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      Início Parágrafo Parágrafo #78 A HORA QUE MUDOU O MUNDO

      A HORA QUE MUDOU O MUNDO

      ENTREVISTA

      75 anos depois da bomba atómica lançada sobre o Japão, os argumentistas Didier Alcante e Laurent-Frédéric Bollée e o desenhador Denis Rodier publicaram em França uma banda desenhada monumental sobre esse momento em que mundo mudou. A Bomba tem feito um percurso assinalável em diversos países, com traduções e novas edições a surgirem todos os meses, muitas vezes acompanhadas por prémios. O livro publica-se agora em português com chancela da Gradiva, pretexto para uma conversa com o primeiro criador desta enorme história, Didier Alcante.

       

      No dia 6 de Agosto de 1945, os Estados Unidos lançaram duas bombas atómicas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. Eram 8:15 da manhã no Japão quando os dois projécteis, guardando no interior uma tecnologia recentemente descoberta e pronta a estrear, aterraram no seu alvo, arrasando tudo à sua volta e deixando marcas que foram muito além da destruição material, dos mortos, da radiação e dos problemas de saúde que afectaram gerações. A existência de uma tecnologia tão destruidora não mais deixou de pesar sobre a cabeça da humanidade, espada permanentemente desembainhada e pronta a ferir. Houve tratados de paz, compromissos de não-agressão, boas intenções transformadas em documentos vinculativos, mas aquilo que se fez com a descoberta da energia atómica não mais pôde ser desfeito. E perdura, como tão bem sabemos nos dias que correm, outra vez em permanente sobressalto perante a possibilidade de alguém carregar no botão, não tão simbólico quanto isso, e voltar a espalhar o caos.

      Em Louvain-la-Neuve, na Bélgica, um rapaz chamado Didier conhece outro rapaz, de nome Kazuo. O ano é o de 1978 e os rapazes são colegas na escola primária. Didier nasceu ali e Kazuo acompanhou a família que se mudou do Japão para a Bélgica, para que o pai se dedicasse à pesquisa sobre o império Carolíngio que integrava o seu doutoramento. As famílias das duas crianças tornam-se amigas e, anos mais tarde, quando Kazuo já regressou ao Japão, Didier e os pais visitam o seu país. É aí que a história de Hiroshima deixará uma marca profunda no futuro autor, tão profunda que vários anos mais tarde decide contar a história da bomba mortífera, mas também as muitas histórias que em torno dessa descoberta horrenda se cruzam – algumas reais, outras ficcionadas, todas verdadeiras.

      O resultado dessa decisão é um magistral livro de banda desenhada, com argumento de Didier Alcante e Laurent-Frédéric Bollée, e com desenho de Denis Rodier: A Bomba, editado em português pela Gradiva, em dois volumes. Não se trata da história de como se criou a bomba atómica, mas das muitas histórias que confluem nessa criação hedionda, procurando sempre a complexidade e dando a ler episódios aparentemente menores, mas igualmente fundamentais. Ao sólido argumento de Alcante e Bollée junta-se o traço de Denis Rodier, num preto e branco de cunho realista que tira todo o partido da mise-en-pâge, explorando ritmos, planos e alguma experimentação.

      Quando Didier Alcante fala sobre este livro, percebe-se que a criação do argumento de A Bomba foi um momento particularmente importante numa já longa carreira de argumentista. Numa vídeo-chamada a partir da sua casa, na Bélgica, o autor contou ao Parágrafo como foi a génese deste trabalho, começando por lembrar a importância do seu amigo de infância, um dos pontos de partida para a história que quis escrever: «Esta amizade é muito importante para mim e foi através dela que cheguei ao tema da bomba atómica. Não cheguei lá pelas aulas de História, mas pela amizade com esse jovem japonês, que conheci quando tinha 8 anos, e de quem me tornei muito amigo. Ainda hoje estamos em contacto, o que é notável, porque Kazuo só esteve na Bélgica por um ano e foi há mais de 40 anos… Quando nos conhecemos, simpatizámos logo um com o outro e ao longo do tempo que passámos juntos na escola, ele foi-me oferecendo uma série de coisas sobre o Japão, de postais a pequenos livros turísticos. Entretanto, os nossos pais conheceram-se e também simpatizaram. E eu fui criando uma ideia do Japão através daqueles livros. Três anos depois de Kazuo voltar para o Japão, eu e a minha família visitámos o país e foi aí que ouvi falar da Guerra do Pacífico e que visitei o Museu do Memorial da Paz, em Hiroshima. Foi um momento muito intenso e assustador para uma criança, lembro-me de quase me sentir mal fisicamente ao ver aquelas fotografias dos sobreviventes, dos destroços. Com a electricidade estática que se criou depois da explosão, as pessoas ficaram com os cabelos em pé, literalmente, e as imagens de gente sem roupa, com a pele queimada e os cabelos eriçados foi realmente marcante. Creio que tudo isso fez nascer em mim a vontade de perceber o que se passou, como é que se chegou ali, à situação que eu via nas imagens, àquela fotografia com a sombra de uma pessoa impressa na parede pela força da luz que emanou da explosão.»

