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      Identidade pós-colonial de Macau posta à prova num novo estudo

      Um novo estudo publicado por dois professores catedráticos em Macau examina o papel do Arraial de Macau na negociação da identidade cultural no contexto pós-colonial, onde o legado histórico e a realidade económica e política contemporâneas nem sempre estão de acordo.

       

      O estudo académico “O Arraial de Macau: herança portuguesa, jogos sérios e identidade pós-colonial numa cidade turística chinesa” publicado pela professora da Universidade Politécnica de Macau e do Centro de Estudos Portugueses, Vanessa Amaro, e pelo professor da Universidade de Macau, Tim Simpson, investiga o “Arraial na Ervanários” de Macau. O estudo explora a forma como o evento, enraizado na tradição portuguesa mas “reforçado” com tecnologia de realidade aumentada (RA), desempenha um papel significativo na identidade pós-colonial da região.

      O material de investigação foi recolhido ao longo de 16 meses, de Novembro de 2021 até Fevereiro de 2023, e revela as implicações sociopolíticas deste arraial, especialmente à medida que Macau se conserva na sua posição única como uma antiga colónia portuguesa, agora sob soberania chinesa.

      O arraial é um festival tradicionalmente celebrado em Portugal e foi introduzido em Macau como resposta à recessão económica causada pela pandemia da COVID-19. Ao integrar a tecnologia de RA, o arraial foi integral na revitalização do turismo e do comércio local em zonas históricas, atraindo tanto os locais como os turistas do interior da China. No entanto, o estudo levantou questões relativamente às implicações desta transformação tecnológica no património cultural e no discurso pós-colonial.

      Uma das principais questões discutidas no estudo é a forma como a utilização da RA no arraial reinterpreta os símbolos culturais portugueses, num contexto chinês, desvinculando-os frequentemente dos seus significados originais. Por exemplo, o galo tradicional português, o Galo de Barcelos, foi redesenhado com padrões inspirados na arquitectura de Macau, uma escolha criativa que, embora visualmente apelativa, obscureceu o significado cultural original do galo. Esta adaptação, de acordo com o estudo, reflecte uma tendência mais ampla em que os elementos portugueses são reaproveitados para se enquadrarem numa narrativa de harmonia “Leste-Oeste”, potencialmente à custa da sua autenticidade histórica e cultural.

      Nessa mesma linha, o estudo destaca também a forma como os jogos de RA, presentes no arraial e em Macau no geral, “higienizam” o passado colonial de Macau. A título de exemplo os autores apontam para o conflito histórico entre as forças marítimas portuguesas e os piratas chineses, que é agora reimaginado num jogo interactivo de RA como uma batalha contra polvos animados, apagando efectivamente os confrontos e as perdas históricas reais. Segundo os autores, a tendência da RA alinha-se com uma tendência mais alargada em Macau de minimizar a história colonial da cidade em favor de uma narrativa mais harmoniosa, que enfatiza a coexistência pacífica entre as culturas chinesa e portuguesa.

      Apesar destas questões, o estudo reconhece ainda o sucesso do arraial em várias áreas. O arraial atrai um número muito significativo de visitantes, contribui grandemente para a diversificação da economia turística de Macau e apoia o comércio local de uma forma sem precedentes. O arraial proporciona igualmente uma plataforma para os empresários locais, nomeadamente a empresa de design de RA, a apresentarem as suas competências e a contribuírem para a recuperação económica da região.

      Os professores concluem o estudo questionando se o foco do festival no apelo visual e na inovação tecnológica poderá prejudicar as ligações culturais mais profundas que os festivais como o arraial tradicionalmente promovem. A conclusão do estudo sugere que, embora o arraial atraia turistas e promova a identidade híbrida de Macau, este pode também reduzir a cultura portuguesa a símbolos superficiais e ignorar as complexidades do legado colonial da região. Em última análise, os professores apelam a uma abordagem mais matizada da integração da tecnologia nos festivais culturais, uma abordagem que respeite e preserve a autenticidade do património cultural, sem deixar de “abraçar” a inovação.

      À medida que Macau continua a desenvolver a sua identidade nesta época pós-colonial, festivais como o arraial desempenham um papel crucial, mas o seu impacto na memória cultural e no património histórico da região deve ser igualmente considerado.

       

      G.S.

       

       

      Ponto Final
      Ponto Finalhttps://pontofinal-macau.com
      Redacção do Ponto Final Macau