
O mundo em miniatura
A natureza e o lugar do conto são assuntos de grande discussão sem que, muitas vezes, se chegue a conclusão alguma. A perspectiva tradicional, baseada sobretudo no senso comum, caracteriza o conto pelos mesmos parâmetros da novela ou do romance, residindo a sua especificidade no facto de ser um género mais singelo, onde as personagens são menos trabalhadas, onde o enredo é mais linear, onde tudo é mais simples. O romance seria, deste modo, uma corrida de fundo; a novela seria uma corrida de meio-fundo e o conto seria uma corrida de velocidade. Subentendendo-se deste conceito que, continuando com a comparação atlética, qualquer pessoa é capaz de correr cem metros, já a maratona é assunto para especialistas. No entanto, a prática muitas vezes não comprova o senso comum. A contenção, a concisão exige um esforço inegável. Como escreveu Heine: «Não fui breve, porque não tive tempo». Na realidade, o conto sempre teve como apêndice um outro tipo de narrativas, ainda mais pequenas e aparentemente mais simples, que não sendo consideradas como “conto”, sempre foram consideradas não literárias: os mitos, as lendas, as anedotas, refrões explicados, casos curiosos e muitas outras formas. A pouco e pouco, já neste século, surgiram escritores que, em vários momentos das suas obras, assumiram este formato. Sem designação para este novo género, tem-se-lhe chamado “narrativa breve”. E, ainda hoje, a sua escolha é uma opção algo marginal, tendo em conta que as ideias feitas para com o conto são maximizadas em relação àquele que é considerado um dos seus sub-géneros.
Recentemente, no acaso de um alfarrabista, chegou-me às mãos o livro Dos veces cuento, uma antologia de narrativas breves em castelhano. O título baseia-se no aforismo de Gracián: «O bom, se breve, é duas vezes bom». E de facto, as narrativas antologiadas por Jose Luis González são realmente breves, só em raros casos ultrapassando uma página. Acompanhadas por um texto explicativo da obra do autor e da narrativa em si, essa contextualização é quase sempre maior que a própria narrativa. Esta antologia conta com mais de cinquenta narrativas de autores como Gabriel García Márquez, como os irmãos Grimm, de pontos opostos do espectro político como Tomás Borrás e Eduardo Galeano, romanos como Petrónio, árabes como Ah’med ech Chiruani, incontornáveis como Franz Kafka, desconhecidos como alguns estudantes universitários, e até mesmo anónimos. De acordo com a introdução, um dos critérios considerados para esta antologia, foi o facto das narrativas aguentarem duas leituras. Este critério baseia-se na constatação de a segunda leitura, depois de descoberto o truque, ser bastante mais criteriosa. E, na verdade, todos os textos aguentam essa segunda leitura, e nalguns casos até mesmo uma terceira, uma quarta, uma quinta. Os temas são extremamente diversos, observados por múltiplos prismas. No entanto, uma coisa todos têm em comum: no seu tamanho reduzido, encerram uma profunda unidade que, ao retratar uma situação ou história, nos fornece uma certa cosmovisão.
Neste atlas em miniatura, onde se fala de muito do que constitui o mundo que nos rodeia, utiliza-se um número imenso de técnicas e artefactos literários. Além dos finais imprevisíveis, vulgares em narrativas desta natureza, ou dos contos com animais, que nos remetem directamente para as fábulas, existem também os jogos de palavras, o enredo circular, ou até mesmo a meta-literatura. A questão da fronteira entre poesia e prosa levanta-se também em vários textos, como nas duas linhas de «Tiempo de amor», da autoria de José Javier Alfaro Calvo.
Salientar algumas narrativas é difícil e injusto para as restantes, tal é a qualidade desta selecção. Mesmo assim, refiro a de Gabriel García Márquez onde, em dez linhas, um suicida se lança desesperado de um décimo andar e, ao cair, observando a vida das pessoas pelas janelas, recupera a esperança e o desejo de viver, sendo no entanto, demasiado tarde. Igualmente em dez linhas, Alfonso Sastre relata-nos a história de um personagem, Yanajido, oriundo de Nagasaki, que está de visita aos seus familiares em Hiroshima no dia do bombardeamento e que, abalado com a tragédia, apenas quer voltar imediatamente para Nagasaki. Sabendo-se que o bombardeamento de Nagasaki aconteceu três dias depois do de Hiroshima, não conseguimos deixar de temer por Yanajido, de ter vontade de avisá-lo; depois, quando nos apercebemos de que já passaram mais de cinquenta anos e que Yanajido é uma personagem literária, não conseguimos deixar de colocar uma série de questões: Yanajido poderá ter existido? A sua história seria possível? E, subidamente, as dez linhas do texto alargam-se para as linhas infinitas do nosso pensamento, e o tamanho do texto deixa de ter importância. Isto é literatura.
Que tamanho deverá ter um texto literário? Segundo esta antologia, meia dúzia de linhas são suficientes. O tamanho de um raciocínio ou de uma emoção.







