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TRAZER O PASSADO À VISTA

 

A partir de fotografias tiradas por soldados portugueses que participaram na Guerra Colonial, A Guerra Guardada (Tinta da China) propõe um olhar feito de muitas abordagens sobre esse passado que carregamos, porque o vivemos ou porque o herdámos. Sobre isso conversámos com as antropólogas Maria José Lobo Antunes e Inês Ponte, autoras do livro e da exposição que lhe deu origem. 

 

Mostrar só um lado dos acontecimentos, controlar as notícias, construir uma narrativa à medida dos interesses próprios, independentemente da realidade: era assim que o Estado Novo ia dando conta da Guerra Colonial a quem estava longe dela. Houve, apesar disso, muitas fugas de informação, algumas resultantes de singelos registos que os próprios soldados portugueses enviavam para as famílias sob a forma de fotografias. Eram registos amadores, feitos sem técnica ou enquadramento que não os ditados pela vontade de guardar a imagem de um momento. E foram milhares estas fotografias que chegaram a Portugal, sendo que muitas delas continuarão guardadas em arquivos pessoais, talvez em gavetas esquecidas. Outras foram resgatadas pelas antropólogas Maria José Lobo Antunes e Inês Pontes para uma exposição, que decorreu em 2023 no Museu do Aljube, em Lisboa. Entretanto, o projecto ganhou novos contornos e A Guerra Guardada – Fotografias de Soldados Portugueses em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique 1961-1974 transformou-se em livro, com chancela da Tinta da China.

Nas suas cerca de cento e noventa páginas, A Guerra Guardada mostra várias destas fotografias tiradas por soldados e enviadas para Portugal. Algumas delas têm um QR Code que permite escutar os seus autores ou as pessoas retratadas falando do momento em que se fez a imagem. Para além das fotografias, há vários outros capítulos, de certa forma acompanhando o percurso e os núcleos da exposição que originou o livro: versos de fotografias, com algumas anotações manuscritas, criações musicais e de outras linguagens artísticas feitas, agora, a partir destas imagens antigas, por Ana Vidigal, Daniel Barroca, Daniel Schvetz, Diogo Alvim, Lino Damião, Patrícia Barbosa e Pedro Lima, e um corpo de textos assinados pelas duas coordenadoras, mas também por Cláudia Castello, Joaquim Paulo Nogueira, Kevin Carreira Soares, Miguel Cardina, Paulo Faria, Pedro Aires Oliveira, Rita Luís e Rui Lopes. O livro inclui ainda uma cronologia sobre a criação científica, artística e cultural que regista boa parte do que se foi fazendo em Portugal depois de 1974 até agora.

Maria José Lobo Antunes contou ao Parágrafo como nasceu este livro e a exposição antes dele: «Eu e a Inês Ponte somos ambas antropólogas e estávamos, na altura, no ICS [Instituto de Ciências Sociais], onde eu desenvolvia um projecto de pós-doutoramento chamado «Imagem, guerra e memória», financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia. Esse projecto era precisamente sobre a representação visual institucional, portanto, oficial, do Estado Novo, e a representação privada que os antigos soldados guardaram das suas experiências de guerra. Desenvolvi esse projecto durante seis anos, andei nos arquivos militares, de defesa, de imprensa, para ver qual era a imagem que até 1974 passava das guerras em Angola, Guiné Bissau e Moçambique, e entrevistei dezenas de antigos combatentes que, dispersos pelo país, acederam a falar comigo e a partilhar as colecções fotográficas deles. Portanto, a ideia da exposição surge a partir de todo este material da minha pesquisa etnográfica e do encontro entre mim e a Inês.» Inês Ponte, a outra coordenadora deste livro e da exposição que lhe deu origem, chegou ao projecto a partir de outras abordagens, decorrentes do seu interesse por Angola, onde há muito tempo realiza trabalho de campo, e não tão ligadas à Guerra Colonial, como contou: «Tinha começado a investigação para um projecto sobre fotografia de etnógrafos que foram para Angola ou que já lá estavam a fotografar. A proposta de colaboração com a Maria José trouxe esses dois interesses, Angola e a fotografia. Claro que a exposição e o livro não são só sobre Angola, mas já havia esse lado de olhar para um território que me interessa e olhar para a fotografia, e a guerra foi, digamos assim, a novidade, e foi um desafio. Interessava-me perceber algo em que ainda não tinha pensado e fazê-lo com a minha própria experiência. Olho para a guerra colonial e de libertação de várias maneiras, enquanto portuguesa, mas também enquanto investigadora que está a olhar para Angola. Isso foi uma mais valia no nosso projecto, porque a Maria José olha para a guerra da perspectiva portuguesa, pensando nas implicações que tem nos territórios, e eu trouxe uma outra dimensão que foi um equilíbrio interessante, porque, não sendo angolana, partilho experiências, ouço pessoas falarem sobre as várias guerras, mas nunca tinha trabalhado sobre a Guerra Colonial e não sei se trabalharia se não tivesse acontecido esta colaboração.»

