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      Barry Eisler

      “O que é mau para a América, é óptimo para os escritores de thrillers”

      O norte americano Barry Eisler, antigo agente secreto da CIA, tornou-se escritor há 20 anos, logo após o 11 de Setembro. A narrativa de um dos seus primeiros romances, Winner Take All, colocou Macau no centro de uma conspiração do terrorismo islâmico.

      Barry Eisler, escritor de 60 anos de idade baseado em São Francisco, esteve três anos ao serviço da CIA e foi mais tarde advogado e executivo de empresas tecnológicas em Silicon Valley e no Japão, antes de se dedicar em exclusivo à escrita. Essa experiência de vida conduziu-o, sem surpresa, a uma carreira literária virada para o género dos romances policiais e de espionagem, onde é hoje um dos autores de maior sucesso nos Estados Unidos.

      A sua série de thrillers políticos que tem por personagem central John Rain, um assassino profissional, está mesmo em processo de adaptação a série televisiva, devendo muito provavelmente contar com o actor Keanu Reeves no papel principal. E a menos que o projecto se esgote numa única temporada, tudo indica que Macau será o cenário de um ou mais episódios, mal as condições o permitam.

      Se a adaptação seguir de perto o romance, Macau ficará bem na fotografia. É um território com “um sentido invulgarmente firme da sua própria identidade”, sobretudo para quem foi “bola num jogo de pingue pongue de 500 anos entre as grandes potências”, lê-se a páginas tantas.

      Em entrevista ao PONTO FINAL, o autor explica como nasceu a sua ligação a Macau.

       

      PONTO FINAL – O que o levou a transportar esta terra para os seus escritos?

      Barry Eisler – A ideia cresceu organicamente a partir do enredo que construí: um traficante de armas com o vício do jogo; o meu anti-herói, John Rain, assassino profissional, meio americano, meio japonês; e Macau como a intersecção perfeita para os gostos e hábitos do primeiro, e as contradições culturais íntimas e uma natural capacidade para não dar nas vistas num contexto asiático do segundo. Na altura (2004), nunca tinha estado em Macau, mas fui então aí duas vezes para fazer pesquisa para o livro. Se bem me lembro, o Lisboa era ainda o maior casino da cidade, e a Sands tinha acabado de lançar a primeira pedra do seu novo resort. Por isso, penso que terei sido dos últimos a conhecer Macau antes das grandes mudanças que se verificaram com a chegada dos investidores estrangeiros.

       

      – Que tipo de pesquisa fez em Macau?

      Antes de viajar para um novo local, começo sempre por ler livros e artigos, que me dão alguma familiaridade sobre esse espaço e maior capacidade para fazer as perguntas certas. Por vezes, a Internet é vista como um mau instrumento de pesquisa, mas utilizá-la como base para posterior investigação é sensato e produtivo. Assim, começo com a Internet e com os livros, e depois visito o local esperando poder conversar com pessoas que o conheçam bem. No caso de Macau, tive a sorte de ter um amigo que me pôs em contacto com alguns residentes locais que foram muito generosos comigo, acompanhando-me a vários sítios e respondendo a todas as minhas perguntas. Menciono os seus nomes na página de agradecimentos do livro.

       

      – Fale-nos de si enquanto escritor e do género literário que adoptou para as suas obras.

      Sempre adorei thrillers, e isso basta provavelmente para explicar por que os escrevo. Mas penso também que o género se presta muito bem à exploração da natureza humana, porque o carácter das pessoas tende a revelar-se em circunstâncias extremas. E porque o que é mais cativante tende a ser o que é mais credível, faço tudo o que posso para garantir rigor nas minhas histórias: nos cenários (daí as viagens de investigação a lugares como Macau); nas acções dos meus personagens (cortesia da formação que recebi durante três anos como agente secreto da CIA); nas sequências de combate (que beneficiam do cinto negro que obtive no Instituto de Judo Kodokan de Tóquio, quando vivia no Japão); e acima de tudo nos enredos, que construo lendo nas entrelinhas das manchetes da vida real envolvendo escândalos do governo dos Estados Unidos. Como gosto de dizer, o que é mau para a América, é óptimo para os escritores de thrillers.

