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Terça-feira, 18 de Junho, 2024
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      DESTAQUE/ENTREVISTA

      Sara Figueiredo Costa

      ITAMAR VIEIRA JÚNIOR: FOGO QUE DESTRÓI, FOGO QUE LIBERTA

      ITAMAR VIEIRA JÚNIOR:  «O fogo definiu a história humana, e é essa metáfora que precisa ser salva»

      Com Torto Arado, publicado em 2018, Itamar Vieira Júnior venceu o Prémio Leya, depois o Jabuti, depois o Oceanos. Funcionário público no Ministério da Agricultura, o escritor baiano que escrevia nas horas vagas transformou-se num fenómeno de vendas no espaço de língua portuguesa, primeiro, e depois em vários outros pontos do mundo, à medida que o seu livro foi sendo traduzido. Desse primeiro romance, sairá em breve a tradução chinesa, pela Lijiang Publishing House. Entretanto, depois de um livro de contos – Doramar ou a Odisseia, publicado pela D. Quixote em 2022 – Itamar escreveu um novo romance. Salvar o Fogo não é uma continuação de Torto Arado, mas mantém a narrativa num espaço geográfico comum, projectando uma continuidade histórica que assume a urgência de olhar para o passado e dar algum sentido ao presente que vivemos. Em Lisboa, Itamar Vieira Júnior conversou com o Parágrafo sobre este novo romance.

      Há uma certa ideia de continuidade entre Torto Arado, que partia da herança cultural afro-brasileira e do peso da escravidão, e Salvar o Fogo, onde a igreja católica assume um papel importante e onde a posse da terra se vai configurando como instrumento de poder e domínio. Apesar de serem duas narrativas totalmente distintas, reconhece uma ideia de continuidade?

      Sim, inclusive tem uma personagem, a Maria Cabocla, que surge nos dois livros. Enquanto eu escrevia Torto Arado, comecei a perceber que eu não ia dar conta de tudo o que eu queria narrar sobre essa história. Sentia particular interesse por esta personagem, a Maria Cabocla, mas não havia espaço naquele livro sem tornar a coisa um pouco confusa. Aí, já naquele momento, comecei a me preparar para escrever essa segunda narrativa. Já tinha muitas anotações, como a ideia do mosteiro, que existe, de facto, embora já esteja desocupado há quase um século. E essa paisagem de Salvar o Fogo é muito familiar para mim, porque é de onde vem a minha família paterna, meus avós, bisavós, meu pai, que chegou a nascer na cidade, mas foi levado para essa localidade que não é a Tapera, porque a Tapera é imaginária, mas para as margens do rio Paraguaçu. Então, muita coisa da minha memória, da minha vida, das coisas que se contavam em casa tem uma relação muito forte com essa paisagem. Daí, voltar a esta história, porque este ainda é o meu campo de interesse, e estou pensando nas narrativas de romance: o de imaginar o quanto nós somos a terra, o quanto a terra, o chão que a gente pisa, a casa onde vivemos, as ruas, o quanto isso é vital para a condição humana.

      Depois de Salvar o Fogo, haverá um terceiro livro, compondo uma trilogia?

      Sim. Salvar o Fogo nos mostra este rio Paraguaçu, que é ancestral, que nasce na Chapada Diamantina, e a história deste romance está no meio do caminho desse rio. E o rio desagua na Baía de Todos os Santos, onde está Salvador. Então, penso que a história vai confluir para lá, com novos personagens, mas ainda assim atravessada por esse sentido de continuidade.

      Lendo os dois romances, Torto Arado e este Salvar o Fogo, essa ideia de continuidade do rio reflecte-se também na continuidade histórica.

