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      InícioParágrafoParágrafo #83O LUGAR DAS COISAS NA CHINA MAOISTA

      O LUGAR DAS COISAS NA CHINA MAOISTA

      Hélder Beja

      A construção da “nova China” idealizada por Mao Zedong baseou-se muito na ideologia e, por extensão, no poder da palavra. Mas a materialidade dos objectos quotidianos também jogou um importante papel. O livro Material Contradictions in Mao’s China reúne uma série de ensaios sobre o tema.

      Material Contradictions in Mao’s China começa literalmente com a divisão de bens entre um casal chinês que decide separar-se em 1973. Para um lado, a estrutura de uma cama, uma mesa, duas panelas, um termo; para o outro, um armário, um vaso vermelho, uma fruteira, dois termos e mais umas poucas coisas. A breve listagem de objectos apresentada por Jennifer Altehenger e Denise Y. Ho, editoras desta colecção de ensaios publicada pela University of Washington Press, demonstra desde logo a escassez de bens quase sempre (e não a descaso) associada à China maoista. Mas demonstra também outra coisa, bem mais importante neste contexto: a relevância e, até, a centralidade daquilo que hoje consideramos objectos banais na vida dos cidadãos chineses durante as primeiras décadas da República Popular da China.

      Em textos que se debruçam sobre matérias-primas e objectos, os vários autores do livro discorrem sobre a cultura material da China maoista. Num contexto de carência, os poucos objectos na posse deste e de outros casais revestiam-se de tremenda importância, até pela dificuldade em substitui-los. «Por terem menos bens não significa que houvesse uma ausência de cultura material», referem as autoras na Introdução. «Estudar a paisagem material da era maoista oferece-nos uma nova forma de estudar o projecto de construção socialista do Partido Comunista Chinês e também o modo como o socialismo chinês foi experienciado na vida quotidiana», acrescentam.

      Do bambu ao tijolo, do cinema e seus acessórios ao design e à comida, esta obra questiona o modo como estes e outros produtos eram obtidos, produzidos e encarados por aqueles que os detinham, notando que «o desafio de resolver as contradições materiais [na China maoista] sublinha que os objectos podem ter um poder que ultrapassa as palavras».

      As diferenças entre a vida nas zonas rurais e nos centros urbanos, a tragédia humana que foi o Grande Salto em Frente e o materialismo dialéctico que encontramos no pensamento de Mao Zedong são alguns dos aspectos abordados para contextualizar os vários estudos apresentados e que partem do pressuposto de que «os objectos formam parte das relações afectivas, sociais, culturais e económicas que compõem a nossa vida».

      O paradoxo do bambu

      O primeiro capítulo de Material Contradictions in Mao’s China é, quase como se tivesse de ser assim, dedicado ao bambu, material por excelência da China, que atravessa o país geograficamente, mas também cultural e socialmente, não olhando a estratos sociais. Através da história e do uso do bambu, Jennifer Altehenger constrói um argumento sólido para demonstrar que «a revolução económica e social do Partido Comunista Chinês tinha um objectivo claro: tornar as massas chinesas mestres da sua própria sociedade, empossando-as com os meios de produção para tal».

      Os objectos de bambu – e a arte de trabalhar o bambu – depressa foram considerados «agentes ideais da construção socialista», por serem práticos, económicos e atractivos. Altehenger apelida o bambu de «material conector», por tratar-se de um material usado desde há muito tempo na China, mas adaptável a às necessidades presentes e futuras; produzido nas zonas rurais, mas usado por todos, simples, mas capaz de servir inúmeros propósitos quando trabalhado por mãos treinadas, económico, mas duradouro e posto ao serviço de toda a população, urbana ou rural. Deste modo, o socialismo não era algo desconhecido; estava escondido nos objectos que tinham estado sempre presentes: peças simples de mobiliário, cestos, cordas e utensílios para cozinhar ao vapor.

      Tijolo a tijolo até à construção do socialismo

      O autor Cole Roskam debruça a sua atenção sobre o tijolo e a importância que este simples objecto teve na construção da «nova China». As «qualidades proletárias» do tijolo, as suas dimensões e, como no caso do bambu, a sua versatilidade transformaram-no no dínamo de mudança e construção de uma nova sociedade utópica praticamente ao alcance de todos – porque todos, até os mais débeis, podiam pegar num tijolo. «Em muitos aspectos, é a história da China», escreve o autor de forma cabal, argumentando que «enquanto material de construção disponível e económico, e um gerador de poder humano, o tijolo [na China maoista] tornou-se imediatamente valioso para a projecção, produção e promoção do novo estado socialista chinês».

      A máquina de promoção e propaganda do regime maoista teve, porém, um aliado bem mais forte que o pequeno rectângulo acinzentado: o cinema. Num fascinante capítulo dedicado às equipas de projeccionistas ambulantes que percorriam o país e aos objectos que carregavam consigo, a autora Jie Li traça a história das imagens em movimento na China como o mais poderoso meio de disseminação da ideologia maoista. Os números falam: em 1949 havia pouco mais de 600 “cinemas” fixos ou móveis na China; no começo dos anos 1980, contavam-se mais de 162 mil unidades de projecção. «Neste sentido, a revolução chinesa foi uma revolução dos media», fazendo uso destas trupes de homens e mulheres que, em condições dificílimas, «electrificavam a nação com propaganda audiovisual». Esta fisicalidade do cinema – das telas, dos pesados geradores, das ferramentas, dos meios de carga – é também revelada na fisicalidade dos próprios corpos que tornavam possível o espectáculo das imagens em movimento: «De facto, estas unidades de projecionistas não carregavam apenas um gerador de energia – elas eram geradoras de energia».