Edição do dia

Sexta-feira, 17 de Abril, 2026
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
céu pouco nublado
26.9 ° C
26.9 °
26.9 °
74 %
3.1kmh
20 %
Sex
29 °
Sáb
28 °
Dom
27 °
Seg
27 °
Ter
27 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More

      CRÓNICA

       

      Paul French

                   Killmaster: Macao (1968)

      Era inevitável que Killmaster chegasse a Macau. A série literária Nick Carter-Killmaster foi um verdadeiro tsunami de romances de aventuras de espionagem publicados entre 1964 e 1990 – 25 anos, 261 romances! Ou seja, cerca de uma dúzia de livros por ano, escritos por uma equipa de autores (geralmente sob pseudónimo) para serem consumidos por leitores (principalmente) do sexo masculino, em viagens de ida e volta, praias, aeroportos e tardes preguiçosas de domingo. São romances curtos e de estilo vigoroso; duros, cheios de armas, todos de acção, parte dela a acontecer na cama. Certamente mais James Bond do que George Smiley.

      Todos esses romances têm como protagonista um agente dos serviços secretos norte-americanos, que trabalha para uma agência secreta semi-governamental dos EUA chamada AXE, correndo e disparando à volta do mundo, eliminando os maus da fita enquanto corteja belas mulheres pelo caminho. É a emoção de um romance de Fleming, mas com um estilo mais americano do que europeu, suave e sofisticado. Nick Carter, com o nome de código N-3, tem a patente de “Killmaster”, o que significa que pode assassinar à vontade e como bem entender.

      Actualmente, quase ninguém lê os livros de Nick Carter-Killmaster, o que é uma pena, pois alguns deles são muito bons, incluindo o 31º da série, Killmaster: Macao (1968).  Foi escrito por Manning Lee Stokes, um prolífico escritor de pulp fiction que publicou sob o seu próprio nome e pelo menos nove pseudónimos diferentes.

       

      *

       

      Estamos em Londres, nos anos sessenta, e a princesa portuguesa Morgan da Gama está a ser chantageada por um gangster cockney, que a drogou e depois a filmou, nua e em posições bastante comprometedoras. O grande problema é que Morgan da Gama é filha de um político sénior de Lisboa e toda a gente quer o filme para subornar o seu pai –  os angolanos que lutam pela independência, os chineses que os apoiam e os serviços secretos portugueses, que só querem que tudo seja varrido para debaixo do tapete. Depois, o gangster acaba morto, o mesmo acontece com o espião português, o filme desaparece e a princesa cai nos braços de Nick Carter. AXE quer prender todos os envolvidos e organiza um leilão do filme em território neutro – Macau.  É assim que combatentes pela independência angolana, espiões chineses e mafiosos portugueses se reúnem neste “pequeno pedaço verde de Portugal, agarrado ao passado por um tempo emprestado…” Carter dá entrada na estalagem The Sign of the Golden Tiger, na Rua das Lorchas. Macau está prestes a explodir!

       

      *

       

      A Macau de Manning Lee Stokes é uma Macau ligeiramente diferente da que aparece na maioria da pulp fiction anterior à Segunda Guerra Mundial. A vibração sensacionalista da cidade do pecado ainda está presente, claro, bem como a lassidão de ecos mediterrânicos, mas também há uma noção abrangente de que Macau vive um tempo emprestado, emprestado de Pequim que “tomou conta da cidade em tudo menos no nome”. É o território familiar das pulp fictions do pré-guerra ambientadas em Macau, mas agora com aquela camada de frenesim da Guerra Fria. Além do mais, são os anos 60 – a princesa tomou LSD em Londres sem o saber e, de certo modo, todo o romance é uma grande viagem psicadélica a Macau.

       

      Em Macau, misturam-se espiões chineses “vermelhos”, contra-espionagem portuguesa, curiosos agentes secretos britânicos de Hong Kong e “tangares”, pescadores locais que praticavam a pesca furtiva nas águas da China Vermelha e que eram a contratação mais acertada para quem fosse um Killmaster solitário em Macau. Todos querem a princesa e Nick Carter. O casal é perseguido pelo meio dos casinos flutuantes, subindo e descendo as ruelas empedradas da cidade velha e, por fim, na elegante Pousada (ou Villa) Tai Yip Hotel (que existiu em tempos na Avenida do Dr. Rodrigo Rodrigues, por detrás do Grand Lisboa e do Club Militar, e que tinha uma piscina muito popular). É no Tai Yip que se realiza o leilão do filme. É claro que tudo se passa e… mas isso seria um spoiler – basta dizer que Nick Carter sobrevive e regressa noutros 223 livros!

       

      *

       

      Não se sabe ao certo quanto tempo Stokes passou em Macau na década de 1960, se é que passou algum. Mas Killmaster: Macau capta elementos vitais do território num ponto interessante. A cidade baixa está a começar a ser substituída por uma cidade de edifícios de apartamentos de vários andares, algumas torres e casinos muito maiores e mais modernos, centros comerciais, etc. A Macau dos anos 60 é um estaleiro de construção, com as antigas habitações a serem demolidas e o betão a ser derramado nas novas estruturas. A certa altura, Carter encontra-se num estaleiro de construção perto do Hotel Tai Yip, entre as lâmpadas de néon e os filamentos de carbureto que iluminavam as barracas da equipa de construção e das suas famílias (na sua maioria migrantes há pouco chegados de Cantão) – as rádios passam ópera cantonense estridente, os bebés choram, “havia um fedor a urina e a excrementos, a suor e a corpos sujos, a demasiadas pessoas a viver num espaço demasiado pequeno; tudo isto se encontrava como uma camada palpável sobre a humidade e o cheiro crescente a tempestade”.

      A Macau dos anos 60, com os edifícios degradados a perder a sua batalha contra o bolor e o betão em ruínas, as novas fundações para arranha-céus a serem lançadas, os terrenos baldios à espera de promotores, é difícil de imaginar agora. Esse cenário poucas vezes foi registado nas brochuras brilhantes do turismo ou dos anúncios de investimento do governo da época, mas há um sabor de tudo isso na escrita de Stokes em Killmaster: Macau, o que, por si só, faz com que seja uma curiosidade interessante da época e que vale a pena ler.

       

      (Cópias antigas de Killmaster: Macau estão disponíveis on-line, ou podem ser descarregadas como pdf no Internet Archive – https://archive.org/details/nick-carter-killmaster-series)

       

      Ponto Final
      Ponto Finalhttps://pontofinal-macau.com
      Redacção do Ponto Final Macau