«Há uma literatura de Macau, que não é apenas uma literatura em Macau»

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Alguns dos maiores escritores do território, como Rodrigo Leal de Carvalho, Fernanda Dias e Carlos Morais José, são ignorados em Portugal e mesmo Henrique de Senna Fernandes acaba por ser mais conhecido pela adaptação de dois dos seus livros ao cinema. Em entrevista ao Parágrafo, José Carlos Seabra Pereira, professor universitário em Portugal e autor de O Delta Literário de Macau, falou sobre a literatura em português do território e os seus principais nomes, entre os quais se encontra um chinês: Yao Feng.

 

 

Em O Delta Literário de Macau explorou a literatura produzida no território e relacionada com ele. Mas existe verdadeiramente uma literatura de Macau?

Existe. Uma literatura de escritores portugueses, muitas vezes, deslocados para Macau. Há também uma literatura de filhos da terra ou de portugueses deslocados, mas que já vão em segunda ou terceira geração. Também certas afluências a uma literatura em Macau e, muitas vezes, ligada à circunstância macaense, que pode ter outras origens. É curiosa a confirmação de que um dos escritores mais importantes de literatura, mesmo em língua portuguesa, de Macau, é um chinês: o Yao Feng. Há uma afluência de várias fontes, que convergem para uma criação literária condicionada pelo espaço e pelo tempo de Macau. No meu livro O Delta Literário de Macau, há ali também autores que são claramente de poesia menor, de crónica romanceada ou de ficção narrativa, que são produzidos em jornais ou revistas de Macau. Aí não são os nomes que melhor ilustram a qualidade ou o nível estético-literário dessa escrita em Macau, mas são casos típicos de formação em Macau, ou mesmo nascimento, que não têm outros vínculos especiais a outros espaços da língua portuguesa. Por outro lado, há uma literatura de Macau, que não é apenas uma literatura em Macau, mas, para sê-lo não tem de ser de orientalismo exótico, de cor local ou de pitoresco. Pelo contrário, a melhor literatura de Macau surge no último quartel do século XX e neste primeiro quartel do século XXI. 

 

Quem são os nomes da literatura de Macau?

Pessanha ou Wenceslau, que têm afinidades, mas também muitas diferenças, até porque um é essencialmente um grande poeta em verso e o outro é um prosador ficcional, mas há uma coisa em comum: é evidente que Wenceslau de Moraes é o exotista, por excelência, na literatura em língua portuguesa, mas não deixa de haver nele aquilo que eu, a propósito de Pessanha, tenho chamado de um orientalismo interior. Depois, temos sucessivos marcos de mudança, mas também vemos, de vez em quando, surpresas que aparecem antes desse período áureo que é o final do século XX e o início do século XXI. É o caso da Maria Anna Tamagnini. Joga com elementos do espaço e do tempo oriental, dos legados de civilização e de cultura desse Extremo Oriente, mas o que tem de mais importante nessa poesia é um jogo muito hábil de transferências do desejo feminino para a voz e consciência feminina, em que a evocação lendária e as fábulas míticas são formas de dar presença a esse jogo de transferências. Quando vamos falar da mulher que, mais tarde, traz um marco de mudança inegável e plural, em vários planos, é a Deolinda da Conceição. Tratam-se de contos muito associados ao que era a sua ocupação profissional de jornalista, tradutora e professora, mas aí a mudança fundamental é esta: uma mulher emancipada nas suas opções de vida que vai querer transpor essa sua ousadia de realização humana no feminino para a literatura, enquanto funcionamento institucional, mas também é um marco de mudança nos temas e na expressão formal que dá a isso, sobretudo temas de motivação social e ética, que aí tinham sido esquecidos ou evitados pela literatura de Macau, em particular, a temática da condição oriental do território. 

Já havia produção literária nos jornais e nas revistas, num ou noutro livro, até de literatura de inspiração religiosa e outra. Já havia a figura do filho da terra, que usa também o patuá, e estou a pensar, sobretudo, em Adé, mas é inegável que havia um retardamento dos padrões, dos modelos na criação literária de Macau, em relação ao que tinha sido a evolução na Europa e na América dessa forma de criação artística. Entretanto, vem Henrique de Senna Fernandes e um ciclo das grandes sumas ficcionais de Macau, que são, na verdade, devidas a ele, mas também a Maria Ondina Braga e Rodrigo Leal de Carvalho. 