      Claro. Tem uma frase em Torto Arado, naquela parte narrada pelo espírito, a Santa Rita Pescadeira, em que ela diz: «Foi cavalgando o seu corpo que eu descobri que o passado nunca nos abandona.» Nós vivemos aqui hoje, eu, você, e podemos achar que tudo ocorre de uma maneira espontânea, mas às vezes esquecemos que somos fruto de um processo histórico, e o nosso passado, o passado dos nossos ancestrais, do nosso país, do nosso lugar, de alguma maneira define nossas histórias no mundo. A ideia é essa. Não é um tratado sociológico, é literatura, mas a ideia é de que com a vida dessas personagens a gente possa adentrar um pouco o peso que esse passado tem em nossas vidas. Não é um peso determinista. Sempre estou imaginando o passado, tentando reflecti-lo, para que a gente possa ter um presente diferente e projectar um futuro diferente daquilo que foi.

      Há uma série de referências neste novo romance a esse passado, na sua dimensão histórica, mas não há uma referência temporal que nos permita situar a narrativa de forma fechada. Desconfiamos que a acção decorrerá na segunda metade do século XX, pelos detalhes, mas não há uma datação. Porquê?

      Eu gosto de desafiar, de imaginar que a gente não pode entregar uma história muito definida ao leitor. E estas são histórias que tratam de permanências, de alguma forma, de permanências do nosso passado colonial, escravocrata, daí a gente pensar se tudo isso realmente já acabou… Quando estou falando de colonial não estou falando especificamente de Portugal, mas de um modelo de vida que foi inaugurado naquele período, não só no Brasil; estou pensando no Caribe, na América Latina, nos países africanos. Tem um pensador caribenho muito jovem, o Malcom Ferdinand, que diz que naquele momento inaugurámos um modo viver que ele chama de «habitar colonial», que é um modo de vida predatório, que impacta inclusive nas emergências climáticas, hoje. Essa maneira de explorar, a gente nunca a abandonou e está nos levando por um caminho muito perigoso. Então, quero reflectir sobre tudo isso, daí não entregar de facto tudo definido ao leitor, para que ele se incomode e possa pensar: «Será que é uma história de hoje ou do passado?» Há pistas, mas a ideia é criar esse espaço de desconforto, levar o leitor a pensar sobre se estamos mudando, de facto, ou ainda estamos amarrados a uma maneira de viver que foi criada há muito tempo e que a gente não soube superar.

      Apesar de acreditarmos que tudo mudou.

      Sim, claro, hoje a gente tem tecnologia, tem tanta coisa, podemos ir de um lugar para o outro… Mas será que no íntimo, no que há de mais profundo em nós, isso mudou de facto? Esse desejo de estar sempre explorando o outro, somos atravessados por tanta coisa… Estou pensando na realidade brasileira, e no racismo, mas não será tão diferente noutros lugares, é uma coisa que atravessa várias sociedades. Parece que o capitalismo não prescinde do racismo. Se prescindir, não tem a quem explorar.

      No romance, quando a igreja chega a Tapera e constrói um mosteiro, instala-se uma nova ordem, que permanece há vários séculos. Este fogo que é preciso salvar é o que escapa a essa ordem?

      Sim, acredito que sim. O fogo tem inúmeros sentidos nessa história, pode significar destruição, mas também rito de passagem. A história humana mudou com o fogo, se pensarmos na humanidade, o facto de podermos nos aquecer, cozinhar os alimentos, isso foi uma enorme revolução. A história da igreja nesta localidade, ela começa no século XVII. Quando os colonizadores chegaram a estes territórios, a primeira coisa que colocaram de pé, antes de se edificar uma casa, foi uma cruz. Essa cruz significou o apagamento de muitos saberes, culturas e crenças que existiam antes. Ao contrário de Torto Arado, aqui em Salvar o Fogo temos uma comunidade conflagrada, dividida. Quem não se adequa aos dogmas cristãos é tudo como feiticeiro, como bruxa, como acontece com a Luzia. É desse maneira que a história se desenrola e eu fico imaginando que a história da Igreja foi definitiva na nossa história.

      Como?

