
LIVROS QUE CRIAM MUNDOS
Há mais de três décadas que André Letria cria livros, imagens que contam histórias, umas vezes de braço dado com palavras alheias, outras a solo. Em 1999, venceu o Prémio Nacional de Ilustração com Versos de Fazer Ó-Ó, com texto de José Jorge Letria, e tem tido o seu trabalho publicado em Portugal e no estrangeiro, em diferentes suportes. Há 15 anos, criou a editora Pato Lógico para poder fazer os livros que queria e como queria, começando a construir um catálogo que está entre os mais coerentes desta nova vaga de editoras portuguesas que trabalham, de diversos modos, livros com imagem. Regressou agora a Macau mais de trinta anos depois da primeira vez para participar na 14ª edição do Festival Literário Rota das Letras, e foi aí que conversámos sobre uma carreira já longa, um modo de pensar os livros, uma forma de criar histórias e universos que não quer ficar dependente das leis férreas do mercado ou de uma ideia sobre o que devem ou não ler as crianças – e os adultos que não têm medo de mergulhar em livros onde há mais do que letras.
Trabalhas na área da ilustração há mais de três décadas. Como te relacionas com essa longevidade laboral?
Penso nisso da mesma maneira que penso nas coisas da vida, não é… O tempo vai passando. E penso de várias maneiras, porque às vezes sou confrontado com coisas que fiz nesse passado, coisas que prefiro não ver, que foram feitas em momentos muito diferentes do funcionamento do mercado, deste ecossistema editorial.
Coisas que renegas?
São coisas que fiz à pressa, houve anos em que acho que fiz doze livros! Em alguns casos porque eram aquelas colecções da Zero a Oito, e aquilo era feito em cadeia, logo à partida. Mas depois, sobre isso, se calhar ainda fazia mais. Provavelmente houve anos em que fiz catorze ou dezasseis livros, é uma loucura! Voltando ao início, eu andava nas Belas Artes e comecei a ser ilustrador por acaso.
Eras o paginador do Jornal de Letras, certo?
Ante ainda de entrar na faculdade, sim, porque tive um ano de paragem forçada, com um exame de Físico-Química atrasado. Portanto, nesse ano, enquanto estudava para o exame, entrei para o JL. E apesar de já ter alguma experiência de contacto com os jornais, por causa do meu pai [José Jorge Letria], porque às vezes ia com ele para O Diário quando era pequeno, aquilo foi extraordinário.
Porquê?
Só mais tarde percebi, mas aquilo tinha sido uma formação desde que me lembro, quando não tinha aulas, ou ao fim da tarde. Lembro-me da sala dos telexes, do barulho das máquinas de escrever, do convívio dos jornalistas, que naquela época era fascinante. E havia uma coisa à qual só mais tarde dei valor, embora na altura já me fascinasse, que era a gráfica, mesmo por baixo do jornal. E ali estavam as máquinas e os tipógrafos, os impressores, que eram uma outra fauna, uma classe à parte, com quem fui aprendendo coisas sem saber. Ainda vi coisas a serem impressas com tipos móveis, apesar de já haver rotativas. Quando fui para o JL, sem saber já levava essa memória, e senti que era uma sorte porque era um local de convívio cultural. Por exemplo, o Eduardo Lourenço passava por lá para entregar os textos e ficava a conversas com quem estava. E outros escritores, artistas, pintores, gente que ia ser entrevistada. E depois, como o JL era um bocado pré-histórico, apesar de já haver computadores para paginar os outros jornais do grupo, nós ainda fazíamos aquilo com umas folhas de maquete, grandes, usávamos uma calculadora para fazer a relação entre o número de caracteres e o espaço, alinhávamos, por aí fora. E aí aprendi imenso, com o Miguel Eduardo Serrano, e foi extraordinário. Foi uma escola.
Isso influenciou a tua relação com as artes gráficas, a ilustração?
Eu não sabia, naquela altura, porque aquilo era um emprego, mas sim. Depois entrei na faculdade e fiz os dois caminhos paralelos, o que me levou a não acabar o curso. Eu era preguiçoso em várias coisas e não consegui encontrar um sentido para a faculdade. Imaginei que ia ser pintor, artista, mas não conseguia perceber, não tinha nada para dizer. No jornal, o José Carlos Vasconcelos, director do JL desde sempre, criou a certa altura uma secção na última página em que havia contos de autores portugueses. E como eu estava na faculdade, ele pensou que eu podia fazer umas ilustrações para acompanharem os contos. E comecei a fazer ilustrações para o Mário de Carvalho e o Urbano [Tavares Rodrigues], os dois primeiros e de que me lembro bem.