      Essa fotografia de uma sombra na parede, sem que haja alguém presente a produzi-la, é uma das imagens fortes de um livro que vai muito além da tradicional história da História contada em banda desenhada. Para Alcante, «é uma imagem chocante, porque é a imagem de um fantasma. Vemos a sombra de uma pessoa, mas não vemos a pessoa, porque já lá não está. É assustador e é também muito simbólico de uma destruição total do ser humano, da sua desintegração, e também da potência desta arma, que não só desintegrou aquela pessoa, como ainda lhe fixou a sombra. E ficou sempre o mistério, também, porque não sabemos quem era aquela pessoa, nunca se conseguiu descobrir com certeza, nem se sabe se era um homem ou uma mulher. Fiquei sempre com vontade de saber quem era e, quando escrevi esta história, decidi criar uma personagem para colmatar essa falha, a quem dei a aparência do meu amigo Kazuo e para quem inventei uma história de vida até àquele momento.» No livro, o dono da sombra é Naoki Morimoto, uma das poucas personagens inventadas em A Bomba. O filho morreu ao serviço do exército japonês e a sua vida parece ter chegado a um beco sem saída, mas como toda a gente, Morimoto não podia imaginar que o verdadeiro beco sem saída estava prestes a cair do céu naquela manhã de Agosto. Depois disso, nada. Apenas a sombra.

       

      A longa empreitada

      Escrever e desenhar a história da bomba atómica, resultando em mais de quatrocentas páginas de leitura, foi um trabalho longo. Ainda antes de Denis Rodier começar a desenhar as primeiras pranchas, foi preciso estabelecer um argumento. E antes de tudo isso, houve um processo de pesquisa que, aliado à escrita do argumento, acabou por tomar quase cinco anos da vida de Alcante. «Ao longo dos anos, fui lendo livros, artigos e reportagens sobre a bomba, ainda antes de decidir fazer uma banda desenhada sobre ela. Lia porque me interessava», conta o autor, confirmando que Hiroshima não voltou a sair dos seus interesses desde aquela primeira viagem na infância. «Aos poucos, quando comecei a trabalhar nesta história, nestas várias histórias que se cruzam aqui, e quando fiz uma primeira sinopse, falei com Laurent-Frédéric Bollée, um grande argumentista com quem já tinha trabalhado. Laurent-Frédéric já tinha feito o argumento para um enorme livro de banda desenhada sobre a história da Austrália, portanto estava habituado a escrever este tipo de formato. E também já conhecia o trabalho de Denis Rodier, já há algum tempo que queríamos trabalhar juntos, pelo que formámos esta equipa e avançámos. A partir desse momento, contactámos várias editoras – dez, na verdade, sendo que dessas dez, oito quiseram saber mais sobre o nosso projecto, o que foi muito confortável, porque assim pudemos escolher a editora que mais nos convinha, a que oferecia melhores condições de trabalho. Depois, numa segunda fase, retomei todas essas leituras que já tinha feito e acrescentei muitas outras, começando a trabalhar no argumento com o Laurent-Frédéric. Foram quatro ou cinco anos neste processo. E fomos os três a Hiroshima, eu, o Laurent-Frédéric e o Denis. Eu já lá tinha voltado uma vez depois daquela primeira visita em criança, mas desta vez fomos todos, para ver os lugares atentamente, fazer a repérage e visitar os arquivos do Museu do Memorial da Paz.»

      Transformar a ideia inicial de Alcante numa história realizada a seis mãos foi um processo complexo, mas bem sucedido: «Comecei por fazer uma espécie de sinopse, que já tinha 60 páginas, e um pequeno dossier em que explicava como a história da bomba atómica era fascinante e também como se compunha de muitas histórias cruzadas, que fui descrevendo: a fábrica alemã sabotada nas montanhas da Noruega, o cientista que quer avançar com as experiências com plutónio, as questões políticas nos Estados Unidos, o maior projecto científico e top secret de todos os tempos. Passei todo esse material ao Laurent-Frédéric Bollée e a primeira coisa que fizemos foi dividir a história em sequências, cerca de 40, que dividimos entre nós. E trabalhámos cada uma dessas sequências como se fosse um álbum de banda desenhada, sendo que depois criámos as ligações entre as sequências, criando a história completa. E o trabalho acabou por ser sempre colectivo, porque quando eu escrevia uma sequência, enviava-a ao Laurent-Frédéric e ele fazia comentários, acrescentava e mudava coisas, sendo que eu fazia o mesmo com o que ele me enviava. Portanto, é difícil dizer quem escreveu o quê.»