 

Qual é a importância de Henrique de Senna Fernandes e da sua obra, no quadro da literatura do território?

Senna Fernandes produz uma obra longa, mas que tem sempre dois ou três vectores a soldarem toda a sua produção: a poética da resiliência, que pode ser, ao mesmo tempo, individual, familiar ou comunitária e, no meio de tantos altos e baixos nessa vida de Macau, o toque tão pessoal da obra dele, que é uma espécie de apelo à ternura, e o desastre que é frequente na falta dessa nas relações interpessoais e no seu reflexo institucional, nos usos e costumes, mas também nas regras societárias. Em terceiro lugar, essa resiliência e apelo de ternura têm, muitas vezes, uma feição intercultural – estou a pensar, sobretudo, em A Trança Feiticeira, que é uma fábula ficcional de interculturalidade na problemática intercomunitária de Macau. Se se mantivesse a dúvida se há uma literatura de Macau, esta obra está umbilicalmente vinculada ao território, e Macau, se ainda não tivesse razões para se orgulhar disso, passava a ter ali um atestado de valor com a obra de Senna Fernandes. Entre ele e o Rodrigo Leal de Carvalho, há essa figura extraordinária da Maria Ondina Braga. Ela é um dos casos – talvez o mais brilhante – de alguém que não nasceu no território e que vive aí, no meio de toda a deriva que foi a sua vida, mas que já tinha obra literária antes e vai continuar a tê-la depois de regressar duradouramente à Europa. A seguir, vem o Rodrigo Leal de Carvalho, em que temos um extenso e qualificado painel ficcional da vida de Macau, já diferente do de Senna Fernandes, como o minúsculo enclave que servia de porto de abrigo a gentes de mundos vários pode existir e ser objecto de transposição estético-literária em tempos pós-imperiais: falava das vidas comuns dos construtores de império. É uma obra cheia de afectos e ironias. Depois, há, de novo, uma mudança introduzida por uma mulher: Fernanda Dias. Pode ser associada ao primeiro modernismo americano e logo o primeiro livro de poemas dela, Horas de Papel, foi aproximado do imagismo de Ezra Pound. Não hesitei em qualificar o largo desenvolvimento da obra dela, em verso e em prosa, como representando, no seu conjunto, um modo pós-moderno de criar literatura. Defendo a mesma doutrina sobre Pessanha, mas, para mim, é muito sintomático que dois dos poemas que melhor ilustram aquilo que constitui o ponto mais elevado do seu universo poético sejam rondós com referências orientais e macaenses: «Viola Chinesa» e «Ao Longe, os Barcos de Flores».  Também, um século depois, em Fernanda Dias, podemos dizer a mesma coisa. A poesia, como auscultação, primeiro, e depois como sugestão de vida analógica entre os seres, oferece como uma via quase religiosa de alternativa a essa dor da impossibilidade de comunhão de vidas humanas. A cultura tradicional chinesa estende isso a uma vida em comunicação e, portanto, potencialmente, em comunhão de tudo o que existe no universo. Isso aparece em [Fernando] Sales Lopes e depois vai reverberar em Yao Feng, mas também, ao contrário do que, nas primeiras abordagens à sua obra, possa parecer, em Carlos Morais José. Chamei à obra de Carlos Morais José um ofício de visitação no Outono das crenças e, na verdade, uma poesia e prosa de um autor que não esconde que, de certo modo, retoma a Oriente uma linha de agnosticismo moderno ocidental, e isso é apenas para ser trabalhado pela soberania da imaginação criadora que vem do grande legado do romantismo alemão e inglês. Estamos aqui com um autor multifacetado, que, às vezes, parece que procura acentuar todos os logros, enganos e desenganos, em que se podem aliar o invidivualismo céptico, mas que não se quer evadir dessa condição difícil de individualismo céptico. 

Entre estes todos, quais são os que considera melhor ilustrarem o nível estético-literário do território?