É aí que começa de uma forma consciente esse trabalho que parte da relação entre texto e imagem?
Sim. Na verdade, aquilo era tudo muito empírico, porque não havia escolas de ilustração. Só se falava disso num trimestre da disciplina de Desenho, com o Pedro Saraiva, que achou que o desenho também podia servir para aquilo. Depois, no JL e nas editoras com que fui trabalhando, fui fazendo sem saber o que estava a fazer; ia aprendendo à medida que ia cometendo erros. E entretanto, a ligação com o meu pai é inevitável e o trabalho mais regular de ilustração começa com ele. Depois passou a ser uma actividade regular, de tal maneira que achei que a faculdade já não fazia sentido, até porque eu já lá não ia. E tornei-me ilustrador.
Isso foi numa altura muito diferente em termos de mercado e até de percepção do que é a ilustração.
Sim, era um meio muito diferente do que é hoje. Não se pagava da mesma maneira, havia pagamento à cabeça, ou seja, recebias um valor único, mesmo que os livros viessem a ter não sei quantas edições, e a ideia de contrato era uma miragem. Por outro lado, eu ainda pintava tudo no papel, claro, aliás, essas ilustrações para o JL eram em aguarela, coisa que nunca mais usei. E as coisas foram andando, ainda trabalhei no JL durante alguns anos e tinha de fazer muitos livros para aquilo ser um sustento, e mesmo assim não chegava. Mais tarde, comecei a perceber que era preciso fazer outras coisas, participar em eventos, aceitar convites para coisas de design que eu nem sabia fazer, mas que eram uma fonte de rendimento. E havia sempre a noção de que tudo aquilo era uma descoberta e que eu estava sempre a tentar perceber o que podia fazer de uma forma diferente. Lembro-me de um convite da editora Âmbar para fazer coisas mais autorais, em que era eu que concebia tudo, ou podia sugerir. Foi assim com os Animais Fantásticos e com os Versos Para os Pais Lerem aos Filhos em Noites de Luar, que são uns livros grandes, com um formato pouco normalizado, que talvez outras editoras não aceitassem naquela altura. A Âmbar tinha uma vantagem, para além da vontade de experimentar, que era a de ter uma gráfica própria.
Aí tiveste consciência de que essa herança toda que tinhas recebido, das gráficas, das conversas com os tipógrafos, da paginação do JL, tinha influência no que fazias e até no modo como querias fazer?
Com algumas coisas, acho que sim, até porque eu usava as máquinas de um certo modo porque sabia como elas funcionavam e o que podiam fazer. Por outro lado, sempre tive uma falta de confiança grande quando era preciso dar o passo para a concepção gráfica propriamente dita. Mas acabou por surgir de forma clara a certeza de que para ser ilustrador não basta pensar na imagem que se vai desenhar, criar, é preciso perceber o processo todo. Mas, enfim, quando chegava à parte de decidir questões design, a escolha da fonte, eu não tinha confiança. E quando chego aos Versos de Fazer Ó-Ó, percebo que me apetece fazer aquilo tudo como deve ser.
E esse até é um livro premiado.
Sim, recebeu o Prémio Nacional de Ilustração. Mas é um marco para mim porque eu já conhecia o Jorge Silva, graças ao João Paulo Cotrim, da altura em que tinha feito um livro com texto da Luísa Ducla Soares, sobre as bibliotecas, que se atrasou imenso porque eu não sabia bem o que havia de fazer quanto ao design. Nessa altura, foi preciso uma espécie de plano de emergência e o Cotrim disse que íamos falar com o Jorge Silva e que eu tinha de o conhecer. A partir daí, nunca deixámos de conversar sobre quase todas as coisas que fui fazendo. E ele lá me ajudou a resolver aquilo, e fizemos um livrinho com a forma de uma casa, que ainda por cima nem tinha título na capa, coisa impensável… E fui sempre aprendendo muito com o Jorge, simplificando as coisas, percebendo as relações com o espaço na página, e quando quero fazer os Versos de Fazer Ó-Ó, peço-lhe ajuda.
