Paul French
A triste Macau de Ernest K Gann – Soldier of Fortune (1954)
O romance de Ernest K Gann, Soldier of Fortune (1954), é hoje mais recordado pela sua versão cinematográfica (1955), parcialmente filmada em Hong Kong e protagonizada por Clark Gable e Rita Hayworth. É conhecida a recusa de Hayworth em deixar a América, o que criou alguns problemas na edição do filme. A personagem de Hayward, Jane Hoyt, procura o marido, um foto-jornalista preso na China como espião. Em Hong Kong, não consegue evitar apaixonar-se pelo magnata dos transportes marítimos e contrabandista Hank Lee (Gable). Lee faz o que é decente e acaba por se dirigir a Guangzhou para resgatar o marido de Jane. Depois, retira-se cavalheirescamente para lhes permitir retomar o seu casamento estagnado. Pelo caminho, Jane recebe uma dica de um homem em Macau que pode saber do paradeiro do seu marido. Dirige-se, então, à colónia portuguesa – no filme, um cenário de Hollywood, com o actor Mel Welles a interpretar o jogador e “traficante de escravos brancos” Rocha.
Embora o filme continue a ser bastante conhecido, as 300 páginas do romance de Gann não são reeditadas desde a década de 1980, o que é uma pena, porque é uma boa leitura, com muito mais pormenores do que o filme (para o qual Gann também escreveu o argumento).
Ernest Kellogg Gann era natural de Lincoln, no Nebraska. O seu pai trabalhava no ramo dos telefones e, quando jovem, conseguiu um emprego em Hong Kong a instalar linhas telefónicas. Aos fins-de-semana, visitava Macau e ficava a pensar que devia deixar o negócio dos telefones e dedicar-se à escrita de romances, escrevendo algo que se passasse em Hong Kong e Macau. A vida, no entanto, sobrepôs-se aos seus sonhos. Passou algum tempo a fazer notícias para os cine-jornais e depois trabalhou como piloto de avião, tendo feito a travessia sobre os Himalaias até à China durante a Segunda Guerra Mundial. No pós-guerra, alugou um barco e navegou pelos mares do Sul da China, escrevendo Soldier of Fortune.
*
Jane apanha o ferry Fat Shan, que demora quatro horas, para chegar a Macau, depois de contratar a ajuda do antigo general nacionalista Po-Lin, que afirma conhecer bem o território. A sua missão é encontrar Fernando Rocha, “um português sem valor”, mas um homem que pode saber algo sobre o destino do seu marido. O General Po-Lin sugere a Jane que faça turismo: “Macau vai surpreendê-la agradavelmente. O tempo pára ali… como há séculos… sinto-me sempre tranquilo quando estou em Macau.” Ela, no entanto, insiste em encontrar Rocha.
O Fat Shan entra brevemente em águas chinesas e é parado a meio caminho entre Hong Kong e Macau, com a marinha chinesa a embarcar e a levar o General Po-Lin para a morte. Abalada pela perda do seu guia, Jane passeia de táxi pela cidade – “as flores caíam dos muros que ladeavam as ruas e os portões de ferro forjado só parcialmente obscureciam os jardins diante das casas” – e fica hospedada no Riviera Hotel, que costumava estar no cruzamento arborizado da Avenida de Almeida Ribeiro com a Praia Grande, mas que infelizmente foi demolido para dar lugar ao edifício comercial Nam Tung.
Rocha dirige uma escola de línguas de fachada, a Língua Casa, na famosa Rua da Felicidade. A sua “escola” não passa de um escritório vazio com cortinas imundas. Diz saber o paradeiro do marido de Joana e tenta extorquir-lhe uma “taxa de descoberta”. Jane paga-lhe várias centenas de dólares americanos pela informação. Trancando-a no seu pobre alojamento, dirige-se de imediato para o casino do Hotel Central, logo a seguir à Avenida de Almeida Ribeiro. O Central está degradado, há muito ultrapassado o seu apogeu de antes da guerra – “aqui, os trabalhadores de Macau podiam jogar fantan e chuck-a-luck, ou sentar-se em longas mesas de dados onde faltava apenas uma roda para duplicar as mesas de roleta que Rocha recordava da sua juventude no Estoril”. Nos pisos superiores moram raparigas, há uma pista de dança e uma banda chinesa a tocar jazz americano. Mais acima ainda, “um espetáculo de salão sórdido e uma superabundância de hospedeiras que assediavam qualquer homem que se aventurasse a passar pela porta com cortinas de pelúcia”.
De volta a Hong Kong, Hank Lee fica a saber que Jane confia cegamente em Rocha e está a pagar-lhe. Em Macau, Hank confronta Rocha, recolhe Jane e aceita a tarefa de lhe salvar o marido.
*
Em Soldier of Fortune, Ernest Gann oferece-nos uma visita nocturna a Macau – das requintadas suites do Riviera ao interior desbocado e debochado do degradado Hotel Central, passando pelos empreendimentos duvidosos e pelos habitantes da Rua da Felicidade. Macau é um cenário de Hollywood, mesmo com os sinais de trânsito portugueses e o guitarrista de fado.
A Macau de Gann é um lugar sombrio, uma colónia economicamente empobrecida cheia de segredos e vícios ocultos. Tal como acontece com tantos retratos americanos do território, Gann contrasta esta realidade com a movimentada e dinâmica colónia vizinha de Hong Kong. Ainda assim, com todos os seus casinos, bares e hotéis de fim de semana, Macau é invariavelmente retratada como pecaminosa, mas romântica – recordemos o passeio de fim de semana que os malfadados amantes de Love is a Many Splendored Thing, de Han Suyin (filmado mais ou menos na mesma altura que Soldier of Fortune, em 1955) fazem ao (inventado) Havana Hotel. A Macau do romance de Gann, embora igualmente exótica e orientalizada, é, em última análise, um lugar triste e desolado.
Na Internet, é possível encontrar exemplares em segunda mão de Soldier of Fortune. A versão cinematográfica está disponível no YouTube.