Todos os que referi, mas, até pela atenção que outras artes lhe vieram a dar, como no cinema, o de Henrique de Senna Fernandes. Acima de Senna Fernandes, mas com uma obra menos extensa, seria Maria Ondina Braga, só que esta naquela situação ambivalente, enquanto o Senna Fernandes é de Macau, Macau. De certo modo, o Rodrigo Leal de Carvalho é também Macau, Macau. Nos mais recentes, os nomes mais altos são Fernanda Dias e Carlos Morais José e, agora, a obra de Yao Feng, que é um escritor chinês. O professor Yao Jingming, que já tinha ensaios tão argutos sobre a literatura em língua portuguesa, sobretudo a de Macau, e que publicou, pela Gradiva, nos finais de 2025, um livro de fôlego sobre Encontro dos Extremos, o Intercâmbio Literário entre a China e Portugal. Aqui importa, sobretudo, como grande poeta, cuja criação está ainda in progress. É outro de quem podemos continuar a esperar e a estar atentos, como o Carlos Morais José. Temos um escritor chinês – não é o único, mas nenhum tinha chegado a este grau. O trabalho dele com a língua portuguesa é extraordinário, de uma familiaridade tão profunda que parece que é mesmo a língua nativa. Esta, a que eu chamei de uma poesia de irónico espólio do ser, não é eufórica, porque também não quer ser evasiva, que é outra coisa que acontece com o Carlos Morais José. O Carlos Morais José poderia ter um público mais vasto, se aceitasse que a sua obra fosse uma obra de evasão ou de escape, mas não é isso. O Yao Feng domina também muito bem –  ou não fosse ele professor dessas matérias – todo o contributo do homem como animal semiótico, com uma cultura dos sinais e uma convicção do poder do nomeação. 

Está a planear um segundo volume de O Delta Literário de Macau?

Gostava de, um dia, se houvesse necessidade ou gosto, fazer uma actualização de O Delta Literário de Macau. Tentaria fazer isso, mas, o que talvez mais gostasse, era O Caleidoscópio Literário de Macau. No fundo, referir os autores que disse em O Delta Literário de Macau não ser o momento para inserir. 

Quem traria para esse caleidoscópio?

Seriam autores que, em alguns casos, é só um livro, como a Agustina Bessa-Luís, o Eugénio de Andrade ou o José Augusto Seabra, mas noutros não. É uma marca, uma partilha e uma inspiração que atravessa mais de um livro, como o [António] Manuel Couto Viana, o Manuel Afonso Costa e outros. Essa outra literatura em língua portuguesa, produzida estritamente em Macau ou numa impressiva passagem pelo território, como o Emílio de San Bruno, o Joaquim Paço d’Arcos ou o José da Silva. Também José Jorge Letria, José Alberto Oliveira, Fernando Correia Marques, António Graça de Abreu e Manuel Afonso Costa. São autores com obra vinculada a Macau. Seria por aí que poderia andar.

Entre as figuras que referiu em O Delta Literário de Macau, quais são as que não têm sido objecto de estudo e que já deveriam ter a sua obra analisada em Portugal?

Todos aqueles que destaquei, infelizmente. Houve um ou outro ensaio, muitas vezes de pessoas ligadas a Macau, profissionalmente ou por interesse cultural. A professora Mônica Simas escreveu sobre Alberto Estima de Oliveira e houve um prefácio do Pedro Mexia com referência a outro livro de Aberto Estima de Oliveira, mas não há um estudo alongado. O mesmo se diga para Sales Lopes, que foi lido pela Yvette Centeno, mas foi uma coisa ocasional. O próprio Carlos Morais José merecia outra atenção. Ele vai ficar para a história da literatura em língua portuguesa. E, se emparelhei o Senna Fernandes e o Rodrigo Leal de Carvalho, o Senna Fernandes foi conhecido mais pelo cinema. O Rodrigo Leal de Carvalho é ignorado em Portugal e não se justificava. A Fernanda Dias nem sequer é referida em Portugal. 

José Carlos Seabra Pereira
O Delta Literário de Macau 
Instituto Politécnico de Macau