 

Imagens que mostram e escondem

As fotografias que compõem o núcleo duro de A Guerra Guardada são ponto de partida para várias reflexões sobre o passado, mas igualmente sobre o que fazemos colectivamente com a sua herança. Muitas destas fotografias vêem-se como quem folheia um álbum privado e o primeiro olhar pode devolver-nos momentos suaves, por vezes divertidos, de camaradagem ou descontração na caserna ou noutros espaços. Não há disparos, emboscadas ou mortos e tudo parece muito distante das descrições que vamos conhecendo da guerra. Com o avançar da leitura e a observação atenta das imagens vamos percebendo que esse primeiro olhar não mostra tudo e à medida que se progride na leitura deste livro percebem-se outras realidades, precisamente aquelas que o Estado Novo não queria que circulassem para fora dos territórios em guerra. «Esforçámo-nos, a Inês [Ponte] e eu, por não ir buscar apenas as fotografias mais leves», conta Maria José Lobo Antunes. «Por exemplo, lembro-me da fotografia de um alferes miliciano que conta que foi na tropa que a ideia da nação una e indivisível, onde somos todos iguais e irmãos, desmoronou perante a evidente desigualdade que havia entre brancos e negros… Muitas vezes a imagem não é só aquilo que se mostra, e quisemos que o público tivesse acesso a isso na exposição, e também agora, no livro. A imagem é muitas outras coisas e essa interpretação que é feita no presente, se calhar é bom termos mais dados para podermos interrogar aquelas imagens. O Serviço de Informação Pública das Forças Armadas desde cedo percebeu o poder das imagens para construir a realidade e, por um lado, promoveu a disseminação brutal das imagens de atrocidades cometidas pela UPA e, ao mesmo tempo, tentou controlar de todas as maneiras as imagens que chegavam ao público enviadas pelos soldados. E às vezes era tão simples como censurar a fotografia de um soldado que parecia estar a limpar as unhas, portanto, as tropas tinham de aparecer sempre como apareciam nas fotografias que se vêem na imprensa na altura.»

Uma imagem tão aparentemente inócua como a que mostra dois soldados na Guiné Bissau, em 1971, posando para a lente com duas crianças e um pedaço da aldeia de Bula em pano de fundo não dá conta, por si só, do contexto e das camadas que se guardam no enquadramento. É quando lemos o texto de Luís Mata, a quem pertence a fotografia, nos é explicado que a presença das crianças brincando na aldeia era sinal de que não havia movimentações dos guerrilheiros que lutavam contra as tropas portuguesas; assim que as crianças desapareciam, os militares portugueses sabiam que era o momento de se refugiarem nas valas, preparando-se para o ataque. Várias fotografias como esta, com um sub-texto impossível de decifrar sem ajuda de quem vivia a realidade que as lentes registavam, terão passado o crivo da censura militar e chegado aos familiares que, em Portugal, esperavam o regresso dos seus. Olhar para elas agora permite recuperar esse contexto, questionar narrativas monolíticas, decifrar as muitas camadas de um conflito que durou mais de uma década e não deixar que a passagem do tempo apague a possibilidade dos tantos debates que há por fazer sobre este período da história portuguesa e da história dos países colonizados por Portugal. Nas palavras de Inês Ponte, «este tempo que passou permitiu algum espaço na sociedade para se falar mais do assunto, tendo como contrapartida, infelizmente, o facto de as pessoas que viveram isto em primeira mão estarem a desaparecer. O objectivo do livro é um pouco esse, como já foi o da exposição, o de apanhar estas histórias em primeira mão antes que elas desapareçam e passemos a ter apenas histórias contadas em segunda mão, sabendo que quem conta um conto acrescenta um ponto. Interessava-nos apanhar aqui essa transição, chamemo-lhe assim, em que a geração da pós-memória começa a ganhar espaço e a geração da memória começa a declinar. Isto é um pouco a tentativa de darmos algum material para que a geração da pós-memória tenha alguns recursos para perceber a geração da memória. Esperamos ter conseguido, mesmo sabendo que isto será sempre um trabalho inacabado, que há histórias que não recolhemos, que não mostrámos, enfim…»

