
Layla Martínez
Caruncho
Antígona
Tradução de Guilherme Pires
«Desta casa não sai ninguém»
A frase repete-se várias vezes ao longo do primeiro romance da escritora espanhola Layla Martínez. Quando não se repete ipsis verbis, como se cita no título deste texto, é o seu sentido que ecoa em diferentes personagens, umas assumindo essa impossibilidade de fuga, outras ainda no processo de a aceitarem: «Nesta casa todas as portas podem ser trancadas pelo lado de fora. É uma tradição de família, à semelhança de todas as idiotices que as pessoas fazem no Natal.» (pg.8) Caruncho é um dos romances que tem dado à crítica espanhola espaço para falar numa nova corrente literária, o chamado neo-ruralismo, que terá começado a despontar depois da crise económica de 2008 e que dedica um novo olhar, já sem telurismos ou filosofias bucólicas, àquilo a que chamamos (se vivemos na cidade) campo, esse espaço de uma ruralidade que foi sendo abandonada pelas gerações mais novas, mas que não deixou de ser lugar de memória, identidade e, em muitos casos, possibilidade de fuga. Reconhecem-se neste livro alguns destes tópicos, mas a inventividade visceral de Martínez e o seu exímio trabalho literário em torno do rancor, do trauma e das heranças que tudo isto deixa ultrapassa a mera filiação numa corrente, por mais ricas que sejam as leituras possibilitadas por esta definição de um campo temático.
A casa, então, é a de uma aldeia e a sua envolvente é certamente rural, mas longe da visão idílica que tendemos a atribuir (uma vez mais, se vivemos na cidade) a esses espaços onde a natureza ainda manda alguma coisa. A narrativa vai dando voz, em capítulos alternados, a duas das habitantes da casa, avó e neta, e são as suas falas que nos permitem construir o mundo de Caruncho. Por elas passam, em registos dispersos que é preciso ir juntando e comparando, histórias mais antigas desta família, o homem que construiu a habitação com o dinheiro que arrecadou explorando mulheres na prostituição, a mulher que escondeu o marido depois da Guerra Civil e acabou por deixá-lo apodrecer nas entranhas da casa, a filha-mãe que um dia desapareceu sem que ninguém saiba quem a levou, a filha-neta que foi presa pelo desaparecimento de um menino lá na outra casa, onde trabalhava para os senhoritos da aldeia – os mesmos senhoritos cuja família, rica, carregava muitas histórias que se cruzaram com as desta outra família, pobre: «A velha ficou muito transtornada quando soube que eu ia trabalhar para os Jarabos. Julgas que te escolheram porque te querem exibir mas só o fizeram para te humilhar, disse-me aos gritos, desvairada e diabólica.» (pg.82) São essas dores e silêncios acumulados por entre a pobreza e a imperiosa obediência aos homens – pais, maridos, senhores – que vão esculpindo uma narrativa dura, marcada por diferentes discursos directos que são uma catadupa de rancores e não-ditos, atravessados por uma urgência, bem captada na pontuação, que se revela na sucessão de frases onde a luta de classes não é um slogan e onde as sombras vão tomando conta de tudo.
Há um registo fantástico que permeia a narrativa, sem nunca a dominar. Não é de uma fantasia que se trata e os elementos que associamos ao fantástico – desde logo os fantasmas, mas também as aparições de santos, os barulhos inexplicáveis, a possibilidade de prever o futuro – são aqui metáfora para o trauma e modo de lhe aceder verbalmente. Como diz a avó: «A família é isto, um sítio onde nos dão tecto e comida em troca de estarmos presas com um punhado de vivos e outro de mortos. Todas as famílias têm os seus mortos debaixo das camas, a diferença é que nós vemos os nossos, já dizia a minha mãe.» (pg.49) É nesse registo que a casa ganha foro de personagem por direito próprio, respirando, enraivecendo-se, tomando partido e ensaiando vinganças. É a casa o espelho desta herança já repartida, com cada quinhão a ser vivido e percebido de modo individual (porque santos e visões de futuro bem podem anunciar o destino, mas não tolhem o livre-arbítrio das personagens com a eficácia da ordem social, essa sim, senhora das decisões por imposição das possibilidades) e com uma linhagem de mulheres a debater-se para derrubar as paredes, sabendo que nelas se guarda o seu ódio, mas também a sua remota hipótese de vingança.
A metáfora do caruncho que dá título ao livro começa por parecer inequívoca perante uma casa que range e estala e cujas portas e janelas abrem sem ajuda, parecendo querer engolir, umas vezes, e outras vezes cuspir, quem nela habita. À medida que a narrativa progride, revelando o domínio absoluto que Martínez impõe a um enredo complexo e o modo quase impiedoso como desembaraça um novelo que parece compor-se de impossibilidades verbais, percebe-se que esse minúsculo ser que corrói madeiras e fundações está, na verdade, nas personagens e na teia familiar e traumática que compõem sem que sobre isso tenham sido consultadas: «(…) ao acordar tinha dentro de mim um caruncho e não sei se foram as sombras que mo enfiaram entre sussurros pela noite ou se surgiu por minha iniciativa na minha cabeça mas isso não interessa porque nesse preciso momento soube que tinha de tirar da cabeça o caruncho e que ainda não podia despedir-me do trabalho que ainda tinha uma coisa por fazer.» (pg.86) A casa já não é apenas personagem, é as próprias personagens, o lugar onde se amontoaram todos os ressentimentos, as obediências impostas, os desejos de vingança; um imenso trauma familiar feito alicerce, parede mestra, telhado que tudo guarda. Podia ter-se desmoronado, tão grande a corrosão, mas acabou por ganhar vida.







