na República, era uma figura completamente invisibilizada e desvalorizada, independente de qual poder político está no topo naquela ocasião.»

      Envolvidas pela narração do texto de Simas, as canções contam uma história. Desgarradas do disco, ganham uma vida independente, encontram reflexos de vários presentes, conforme a geografia e a bagagem emocional de quem escuta. Essa dupla vida das canções foi um exercício propositado, como explica Luca Argel: «Eu nunca quis que as letras das músicas contassem a história explicitamente, queria que tivessem a sua própria existência e acompanhassem a história. Isso tem vários motivos. Por um lado, o motivo mais prático: nem todo o mundo tem o hábito de ouvir um álbum inteiro, do início ao fim, e acho até que a maioria das pessoas vai chegar no álbum por uma música e muitas vezes vai ficar naquela música, sem a experiência de ouvir o disco de cabo a rabo. E eu queria que a música fizesse sentido para essas pessoas também, se elas quiserem ficar só numa música, vão ter ai um universo mais ou menos completo para aproveitar. O outro motivo é que não gosto muito quando uma linguagem repete a outra, sabe? O Sabina é um trabalho que tem três linguagens diferentes e acho que a coisa sempre funciona melhor quando uma linguagem completa aquilo que a outra não diz, e não quando ela repete o que já foi dito.»

       

       

      Um disco para ler

      Sabina é um disco de vinil, mas é também um livro de banda desenhada, a história da quitandeira contada no traço de Allan Matias, artista que já tinha colaborado com o músico no disco Samba de Guerrilha.

      «A história da Sabina pedia uma linguagem mais visual. Podia ser uma banda desenhada, um filme… Os acontecimentos da vida dela têm uma visualidade muito marcante, têm muita acção. A agressão dos estudantes ao Visconde, a chegada da polícia que tira as laranjas dela. Depois, o ponto culminante da história, que é a manifestação de rua que vira um Carnaval, tudo é muito mexido, muito visual. Eu li a história e tinha várias imagens na cabeça.» Para dar vida a essas imagens, o músico precisava de quem soubesse fazê-lo. «Quando decidi fazer a banda desenhada, entrei em contacto com outro artista que tinha trabalhado no clip do “Almirante Negro”, mas ele disse que não dominava a linguagem da banda desenhada e me indicou o Alan. E foi uma indicação muito acertada, porque o Allan fez um trabalho incrível!»

      Allan Matias dá um rosto a Sabina, um olhar que é de festa e de desafio, mirando-nos desde a capa (do livro e do disco). Nas pranchas onde predominam os tons sépia, o autor criou um universo visual com ecos de bandas desenhadas das primeiras décadas do século XX. Com planos fortes, cingindo a narrativa ao essencial e tirando partido do cenário das ruas e da teatralidade do movimento das personagens, Matias conta esta história de um modo que complementa o disco, mas sem o repetir. «Isso foi uma coisa que eu aprendi com o Allan… ele, que entende de linguagem de BD, me mostrou que o que está dito no texto está sendo mostrado em imagens, não precisa escrever de novo. Então, isso me fez ter ainda mais certeza da decisão com relação às letras das músicas… tudo ali se complementa e, ao mesmo tempo, se sustenta sozinho, caso a pessoa não tenha acesso a todos os elementos.»

      Livro e disco; letras e narração. Sabina é um objecto múltiplo, para escutar, ler e ver. Nessa encruzilhada de sentidos, há uma história que vai ganhando forma e é ela que importa.

       

       

      O “bolo” da história

      Na canção “Nada pessoal”, Natália Correia e José Mário Branco são chamados à liça: dão-te um bolo que é a História, mas não precisas comê-lo, diz um dos versos. Numa outra, “Peça desculpas, Senhor Presidente”, a letra compõe-se de apenas três versos: Peça desculpas, Senhor Presidente/ não dói/ nem sentes. As desculpas são históricas, lembrando que Portugal, enquanto Estado, nunca assumiu o seu passado colonial, ou o papel que teve na escravização de milhões de pessoas, tirando dividendos dessa mão de obra escravizada para enriquecer. Muita gente pensou que este presidente era o actual Presidente da República, mas Luca Argel explica que não: «Tem algumas coisas que eu preciso explicar. O primeiro erro, entre aspas, de interpretação dessa música é achar que ela foi escrita especificamente para o Marcelo [Rebelo de Sousa], e não foi, claro. Ela se dirige à figura que ocupar a cadeira da presidência, seja ela quem for, e enquanto não acontecer esse pedido de desculpas, a canção continua valendo. Isso é uma coisa. A outra coisa é que as pessoas também têm muita dificuldade de compreender em Portugal é quem pede e a quem se dirige o pedido de desculpas. E as pessoas acham que são elas próprias que têm de fazer o pedido de desculpas, ou que é a pessoa do Presidente da República e não a instituição que ele representa. E, ainda mais comum, acham que eu quero um pedido de desculpas para o Brasil, e não é nada disso, é para aquelas pessoas que já estão mortas e para os seus descendentes, é para uma colectividade de pessoas que foram escravizadas, que foram vítimas de uma violência colonial brutal, e não para um outro país.»