      Ela chega neste lugar e, de facto, domina a vida das pessoas. E ainda hoje tem um peso muito grande. Se a gente for pensar no passado, a Igreja foi grande detentora de propriedades e toda vez que ela tinha domínio de uma propriedade, muitas pessoas que podiam estar vivendo dessa terra ficavam de fora. Ainda hoje há algumas comunidades no Brasil que têm conflitos destes com a igreja católica, por causa da terra. A Igreja foi grande detentora de escravizados no Brasil, isso mostra o peso que teve para definir nossa história, daí ela surgir como esta personagem de Salvar o Fogo, com o peso dessa história. E esta mulher, a Luzia, ela começa por ser completamente subserviente, porque inclusive assume que é a Igreja que permite que ela não seja morta, hostilizada. Por isso vai lavar a roupa do convento. Mas aos poucos, ela vai percebendo que as coisas não são bem assim, e há um sentido transcendental na existência dela, coisas que não consegue explicar, meio como visões, epifanias, e vai descobrindo que Igreja é esta, que personagem é esta, e vai se libertando. O Brasil é um país profundamente religioso… no caso deste livro, é a igreja católica, mas a nossa vida hoje está muito definida pelas igrejas neo-pentecostais, que têm um peso imenso na política, dominam boa parte do congresso nacional, ditam a nossa vida. A questão do aborto, por exemplo, continua a ser ilegal e milhares de mulheres morrem todos os anos por puro preceito religioso. A igreja neo-pentecostal esteve em peso para eleger Bolsonaro, era um aliado muito forte. Então, isso mostra o quanto a religião e a vida cristã ainda pesam no nosso quotidiano. Mas o fogo é metáfora para muitas coisas, inclusive o desejo humano, que nós chamamos de fogo. O fogo definiu a história humana, e é essa metáfora que precisa ser salva, que precisa ser guardada.

      Esta é uma narrativa marcada pelo trauma, diferentes formas de trauma, das histórias de Moisés e de Luzia ao trauma colectivo deixado pela colonização, pela escravização de pessoas. Esses traumas individuais decorrem dos colectivos?

      Faz todo o sentido, sim. A partir da individualidade dessas personagens, eu como autor quis chegar num lugar maior, falar de um colectivo, de uma história colectiva. Quando ocorre a situação que traumatiza Moisés, não é uma situação única, ela está acontecendo com outras crianças, e é um pouco uma metáfora sobre a experiência religiosa canónica no Brasil. E de certo modo, reflecte o que aconteceu quando a Igreja chegou à América e encontrou sociedades que desconhecia e que brutalizou. O corpo do Moisés é, então, um corpo colectivo, é metáfora desse colectivo. E o mesmo acontece com Luzia, uma mulher solteira, que jamais seria aceite como mãe num lugar daqueles, regido pela Igreja.

      Ao longo deste romance, Luzia vai-se transformando num ponto de ligação cada vez mais forte com o passado, com a História. Há aquela passagem em que ela entra no rio e sente que o rio, que vem dos seus antepassados e continua a correr, é ela própria. Como escritor, ambiciona ser um pouco como a Luzia?

      Não sei se chega a ser uma ambição, mas é um desejo guardado, que carrego comigo. Estar imerso na escrita e na leitura foi algo que agarrei em definitivo na minha vida, porque não é um processo apenas de feitura de um livro, mas de auto-conhecimento, de acesso a coisas que talvez, se eu tivesse uma outra forma de viver, jamais conseguiria acessar. E não consigo ter medo de acessar nada disso, prefiro ser essa pessoa que reconhece que o fogo é um perigo, mas ainda assim quero guardá-lo, porque lá na frente ele pode ser necessário. Digo isto de uma maneira metafórica, claro, mas o que posso dizer é que sempre saio diferente de cada escrita, e também de cada livro que eu leio. Gosto daquela máxima de Heráclito que diz que ninguém se banha no mesmo rio duas vezes. Da mesma maneira somos nós. Primeiro, um livro escrito é apenas um livro; ele promoveu uma transformação em mim, mas essa história só ganha vida quando encontra o corpo do leitor. É o leitor que projecta as personagens, a narrativa, e isso exige muito engajamento. Esse engajamento permite uma alteridade, uma empatia com a vida do outro, e isso é poderoso. O mesmo Malcom Ferdinand de que falei há pouco diz que parece ter havido um altericídio, a morte da possibilidade de alteridade, de co-existir com o diferente. E acho que a literatura vai contra isso, porque ela nos oferece essa possibilidade.