       

      – A série John Rain é, de facto, exemplar em termos de rigor. Por que é tão importante para si essa exactidão e até onde vai para a preservar?

      Bem, viajei para quase todos os lugares que descrevo nos meus livros, o que é absolutamente essencial. E também disparei um taser contra mim próprio, visitei uma morgue, fiz patrulhas com polícias, entrevistei inúmeros espiões, agentes policiais, médicos, soldados, jogadores e cadastrados. Mas não pretendo com isto insinuar que seja tudo uma espécie de sacrifício a favor da minha arte. Sim, tudo isto é necessário a bem do rigor, mas é também um prazer e um privilégio poder conhecer novos lugares, ter experiências invulgares e entrevistar toda a espécie de especialistas. Na verdade, eu até iria mais longe, se pudesse – só que nem sempre se pode. Tive de descrever a Sala do Gabinete da Casa Branca com base apenas em fotografias e artigos online, e quando visitei uma prisão nas Filipinas que usava num dos meus livros, não me deixaram entrar. Além disso, embora tenha descrito nas minhas histórias o waterboarding (método de tortura usado contra suspeitos de terrorismo), confesso que nesse caso me bastavam relatos em primeira mão. Ou seja, existem limites ao meu radicalismo em relação ao rigor. Penso que os thrillers são mais emocionantes quando o leitor sente que “isto pode realmente estar a acontecer”, e aí os detalhes são importantes para se alcançar esse resultado. Dito de outra forma, alguma da minha obsessão tem a ver com esta marca que tentei criar, onde surgem personagens fictícios em cenários reais. Julgo que uma forma de se convencer os leitores de que se está a ser rigoroso nos grandes temas, é poder demonstrar-lhes que estamos também a ser precisos nos pequenos detalhes.

       

      – Em Winner Take All e noutros romances, aborda algumas operações clandestinas muito controversas do Governo dos EUA, tais como a criação de listas de alvos para assassínio, que se tornaram um dos segredos menos bem guardados após o 11 de Setembro. Pergunto: sendo um ex-membro da comunidade dos serviços secretos dos EUA, precisa de submeter os seus livros para aprovação em matérias relacionadas com segurança nacional ou tem liberdade absoluta no que publica?

      Quando fui contratado pela CIA em 1989, assinei um contrato de confidencialidade que requer aprovação prévia para a divulgação de quaisquer tópicos sensíveis. Mas porque escrevo ficção, e porque tudo o que escrevo não se baseia em segredos de Estado, mas antes em informação que é do domínio público, até agora tenho conseguido publicar sem ter de passar pelos censores. Por outro lado, tendo deixado a CIA em 1992 – há quase trinta anos! –, é difícil imaginar que ainda possa ter agora informação classificada que não deva ser divulgada.

       

      – É justo dizer-se que, de alguma forma, utiliza os seus romances para denunciar práticas em matéria de segurança nacional dos EUA com as quais não concorda?

      Suponho que sim, que se pode dizer isso. Mas eu colocaria as coisas de forma um pouco diferente. Primeiro, o que eu procuro, mais uma vez, é o rigor. E porque o rigor pressupõe um certo grau de objectividade, tendo a olhar para o meu próprio país, a América, não só através do meu olhar americano, mas também através do olhar de não-americanos. Adoptar a perspectiva de um terceiro é uma forma de ver falhas para as quais estamos cegos. Dito isto, a questão essencial para mim tem mais a ver com o rigor do que com as próprias falhas. Além disso, como o magnata do cinema Sam Goldwyn terá dito: “Se quiserem enviar uma mensagem, usem a Western Union”. O principal objectivo dos meus romances é entreter, e eu não quero nunca perder isso de vista. Se uma história não entretém, provavelmente não está a funcionar enquanto história. Mas no âmbito do entretenimento, sim, sem dúvida, tento sempre incluir algo que seja mais perene e que acrescente valor. Não a denúncia de políticas governamentais (se eu quiser fazer isso, posso simplesmente usar o meu blogue, O Coração da Matéria), mas antes a apresentação de contextos rigorosos que, espero, possam abrir a mente dos meus leitores a novas formas de ver as coisas.