É relevante notar como o Jorge Silva marca várias gerações de ilustradores e o próprio modo de fazer livros com imagens em Portugal.
Não há dúvida! Nessa altura eu não tinha confiança nenhuma para decidir, mas não tinha vergonha de ir bater à porta dele e pedir ajuda. E com ele aprendi que é preciso pensar noutras coisas para além das imagens. As guardas, a maneira como se muda de página, tudo isso. E com os Versos de Fazer Ó-Ó foi assim. Para além disso, acho que também houve uma coisa importante, que foi a descoberta da Livraria Francesa, em Lisboa, aonde chegavam livros extraordinários, muito diferentes daqueles que conhecíamos. Lembro-me de ver os livros das Éditions du Rouergue e pensar que afinal era possível fazer outras coisas, de outra maneira.
Os Versos de Fazer Ó-Ó publicam-se numa altura em que várias mudanças de fundo estão a acontecer no mercado editorial português, nesse capítulo dos livros pensados para a infância.
Sim. Por exemplo, em 1998, um ano antes desse livro, há o Salão Lisboa, mais uma vez, coisa associada ao Jorge Silva e ao João Paulo Cotrim, e esse é um marco essencial para se perceber como se chega ao panorama da ilustração de hoje. É o ponto de encontro de pessoas que trabalhavam em jornais e para editoras, ou em publicidade, onde se conversa e se começa a perceber que há gente sem contratos, que se pode receber direitos, por aí fora. Na altura eu já era sócio da SPA [Sociedade Portuguesa de Autores] e já tinha um bocado essa consciência e era um dos que dizia aos outros para não fazerem as coisas sem contrato, sem receber direitos. Para além disso, no Salão Lisboa começamos a ver o trabalho uns dos outros, porque estava tudo ali, o João Fazenda, o André Carrilho, o Gonçalo Pena, cujo trabalho me fascinava. E depois há um cruzamento de linguagens que hoje percebo melhor: eu andava em Pintura, nas Belas Artes, e ao contrário da maior parte dos ilustradores usava acrílico sobre papel, tinha umas quantas referências mais surrealistas e havia uma transposição desse universo que se via mais nos trabalhos editoriais, dos jornais e das revistas, para os livros infantis.
Quando começaste a publicar em livro os teus trabalhos tinham esse traço distintivo das cores muito densas, texturadas, às vezes quase empastadas…
Sim, era isso, eram essas influências todas, da pintura, de alguns ilustradores, das experiências da faculdade. E não era só a questão da técnica, mas também a questão simbólica.
Como assim?
Passei a fazer nesses livros para os miúdos uma coisa que não via muito, que era uma linguagem mais metafórica na ilustração e isso foi uma coisa que começou a interessar-me muito e que gosto cada vez mais de explorar, ainda hoje, e que tem tudo a ver com essa relação entre o texto e a imagem. Para mim deixou de fazer sentido estar a representar as coisas que o texto já descreve. Além disso, comecei a fazer também muita ilustração para poesia e aí o uso dessa linguagem simbólica e metafórica é quase uma imagem de marca. As imagens com esse tipo de característica e a relação com o texto criam outra coisa, outro tipo de publicação. E foi isso que quis explorar cada vez mais. Depois, a certa altura, começo a perceber que se continuasse a ser ilustrador freelancer, talvez não conseguisse levar as coisas mais longe.
E é aí que entra a editora, a Pato Lógico?
Sim. A ideia já estava a sedimentar-se há algum tempo…
A tua ideia inicial era criar uma editora para poderes publicar os teus livros, fazendo o que quisesses, ou era também a de criar um catálogo com outros autores?
Começa por ser um desejo de liberdade criativa pessoal, nunca perdendo de vista a hipótese de poder trabalhar com outras pessoas, mas era muito a ideia de “quero fazer isto e não me apetece estar a dar satisfações” e de fugir do medo do que não vai vender, ou de que é muito caro fazer assim, ou de que é muito escuro para ser para crianças, ou tem muitas páginas. Eu sentia essa limitação e começou a haver vontade, mas havia o problema de não haver dinheiro. Entretanto, aconteceu um percalço que resolveu isso.