      Em Torto Arado há uma luta pela fala, pelo direito à palavra, que atravessa o livro. Neste Salvar o Fogo, há uma luta pela terra em diferentes dimensões, pela recuperação de uma memória que não seja apenas a da História oficial, um pouco como acontece também no conto que dá título ao livro Dorimar e a Odisseia. Em todas essas narrativas, são quase sempre as mulheres que assumem essas lutas e as levam por diante. Porquê?

      Primeiro, porque eu nasci numa casa em que as mulheres eram as personagens fortes e se fixaram no meu imaginário como pessoas que carregavam uma força imensa, descomunal, porque eram atravessadas o tempo todo pelo patriarcado, pelo machismo. Era muito paradoxal observar que elas eram vítimas de violência e ainda assim não baixavam a cabeça, levantavam sua voz contra a opressão, contra tanta coisa. Depois, trabalhando como servidor público, pude caminhar por lugares onde as coisas ainda são mais frágeis e encontrei mulheres no campo que também estavam na linha da frente, ameaçadas de morte, e não baixavam a cabeça. E depois há esse evento definidor da nossa história, o colonialismo, que foi planejado, gestado e executado por homens, ou seja, ele é atravessado por uma maneira patriarcal de ver o mundo. Se a gente está tentando desconstruir essa maneira colonial de habitar o mundo, então vamos atacar o patriarcado e devolver o protagonismo da História para as mulheres.

      Perto do fim deste romance, há uma passagem que descreve a chegada dos homens brancos e tudo o que acontece a seguir, e quando Luzia olha para esse passado, diz-se que ela começa “a tecer um cobertor para estender sobre a Tapera”. Revê-se nesse mesmo gesto como escritor?

      Claro que sim. Não sei se meu cobertor é bonito, ou se vai servir de abrigo para alguém, mas no fim estamos tecendo um cobertor feito de histórias, de passado, mas que também está reflectindo o presente, o nosso tempo, e para isso é preciso ir ao passado e tentar compreender. A Luzia faz isso de uma maneira metafórica, mas também literal, quando ela refaz aquele manto de penas…

      Esse manto, que é uma herança cultural dos Tupinambá, como surgiu na narrativa?

      Ele foi inspirado numa história real, e no fim do livro agradeço a Glicéria Tupinambá. Acredito que parte da minha família tem origem Tupinambá, pelo contexto e pelas histórias que fui escutando. Mas estava falando da Glicéria, que começou a viajar, a participar em congressos, por causa da liderança indígena, e aí, visitando um museu na Europa, ela encontrou um manto Tupinambá. Há seis mantos desses, nenhum no Brasil! Estão todos em museus europeus. Ela ficou pasma, porque era uma coisa de que os mais velhos falavam, mas já não sabiam mais como era. Aí ela fotografou o manto e regressou o Brasil, e no início da pandemia, decidiu que ia refazer esse manto, que agora está no Brasil. O mais importante foi o processo, porque é o resgatar de uma história que foi negada a ela e às pessoas como ela. É muito isso que a Luzia vive dentro da vida cristã que destinaram a ela, mas aos poucos vai-se apropriando das lembranças e das visões de mundo do passado e decide refazer um manto como esse. Acho que a parte que eu mais gosto do romance é quando a Luzia refaz o manto e o veste, tornando-se um pássaro e rindo da ideia do que os outros vão pensar quando a virem. Vestir o manto é isso, é se libertar, resgatar uma história. E é uma história que talvez tenha sido retirada também da minha família, da minha gente, por isso me sinto bem quando imagino vestir metaforicamente esse manto.