      Faltava escolher um desenhador que aceitasse este imenso desafio de transpor um argumento tão extenso para pranchas de banda desenhada, por um lado legíveis, por outro acrescentando algo à história. E Denis Rodier foi a escolha óbvia: «Denis é do Québec e eu trabalhei, no início da minha carreira, com um outro quebequense que me colocou em contacto com ele. Já queríamos trabalhar juntos, mas ainda não tinha surgido o momento certo, até que vi uma série de pranchas que ele colocou no seu site, a preto e branco, para um livro cuja acção se passava na União Soviética. Gostei muito daquele trabalho e pareceu-me logo um estilo muito eficaz para aquilo que queria fazer. O facto de o Denis ser rápido a trabalhar também ajudou, porque no fim acabaram por ser quatrocentas e tal páginas… E o resultado foi exactamente aquele que procurava.»

      Depois de prémios como o BD Fnac France Inter ou prémio belga Cognito, A Bomba foi agora distinguida com o Overseas Award, no festival Bucheon International Comics Festival, na Coreia do Sul. Alcante não esconde a satisfação pelo prémio, atribuído por um dos maiores festivais de banda desenhada da Ásia: «Já tínhamos ganho prémios nos nossos países de origem, Bélgica, França e Quebec, e foi a primeira vez que recebemos um prémio fora destes territórios. O facto de ser na Ásia tem um significado especial, claro, pela ligação geográfica, e isso foi muito recompensador. Há algumas traduções já publicadas, há 17 traduções previstas para os próximos tempos e nunca pensámos que o nosso livro fosse publicado na Coreia, e menos ainda que fosse premiado. Gostava que toda a gente conhecesse a história de Hiroshima e ver este livro a ser publicado e apreciado em tantos países é muito comovente.»

       

                   Um dilema irresolúvel

      Os dois volumes de A Bomba contam a história de como se inventou uma arma mortífera, mas vão muito além dessa narrativa histórica. As páginas deste livro estão cheias de dilemas, dúvidas, conflitos que não se limitam à geo-política, acontecendo também na mente de muitos protagonistas. É o caso de Leo Szilard, o cientista de origem húngara que descobriu a reacção em cadeia, passo essencial para a explosão atómica. Quando percebe o potencial da sua descoberta, no momento em que pode avançar com as primeiras experiências que confirmem aquilo que a teoria definiu, Szilard enfrenta a imensa dúvida sobre a necessidade da sua descoberta: será esta invenção um passo importante para a ciência ou o princípio do fim da humanidade? E se todos os países desenvolverem a sua própria bomba atómica, conseguiremos sobreviver? No momento em que a dúvida se instala na mente de Szilard, já não há como inverter o curso da história. Depois, veio Hiroshima e os resultados ficaram à vista de quem quis vê-los. E ainda assim, talvez não tenhamos aprendido a lição, desabafa Didier Alcante: «Até alguns meses atrás, diria que conseguimos um equilíbrio, mesmo que instável, na nossa relação com as armas nucleares. Agora, com a guerra na Ucrânia, Putin fazendo alusões às armas nucleares, o conflito entre a China e Taiwan, a Coreia do Norte… hoje creio que não aprendemos muito com Hiroshima.»

      O conflito de Leo Szilard consigo próprio acabará por incentivar a discussão sobre os limites da ciência, ou pelo menos do seu uso para fins militares, entre vários cientistas, entre eles Albert Einstein. E se isso não impede o lançamento da bomba, pelo menos ajuda a definir as bases de alguns tratados políticos posteriores que tentam conter o uso da energia nuclear, como conta Alcante: «Leo Szilard foi verdadeiramente um percursor, porque desde o início que defendeu um controlo internacional do armamento nuclear, sendo que esta ideia não era minimamente respeitada pelas chefias militares da altura. E a proliferação nuclear aconteceu realmente, com algum controlo, até agora…».

      Para além deste processo de contenção e das suas repercussões, outros conflitos estruturam a narrativa de A Bomba. Para Alcante, «aquilo que faz um bom argumento é precisamente o conflito. E nesta história da bomba atómica, só há conflitos: entre os cientistas e os militares, entre os militares e os políticos, entre os Estados Unidos e o Japão. E há os conflitos de consciência, não só de Leo Szilard, que não sabe se tomou a decisão certa ao avançar com as pesquisas, mas de outros cientistas que se debruçam sobre o poder imenso desta arma. Todos esses conflitos definem esta história e criam no leitor a vontade de saber como é que as coisas se vão resolver.» No caso de Leo Szilard, talvez essa resolução seja inatingível: «Quando, em 1939, Szilard percebe que a descoberta da fusão do átomo pode levar a uma bomba atómica,  escreve a alguns colegas físicos, pedindo que parem de publicar as suas pesquisas sobre o assunto, porque é muito perigoso, mas já não consegue evitar nada. No fundo, tenta impedir o desenvolvimento da bomba, mas também assume que se não forem eles a tentar desenvolver a bomba, serão outros.» E assim chegámos a uma ilusão de equilíbrio, acreditando que se todos tiverem uma bomba atómica, ninguém a usará. É uma das heranças nefastas de Hiroshima e ainda não nos livrámos dela.