Paul French
Vanishing Games, de Roger Hobbs (2015)
O thriller em edição de bolso é o herdeiro contemporâneo das histórias que se publicavam nas revistas americanas e europeias de pulp fiction, omnipresentes entre os anos 20 e os anos 60 do éculo passado (muitas das quais foram mais tarde impressas e reimpressas como romances em edições baratas). A acção, o ritmo e o virar de página tinham prioridade sobre o requinte literário. As histórias apresentavam heróis robustos, donzelas em perigo, locais exóticos e desenlaces explosivos. No entanto, enquanto as pulp fictions mais antigas tinham uma queda especial por Macau, os escritores de thrillers posteriores (com algumas excepções notáveis, como Jake Needham, Ian Hamilton e alguns outros) ignoraram escandalosamente o território. Não é o caso do autor de thrillers norte-americano Roger Hobbs.
A figura de Hobbs foi a de uma jovem promessa, um prodígio do mundo da escrita policial altamente cotado e apontado como um dos melhores no final da década de 1980. Tendo crescido na costa leste dos Estados Unidos, acabou por se estabelecer na cidade de Portland, no Oregon, que na altura estava na moda. O seu romance de estreia, Ghostman (2013), ganhou uma série de prémios literários, chegou ao topo das tabelas de bestsellers nos EUA, foi elogiado por autores como Lee Child e acabou por ser comprado pela Warner Bros films. Vanishing Games (2015) foi o livro que se seguiu, considerado pela crítica um romance policial muito bem conseguido – Hobbs tinha acabado de fazer 27 anos. Esperava-se muito, muito mais dele, mas infelizmente morreu de overdose em 2016, menos de um ano após a publicação de Vanishing Games.
O romance é sobre um homem sem nome, ladrão profissional e um mestre dos assaltos, mas que é invisível para o mundo em geral, especialmente para as forças policiais, os serviços secretos e até para outros grupos de crime organizado. Tem apenas uma amiga no mundo – Angela, a mulher que lhe ensinou tudo o que sabe sobre roubar, viver no anonimato e mudar de forma para se manter sempre um passo à frente da lei ou de quem quer que tenha roubado. Entretanto, Angela está em apuros, depois de ter roubado um saco de safiras birmanesas contrabandeadas e milhões de dólares em “Superbills” (as mais perfeitas notas falsas que os falsificadores conseguem produzir, chegando muitas vezes a enganar a própria Reserva Federal). Agora, Angela está escondida num hotel-casino em Macau, um passo à frente dos seus perseguidores, e pede ajuda.
Vanishing Games mantém sempre um ritmo acelerado ao longo do texto. Oscilando entre a primeira e a terceira pessoa, para aumentar a tensão, confirma que o jovem Hobbs era um cultor do estilo bem sucedido. É um truque elegante, mas difícil, este de mudar o foco da tensão a meio do percurso e repetidamente, uma coisa que só mestres como Raymond Chandler conseguiram fazer.
Para além de Angela, há um elenco de personagens secundárias muito interessante – Bautista, um traficante de droga filipino que consegue arranjar o que quer que seja em Macau, sem fazer perguntas, desde uma cara nova a uma metralhadora; Johnnie, o guarda-costas e motorista de Angela, que conhece todos os becos e blocos de apartamentos degradados da cidade velha; Elisheva, uma negociante de pedras preciosas ucraniana na Taipa, que é conhecida por ter conseguido um diamante roubado, ou, na verdade, uma safira; e Laurence, um assassino psicopata que não pode ser detido. Os cenários vão do Cotai ao norte da Taipa, passando pelas fontes luminosas da Estrada do Istmo e pelo labirinto de ruas estreitas nas traseiras do antigo hotel Lisboa.
Algum tempo depois do sucesso de Ghostman, Hobbs viveu na China por um período e nessa altura visitou Macau e escreveu Vanishing Games. Escreve o autor: “Macau é uma cidade de contradições. É uma cidade colonial portuguesa clássica com uma frenética metrópole chinesa de jogo em cima… se não fossem os casinos, Macau seria realmente pitoresca”. Vanishing Games passa-se sobretudo na parte alta da cidade – hotéis de luxo, casinos que funcionam toda a noite. Para os habitantes de Vanishing Games “esta cidade não é mais do que champanhe, carros desportivos e fundos fiduciários”.
Naturalmente, Macau é um óptimo cenário para uma história de roubo de jóias. Como diz Hobbs, “a joalharia é tudo em Macau… Seattle tem cafés, Nova Iorque, pizzarias, Paris, padarias. Macau tem joalharias”. É também um óptimo cenário para um par de criminosos fora do seu meio natural e invadindo o território alheio. A dada altura, o chefe de um gang local diz a Angela: “Agora estás em Macau… deves estar preparada para jogar segundo as minhas regras”.
Vanishing Games oferece muitas perseguições, lutas e tiroteios. Faz lembrar o já clássico filme dos anos 90, Heat, transplantado de Los Angeles para Macau. O ambiente evoca a frase clássica de Robert De Niro: “Não te deixes prender a nada que não estejas disposto a abandonar em 30 segundos se sentires que há pressão ao virar da esquina”.
É assim Vanishing Games, um brilhante livro de 370 páginas, acção ininterrupta, pormenores criminais e as ruas quentes e pegajosas da Macau contemporânea. Infelizmente, Hobbs morreu demasiado jovem e demasiado cedo na sua carreira para se tornar conhecido fora do círculo de escritores e leitores americanos especializados em crime. Mas deixou-nos um dos grandes thrillers não apreciados do século XXI, passado em Macau, que merece ser mais lido.
Vanishing Games, de Roger Hobbs, tem edição norte-americana com chancela da Knopf e edição inglesa pela Corgi.