Queres contar?
Sim, no fundo foram duas coisas que correram mal. Uma delas foi o facto de eu ter feito um conjunto de ilustrações para uma editora, todas pintadas em acrílico, e o livro foi publicado, mas o tempo passou e eu não recebi os originais de volta, mas também não me lembrei disso durante algum tempo. Há uma altura em que telefono para lá para perguntar pelos originais e eles não sabiam, tinham-nos perdido, aquilo tinha sido impresso numa gráfica que entretanto fecho. E pronto, fez-se um pedido de indemnização e eu recebi mais dinheiro do que alguma vez tinha ganho por fazer um livro.
Isso é muito irónico.
Pois é, mas é essa a origem da Pato Lógico. E isto associa-se a outro caso, que é a republicação de uma colecção de livros clássicos portugueses em versão de bolso, feita por um semanário da nossa praça, usando as mesmas capas e as mesmas ilustrações que eu tinha feito, mas sem me pedirem autorização, sem sequer avisarem. Eu vi aquilo porque li um anúncio à colecção. E aí, pronto, entrou a SPA com uma providência cautelar e por aí fora. E pronto, chegou mais dinheiro que eu pude usar para a editora. Eu já andava a pensar em fazer alguma coisa, mas assim, em vez de fazer um desdobrável, ou outra edição muito barata, pensei em fazer um livro e começar.
E é aí que surge o Vamos à Luz.
Sim, porque pensei que fazer um livro sobre o Benfica ia ser um sucesso, que aquilo ia vender aos milhares, mas foi uma desgraça total… Já passaram 15 anos e ainda hoje tenho uma parte da edição por vender.
Tendo em conta o tamanho do Benfica e a paixão dos adeptos, o que pode ter corrido mal?
Acho que há um ecossistema editorial e de mercado que não permite que isto funcione assim. Primeiro, eu pensei que um determinado tipo de distribuição era suficiente e contei com a Fnac, que tinha distribuição centralizada, e depois contar com a loja do Benfica e as Casas do Benfica. A primeira apresentação do livro foi pô-lo à venda no jogo de apresentação da época que ia começar, era o Benfica-Mónaco, com 55 mil pessoas no estádio, com uma amiga minha que se ofereceu para ficar na loja naquela tarde com os livros, porque eu não estava em Lisboa, e no fim do dia tinham-se vendido quatro livros! Portanto, foi um início desastroso. Ainda por cima, fiz quatro mil e quinhentos exemplares para a primeira edição… Se pensarmos que são 6 milhões e tal de adeptos em Portugal, bastava que 1% tivesse comprado para aquilo ser um sucesso editorial, mas não aconteceu.
Deixando de lado esse falhanço comercial do início, a verdade é que a Pato Lógico tem construído um catálogo muito coerente e que os livros circulam, não só por Portugal, e se vendem.
Sim, é verdade, não foi tudo mau, foi só o início. Aliás, mesmo que a editora acabasse agora, e não tenho planos para isso, haveria sempre uma vitória para celebrar que era a de ter vivido 15 anos com isto a funcionar, sem dívidas, tratando bem os autores, por aí fora. Isso é muito bom. E também é um bocadinho ilusório, porque a editora não sobreviveria se fizesse só estes livros.
Há uma série de parcerias e de outras coisas que vocês fazem.
Sim, se não fosse isso, talvez pudéssemos fazer um livro por ano, mas ficava por aí. A editora sobrevive por causa dessas várias outras coisas, de clientes como a Imprensa Nacional – Casa da Moeda, com quem temos uma parceria, e outros. Às vezes, livros feitos com o investimento exclusivo da Pato Lógico, pode ser só um num ano, já aconteceu, mas como fazemos vários com a INCM, e o esforço e a dedicação são os mesmos, parece que são seis ou sete num só ano.
Depois de 15 anos de editora, esse processo de conceber todos os livros de raíz e pensá-los nos mais ínfimos pormenores alterou o teu trabalho artístico, a tua forma de pensar e criar imagens?
Sim, sem dúvida. E acho que alterou logo desde o início, como se eu tivesse encontrado uma base sólida para estar à vontade, sobretudo em relação à questão do tempo. Acho que essa é a grande diferença entre os dois modelos de trabalho, o de ser ilustrador ou ser também a pessoa que faz e edita os livros, tomar algum tempo para conceber as coisas. E depois há esta ideia… acho que cada vez mais prefiro a palavra autor em vez de ilustrador.
