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      InícioParágrafoParágrafo #83Perdidos e achados na selva de Herzog

      Perdidos e achados na selva de Herzog

      Como quase todos os grandes artistas, Werner Herzog é um homem de fixações. Sentimo-las nas suas palavras e nos muitos filmes que realizou: interessam-lhe os mistérios que ainda restam no planeta que habitamos, a natureza e as suas manifestações nos lugares mais remotos e intocados; o correr do tempo; a morte; o passado e a sua relação com este presente avassalador; as vidas mais singulares. Herzog é indiscutivelmente um dos grandes artistas do nosso tempo, no cinema e na escrita e, através de todos os meios de expressão que utiliza, no pensamento. Tudo aquilo que o seu talento abraça transforma-se em arte. Foi assim também com a história de Hiroo Onoda.

      Conhecendo (ou achando que se conhece) um pouco o carácter de Herzog, não espanta que este alemão se tenha deixado fascinar pela história do militar japonês que passou mais de 30 anos escondido na ilha de Lubang, nas Filipinas, recusando render-se, acreditando que a II Guerra Mundial prosseguia e que o Japão continuava a bater-se contra os terríveis Estados Unidos da América. A guerra pessoal do tenente Onoda ganhou fama internacional nos anos 1970, quando foi descoberto e devolvido a um mundo tão diferente daquele que conhecia, e teve recentemente direito a adaptação cinematográfica – Onoda, 10 000 Noites na Selva (2022), o filme de Arthur Harari, ficciona a história deste guerrilheiro e dos seus companheiros, evitando a espectacularização e o drama barato. Vale bem a pena. Quanto a Herzog, teve oportunidade de conhecer Onoda nos anos 1990, depois um inusitado episódio em que, quase sem querer, recusou encontrar-se com o Imperador do Japão. Desses encontros com o estóico combatente nipónico nasceu o livro O Crepúsculo do Mundo, relato breve e apaixonado de uma aventura pessoal e de certo modo transmissível através destas páginas livremente inspiradas nas memórias de quem a viveu.

      A narrativa arranca em 1974, quando, depois de algumas tentativas goradas por parte das autoridades, o explorador Norio Suzuki consegue alcançar Onoda e começar a convencê-lo de que é tempo de voltar a casa. Recuamos depois a 1944, ano em que o jovem tenente recebe ordens secretas para ficar para trás após a retirada das tropas nipónicas de Lubang, para manter a sua posição e para tal usar todas as técnicas de guerrilha necessárias.

      « – As suas ordens são as seguintes – diz Taniguchi. – Assim que as nossas tropas abandonarem Lubang a sua missão será manter a ocupação da ilha até ao regresso do exército imperial. Manter a defesa deste território com tácticas de guerrilha, custe o que custar. Terá de tomar todas as decisões sozinho. Ninguém lhe irá dar ordens. Ficará entregue a si próprio. A partir de agora não haverá regras, são suas as regras» (p.24). A mão livre de Herzog recria todos os diálogos mantidos entre Onoda e os seus superiores, entre Onoda e os três militares que acabam por acompanhá-lo até perecerem. Ao lermos as suas palavras, podemos adivinhar-lhe o desejo aventureiro de passar anos e anos afundado na selva, munido de umas poucas provisões, enfrentando à vez a carestia de alimentos e a violência dos elementos, arredado das cidades, do betão e das tecnologias, próximos dos animais e das suas estratégias de sobrevivência.

      A admiração de Herzog por Onoda e por aquilo que o rodeia em Lubang é evidente: «(…) nos longos anos que se seguirão, Onoda irá defender-se uma e outra vez como a criaturas da natureza: tornando-se invisível como as borboletas que mimetizam as cascas das árvores, como os peixes que adaptam a sua cor à das pedras do leito do rio, como os insectos que se parecem com as folhas verdes das árvores, (…) ou como a cascavel que desvia a atenção do coelho face ao perigo mortal com o chocalho da cauda.» (p.33). E conclui: «Engodo, táctica de guerra, mimetismo, tudo elementos que Onoda quer aprender com a natureza, sejam eles honrosos ou não, tão-só subordinados às vantagens na guerra e aos objectivos do seu combate. Em vez de atacar frontalmente, de bandeira na mão, quer tornar-se invisível, transformar-se num pesadelo intangível, uma bruma pejada de perigo, um rumor.» (p. 34).

      A honra é, aliás, um elemento bem presente nesta breve narrativa. Da relação de Onoda com os outros militares à espada de samurai da família que ele nunca descura, do modo como o japonês tenta manter o seu uniforme apresentável apesar das condições precárias às incursões aos povoados filipinos para conseguir comida, mas rejeitando comportar-se como um saqueador. Naquela selva que «não reconhece o tempo» – um «inferno verde», como lhe chama o militar Akatsu – Onoda vai desaparecendo e reaparecendo como um fantasma vivo, sobrevive ao todo a 111 emboscadas ao longo de mais de três décadas e quando parecem querer esquecer-se dele, eis que um pequeno homem fardado surge a disparar para o ar junto a alguma pequena aldeia, reclamando a ocupação da ilha, reclamando a sua própria existência.

      Herzog considera que «o combate de Onoda, gerado assim do nada, é um acontecimento avassalador, um acontecimento arrebatado à eternidade» (p.51). No final de O Crepúsculo do Mundo, relata brevemente o seu encontro com o tenente japonês e, sem surpresa, sabemos que simpatizaram um com o outro: «(…) nas nossas conversas encontrámos muitos pontos em comum, porque eu tinha trabalhado na selva, em condições difíceis, e falava-lhe de coisas e fazia-lhe perguntas que mais ninguém fazia» (p.104).

      No belíssimo filme Tokyo-Ga (1985), Wim Wenders, outro grande artista, declara a sua paixão por Tóquio enquanto aquilo que a cidade era nos anos 1980 e é ainda mais hoje: um amontoado de edifícios e luzes e máquinas e gente e histórias. Para ele, havia muito para explorar num lugar assim. Para Herzog, diz Wenders nesse breve comentário sobre o seu companheiro de ofício, tudo estaria perdido num lugar assim. Ao lê-lo, percebemos porquê.

      O Crepúsculo do Mundo

      Werner Herzog

      Zigurate

      Tradução de Helena Topa