       

      – Em termos literários, Macau é historicamente uma cidade de espiões. Numa altura em que o estado das relações entre a China e os Estados Unidos parece sugerir um regresso à Guerra Fria, acredita que os autores ocidentais estejam à procura de substituir a União Soviética por um novo vilão, ainda que de uma forma mais subtil do que nos romances dos anos 50 e 60?

      Uma coisa importante de compreender sobre a América é que precisamos sempre de um inimigo – e se um inimigo real não existir, os oligarcas que dirigem o país acabam sempre por inventar um (é curioso: chamamos aos nossos oligarcas, bilionários, parte do ‘establishment’, ou outros termos neutros ou até lisonjeiros, reservando a expressão “oligarca” para a Rússia. Mas acho que faz sentido usar os termos pejorativos de uma forma mais imparcial). Lembra-se do filme Back to the Future, de 1985? Reagan era o presidente, e os grandes vilões do filme eram os líbios. A imprensa da época tinha feito tudo para convencer os americanos de que Gaddafi era uma espécie de ameaça existencial. Mas, vendo as coisas em retrospectiva, será que havia nisso qualquer sentido de proporcionalidade? Agora, com os Talibã novamente em ascensão no Afeganistão, os poderes que verdadeiramente mandam vão procurar justificar o reforço do orçamento militar na América – maior do que o dos outros 12 países que mais gastam em Defesa, juntos – com base na noção de que os Talibã se preparam para nos matar a todos durante o sono. Pode parecer que estou a fugir à sua pergunta, que era sobre a China – mas na realidade não estou. Com alguns intervalos no percurso (incluindo o período pós-11 de Setembro e, em certa medida, as eleições presidenciais de 2008), a Rússia tem sido o Inimigo #1 da América desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Mas com Donald Trump fora da Casa Branca, a Rússia já não serve como papão político usado para levar as pessoas a acreditarem que o presidente é um ‘candidato manchuriano’ que trabalha secretamente para Vladimir Putin. Portanto, precisamos de um novo inimigo geopolítico, e os tais poderes instituídos estão a auditar a China para esse papel. Os escritores de thrillers, por preguiça ou outras razões, tendem a usar como vilão quem a imprensa ou os poderes instituídos aconselham. E isso é lamentável, mais uma vez também por razões de rigor. Papaguear a propaganda dessas forças não contribui para um maior esclarecimento popular, pelo contrário. E porque a América é hoje uma ameaça muito maior a si própria do que qualquer adversário externo, é desajustado (e até desinteressante) acenar com ameaças exteriores caricatas quando existem tantas ameaças internas reais e muito mais insidiosas que podem ser retratadas na ficção de forma mais rigorosa e útil.

       

      – Macau é também frequentemente descrita como uma cidade dominada pela corrupção e pelo crime organizado. No seu livro escreve: “Aqui o excesso era misterioso, mesmo vagamente ameaçador”. Quem tomou as decisões? Quem manipulou as declarações de impacto ambiental para assegurar que os projectos fossem aprovados? Quem lucrou com os subornos?” De alguma forma acolheu esse tipo de presunções?

      Há duas questões aqui. Primeiro, lembre-se, as opiniões que me está a atribuir são na verdade as do meu personagem, John Rain! Sendo verdade que tenho os meus momentos cinismo, Rain é muito mais cínico do que espero alguma vez ser (embora isso me faça pensar em Oscar Wilde, que disse: “Essa qualidade de ver as coisas como elas realmente são é chamada de cinismo por aqueles que não a têm”). Em segundo lugar, embora por vezes discorde dos pensamentos dos meus personagens, aqui penso que Rain terá um ponto. Mas não porque acredite que Macau seja excepcionalmente corrupto ou pecaminoso. A verdade é que, embora tenha estado em Macau e lido muito sobre a terra, o conhecimento que adquiri é como uma ilha num mar de ignorância. Portanto, seria insensato (e impreciso) da minha parte tomar uma posição sobre quanta corrupção existe em Macau em comparação com outros lugares. A verdade é que não sei. Eu diria antes que a corrupção se afere em função da transparência e da responsabilidade – onde haja menos de ambas, haverá mais corrupção. Se a isso se acrescentar muito, a corrupção só poderá ficar pior. Portanto, se eu tivesse de dar um palpite, diria que é provável que haja muita corrupção em Macau. Não porque Macau tenha algo de especial a este respeito, mas porque é habitada por seres humanos que seguem as leis da natureza humana. Espero não parecer estar a atirar pedras seja a quem for. Nós temos todos os tipos de corrupção na América, alguns óbvios, alguns subtis, mas todos em função das leis da natureza humana: “menos transparência e responsabilidade = mais corrupção”. Há uma expressão japonesa que me agrada muito – saru mo shiri warai, “o macaco ri-se do rabo do outro macaco”. O que significa que é muito mais fácil, e mais agradável, apontar falhas aos outros do que detectá-las em nós próprios. Eu tento não cair nessa armadilha.