Porquê?
Não é porque ser ilustrador diminua alguma coisa, mas com a editora consigo pôr em prática uma forma de trabalho que não é só a da criação visual e também não é só conceber o objecto, por vezes é também influenciar e definir as regras para quem escreve. Eu tenho uma ideia para o livro que não é muito clara logo no início, e isto também pode ser uma coisa de feitio, porque não é a questão de querer controlar tudo, mas há um projecto que, para caber no projecto editorial mais vasto, tem de ter determinadas características, que sou eu que quero que sejam assim. E isso posso fazer com os livros que somos nós a criar de raiz.
Essa influência sobre, por exemplo, quem escreve, tem acontecido com muitos livros? Porque isso é o inverso do que normalmente se pensa que acontece, que é, no caso de um livro com escritor e ilustrador, ser sempre o escritor a definir as coisas.
Acontece, sim, porque é um trabalho em conjunto. Por exemplo, no trabalho com o meu pai, quando fizemos A Guerra, aconteceu isso. E esse é um livro que eu sei que dificilmente faria noutro sítio, noutro contexto.
Como é que foi esse processo?
O livro levou quatro anos a ser feito. O meu pai já tinha escrito aquilo há algum tempo e eu pedi-lhe para guardar o texto para mim. Quando peguei no texto para começar a tirar notas e a definir alguma coisa, dei por mim a sentir necessidade de contar uma história, apesar de o texto ser uma série de versos sem ordem fixa. E quando entrei nesse caminho, percebi que já não podia sair dali, mas também que aquele texto já não servia. Chegou a esse ponto! Falei com o meu pai, levei-lhe um storyboard com a sequência das imagens e sugeri que fizéssemos de outra maneira.
E ele reagiu bem?
Sim, e aderiu logo àquele desafio, fazendo uma coisa que a maior parte dos escritores não está habituada a fazer que é inverter o processo, ou seja, ter uma base visual e tem de escrever a partir daí. E foi um processo muito educativo para mim e para ele. É sempre preciso descobrir, em cada projecto, quais são os caminhos para se chegar aonde se quer. Por exemplo, com o Ricardo [Henriques], quando fizemos o Jean, John e João, sobre as invasões francesas, foi aquele processo de ping-pong de um lado para o outro depois de visitarmos os sítios e definirmos algumas ideias. Com este último, o Como Criar uma Biblioteca, com a Inês [Fonseca Santos], eu tinha uma história pensada e andava há muito tempo a pensar fazer um livro sobre uma biblioteca, que até era, no início, uma história mais fantástica, mas depois gostei daquela coisa simples. E depois disse à Inês que a base era aquela e que era preciso uma coisa que funcionasse noutra camada, mas que deixasse aquele espaço livre para o leitor, porque é quase como se fosse um triângulo: temos quem escreve e quem ilustra, mas falta o leitor, que está exactamente ao mesmo nível, porque aquilo só se junta pela mão de quem lê. E a editora parece-me a única forma possível de fazer isto.
Estás em Macau pela segunda vez, sendo que a primeira foi há uns 30 anos. Como é que vês a cidade, que memórias te traz este regresso?
Sim, foi ali em 1991 ou 1992. A possibilidade de vir cá era uma coisa que eu tinha muita esperança que pudesse concretizar-se, porque essa outra viagem foi a minha primeira viagem de avião, e logo para vir parar ao outro lado do mundo e largado numa realidade totalmente diferente. A ideia que tenho é que foi um choque imenso e isso deixou-me um fascínio que ainda mantenho pelo Oriente, apesar de até vir com alguma regularidade, não para Macau, mas para outros sítios. É um regresso ao passado de várias maneiras, porque me faz recordar aquele período em que tinha 18 anos e vim com o meu pai, tendo sido recebido numa cidade totalmente diferente desta. E depois, como gosto de História, é um regresso ao passado nesse sentido, também ao passado colonial e da presença portuguesa pelo mundo, que é algo que levanta muitas questões sobre a história difícil que isso gerou. Sinto-me muito bem aqui, tenho de dizer, e muito bem acolhido.