 

A Academia e as artes sentam-se à mesa

Se muitas conversas francas entre pais que estiveram na Guerra Colonial e os seus descendentes continuam adiadas, e se os meios académicos nem sempre se debruçam sobre o tema de um modo que possa configurar pontos de partida para debates generalizados, o campo das artes e da criação tem produzido diversos objectos e discursos onde as muitas camadas da guerra se convocam, muitas vezes de formas incómodas. Para Inês Ponte, «as artes têm um poder de dialogar com a sociedade de uma maneira muito mais vasta que as ciências sociais, um artigo académico não é para toda a gente. Claro que algumas peças de teatro também não serão… mas a arte, a literatura, todas as artes que usámos, têm uma capacidade de dialogar com um público mais vasto, mas também temos a mesma crença nas ciências sociais, daí termos textos de historiadores e outros académicos, porque também estas pessoas conseguem alcançar um público mais vasto, mas parece-nos que há um trabalho de mediação, se calhar, de tentarmos que os historiadores sejam mais acessíveis. Muitas das artes que nos interessámos em mapear são algo efémeras, se não houver um catálogo, uma folha de sala, a peça já não se vê… De facto, o que tentámos dar a entender é que mais do que na academia, a guerra foi sempre um tópico nestas expressões artísticas, com mais presença, e se calhar foram essas artes que ajudaram a academia a começar a falar e a investigar certas questões. A questão dos retornados, por exemplo, quanto tempo demorou a ser falada na academia? O mesmo com a questão da violência, porque quando olhamos apara a investigação percebemos o quão tardia é em termos académicos. No fundo, estas artes todas que mapeámos já falavam disso e o nosso interesse era também mapear esta espécie de jogo do gato e do rato, ou seja, como é que a academia e as artes podem ambas ser importantes, porque no caso da guerra, sem uma ou sem a outra ficávamos muito pobres.»

Neste livro temos vários exemplos dessa produção que atravessa a música, a literatura, o cinema, o teatro e outras expressões artísticas e que tem a Guerra Colonial como ponto de partida ou, pelo menos, tema. Nem sempre esta presença se notou nas artes, mas o passar dos anos intensificou-a, talvez porque o tempo é sempre coisa que se exige para olhar de modo seguro para um acontecimento tão traumático. Do lado da Academia, o mesmo parece ter acontecido e A Guerra Guardada acaba por ser, também, um gesto que convoca esses dois campos, o artístico e o académico, esbatendo-lhes as fronteiras. «A academia em geral vive muitas vezes numa torre de marfim e é inacessível a muitas pessoas, pela linguagem, por vários motivos», diz Maria José Lobo Antunes. «A arte nas suas várias formas, o teatro, o cinema, as artes plásticas, a literatura, são mais acessíveis de alguma maneira. Não digo que simplifiquem, não é nada disso! Muitas vezes até complicam bastante, mas provocam uma reacção mais epidérmica, quase. Acho absolutamente fundamental, e por isso fizemos a cronologia, que é uma selecção muito pequena de tudo o que felizmente tem sido feito em torno da guerra, não apenas investigações, mas também produções artísticas muito díspares, e não só sobre a guerra em si, sobre o colonialismo também, que é uma pedra no sapato de todos nós. É importante que a academia, a sociedade civil, as artes convirjam no debate muito grande que é preciso fazer.»

A conversa franca que faltou em muitos jantares de família ao longo das décadas que se sucederam à Guerra Colonial talvez possa acontecer aqui, neste espaço onde diferentes olhares e abordagens convergem para um mesmo objecto, como quem folheia um álbum fotográfico há muito guardado.