      Não sabemos se Sabina, ou os seus pais ou avós, seria uma destas pessoas, mas a história do Brasil e o papel de Portugal nessa história garantem que podia ser. Que tanta gente em Portugal queira silenciar este debate não surpreende Luca Argel: «É uma dificuldade das sociedades de uma forma geral com relação ao racismo, a de não conseguirem desindividualizar o fenómeno do racismo, não entender que esse fenómeno está diluído em todas as relações sociais. Pensam no racismo como casos específicos, como uma atitude e não como uma estrutura. Enfim, essa é uma das lutas dos movimentos anti-racistas, claro, é preciso bater nessa tecla. Em Portugal, ainda por cima tem uma série de outras dificuldades mais específicas, que têm a ver com a educação que os portugueses recebem, eu acho, com a forma como lidam com o seu pertencimento nacional, a relação com essa noção de pátria e de orgulho e honra do seu próprio país… está muito sustentado por uma narrativa de glorificação das navegações, da expansão colonial, da história toda do colonialismo português, e isso torna o trabalho para o movimento anti-racista de Portugal muito difícil, mesmo, porque você construir a identidade de um país baseado em um evento, um acontecimento histórico, que para os outros países que se relacionaram com Portugal foi extremamente traumático, é difícil, né? Sempre que você vai lá, a pessoa acha que ela está sendo atacada. É muito difícil… Quando você diz, “Portugal deveria pedir desculpas pelo que praticou, pelo que se beneficiou da escravidão, do tráfico de pessoas escravizadas”, a resposta de muitas pessoas é sempre “não, eu não preciso de pedir desculpas, porque eu não escravizei ninguém”.»

      Na dúvida, é escutar “Nada pessoal”: mas não é teu julgamento/ mas não é um tribunal/ lealdade ao teu país/ pagas no imposto de selo/ dão-te um bolo que é a história/ mas não precisas comê-lo. «Até há muito pouco tempo, em Portugal, você não tinha opção de não comer esse bolo», diz o cantor. «Hoje, a gente já tem, mas ainda é muito recente. E esse problema educacional, essa noção abstrata do que é ser português, ainda hoje é ensinada e percebida da mesma forma como era no Estado Novo, a narrativa não se alterou e é transversal à esquerda e à direita portuguesa. Muito difícil mudar isso…» Confirmando a dificuldade de uma discussão se instalar no espaço público sem se transformar em batalha campal, Luca Argel afirma que quando fala sobre estes assuntos, não está isento das reacções xenófobas que partem do princípio que um brasileiro não tem nada a dizer sobre isto se vive em Portugal: «É, eu já ouvi isso tantas vezes que acabei escrevendo uma música [risos]. Isso acontece principalmente em redes sociais, nesse ambiente mais tóxico, quando aparece alguma reportagem ou assim. Eu não estou muito no radar de pessoas que se incomodem com isso, então, quando por acaso eu chego nesse radar, elas aparecem, mas eu noto que é uma coisa que vem de um lugar que não é muito de uma reflexão crítica, claro, vem de um ódio puro e simples. Existem muitas pessoas assim, mas não são pessoas que vão muito nos meus concertos…».

      As que vão a esses concertos podem contar com canções onde história, memória e política se cruzam com uma imensa força sonora: «A rua e a festa são uma outra forma, uma outra linguagem política, porque também se gera reflexão a partir da festa. As ideias estão lá também, para quem quiser parar e ouvir as letras com atenção, mas também para quem quer ter uma experiência um pouco mais visceral, mais catártica.» No disco e no livro, o mesmo acontece. Se a quitandeira daquela esquina do Rio era ou não Sabina, pouco importa, mas o que nos deixou de herança pode agora ser escutado e lido, servindo de combustível para novas reflexões sobre o passado e o que fazemos com ele.