CRÓNICA

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Dora Gago

 

Paraísos artificiais

 

“Conseguiste resolver tudo em Nova Iorque? Podemos agora ficar juntos nos próximos meses?” Quincy exprime-se num inglês fluente, embora, por vezes, lhe misture algumas palavras de tailandês, como se esse cocktail linguístico a tornasse mais sedutora e misteriosa. Algumas vezes, tenta adivinhar pelos gestos o que as palavras não dirão… Na verdade, o seu maior talento não é propriamente o dom para as línguas, mas sim a arte da sedução, com a qual sempre derrubou as mais diversas barreiras culturais, graças a uma imaginação sem limites e a um poder de entrega notável, independentemente das circunstâncias.

“Não, sabes, não é fácil resolver tudo, há demasiadas coisas, imenso trabalho e sempre novos problemas a surgirem. Desta vez, vou ficar aqui uma semana. Já não é mau, certo?”.

Ele tem mais vinte anos do que ela. Conheceram-se ali, em Bangkok, há quatro anos. Ele vinha a uma reunião da empresa e ela era recepcionista no hotel onde ficou alojado. Um problema com a canalização no quarto dele e todas as diligências necessárias para resolver o incidente aproximaram-nos.

Na outra vida, lá do outro lado do mundo, é casado, tem um filho. Para não ficar em desvantagem, Quincy engravidou também. John (insistiu em arranjar-lhe um nome americano, embora tivesse também um outro tailandês, para reafirmar a sua vertente ocidental) tinha agora dois anos e ficou entregue aos cuidados da avó naquela semana. Pensou que um filho seria mais um factor a pesar na balança e a incliná-lo para aquele lado do planeta. Contudo, enganara- se. A vida dele não mudou assim tanto. Claro que  passou a pagar-lhe uma pensão generosa. Desconfiaria a mulher dele daqueles encontros? Da existência do filho? Daquela vida dupla? Do êxtase do marido ao aterrar em Bangkok e correr para o hotel de cinco estrelas mais próximo do aeroporto, onde ela o esperava para se amarem, como se cavalgassem o fogo dos dias e das noites, no ritmo rubro e sem limites das paixões clandestinas?  Talvez não soubesse ou nem quisesse saber. Ele era rico, podia sustentar as duas famílias sem problema. E no fundo, a ela, embora gostasse de representar o papel da amante esperançosa, ingénua e decepcionada, tanto lhe fazia, desde que a mensalidade não falhasse na conta bancária. O resto eram contos de fadas e histórias sobre o amor para gente que não teve de começar a ganhar a vida aos onze anos, como ela. Portanto, o velho americano que venha quando a idiota da mulher ou a obsessão pelos negócios lho permitam. Ela garantir-lhe-á os instantes de prazer, com os quais ele nunca sequer sonhou e isso bastará.

“Querido, sinto tanto a tua falta” e encena mesmo uma lágrima teimosa ao canto do olho. Ele, como já faz parte da rotina, abraça-a, sussurra- lhe palavras doces e leva-a a jantar ou almoçar num dos melhores restaurantes. A escolha é sempre dela. E depois do jantar ou do almoço, enlaçados na cama do hotel, ele sente dificuldades em acreditar naquele seu Paraíso artificial – tão distante de Nova Iorque e dos ciúmes da mulher, a quem telefonará dentro de algumas horas, quando a diferença horária o permitir – para  simular a saudade  e um  ainda mais falso desejo de regresso aos Estados Unidos. “Sem ti, o tempo não passa, querida! Esta semana aqui na Tailândia parece-me um ano, não vejo a hora de regressar”. Isto enquanto pesquisa na internet, a fim de encontrar a casa que quer comprar em Phuket – o  seu Paraíso ficará ainda mais completo naquelas praias. Ela aguarda a compra,  para se instalar com o filho. Que os ocidentais são voláteis, os homens infiéis por natureza e dados aos instintos mais básicos, já se sabe. De um momento para o outro, outra mulher mais atraente e mais nova pode começar a habitar-lhe a cama. E que será dela e do filho mestiço quando isso acontecer? Tem  de garantir o futuro.

E num abraço húmido fundem os corpos, numa sinfonia de movimento, de prazer, enterram as máscaras, pois delas é feita a vida, nessa inusitada ponte entre a aparência e a essência, a cruzar os paraísos artificiais.