       

      – O que é que mais o fascinou em Macau?

      Ah, tantas coisas! Mas provavelmente acima de tudo o choque de culturas, a portuguesa e a chinesa, tal como se expressam na arquitectura da cidade, na sua cozinha, nos sons e aromas, na sua atmosfera.

       

      – Gostaria de regressar a Macau? 20 anos após o 11 de Setembro, bem presente no seu romance anterior, como seria hoje o enredo?

      Eu adoraria! Certamente, as pandemias poderiam fornecer linhas de enredo interessantes. Não só porque o tema é tragicamente relevante, mas também devido à forma imprecisa como as implicações geopolíticas têm sido tratadas nos principais meios de comunicação social do Ocidente. No início, chamaram à teoria da “fuga de um laboratório chinês” uma mistificação ridícula. Agora, esses mesmos meios de comunicação social – sem terem em conta a sua postura anterior – tratam aquela mesma teoria como uma hipótese plausível. Julgo que bem melhor teria sido uma abordagem menos incendiária desde o início em que se admitisse a possibilidade da Covid-19 ter escapado de um laboratório chinês, reconhecendo ao mesmo tempo a falta de provas definitivas sobre o assunto. No fim de contas, a própria América tem uma longa história de investigação secreta de armas biológicas e bacteriológicas, e de acidentes com ela relacionados. Porque seria afinal impensável que tal coisa pudesse acontecer na China, quando isso já aconteceu aqui nos EUA? Sim, seria credível e eventualmente útil explorar essa teoria num thriller.

       

      – Tem estado muito activo na indústria cinematográfica e televisiva, emprestando o seu talento a documentários como A Criação Incrível de Ian Fleming e Freakonomics. Mas nenhum dos seus romances foi ainda adaptado ao cinema. No entanto, foi já anunciada uma mini-série de TV baseada na série John Rain. Em que situação está esse projecto? E quando for para a frente, irá incluir Macau?

      B.E. – Há, de facto, uma série de televisão Rain em fase de desenvolvimento. Como tantas outras coisas, o projecto tem sido afectado pela pandemia, mas ainda está a avançar. A experiência diz-me que adaptações para cinema e TV são incertezas por muito tempo até que algo realmente aconteça, mas temos uma boa equipa a trabalhar no projecto e não posso deixar de estar optimista. E sim, se as coisas continuarem e houver mais do que uma temporada, penso que a história vem até Macau, como aconteceu nos romances.

       

      – Finalmente, que livros deste mesmo género recomendaria aos nossos leitores?

      B.E. – Para mim, os melhores romances de espionagem seguem o ditado da ficção policial de que não é a forma como o detective trabalha o caso que importa, mas sim como o caso trabalha o detective. Com isso em mente, os meus favoritos tendem a ser clássicos de John le Carre, Ken Follett e Graham Greene. The Tears of Autumn, de Charles McCarry, é um relato fictício do que realmente esteve por detrás do assassinato de Kennedy, tão realista que fiquei a achar que só pode ter acontecido assim. Em termos de obras mais recentes, The Sympathizer, de Viet Thanh Nguyen, é incrível! Um romance de espionagem fantástico; excepcional tanto pela prosa deslumbrante, como pela perspectiva rigorosa que oferece sobre a natureza humana.

       

      Nota: Texto editado em razão da clareza e espaço.

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      Redacção do Ponto Final Macau