Huang Qichen
História Geral de Macau – Desde a Antiguidade até 2019
Caminho
Pela primeira vez, pode ler-se em língua portuguesa uma História de Macau assinada por um historiador chinês: História Geral de Macau – Desde a Antiguidade até 2019, de Huang Qichen, chegou há pouco às livrarias, com chancela da Caminho.
No final da década de 90 do século passado, o historiador Huang Qichen dava à estampa, em língua chinesa, a sua História Geral de Macau. Em 2020, uma nova edição dessa obra foi publicada, com acrescentos e actualizações. Agora, quase três décadas depois da primeira edição, a História Geral de Macau foi finalmente traduzida para português, tarefa levada a cabo por Hu Jing, com revisão de Carlos Ascenso André, e publicada pela Caminho, cujo editor, Zeferino Coelho, assumiu a importância de dar a ler este texto a um público de língua portuguesa.
Ao longo de mais de seiscentas páginas, acompanhamos os diferentes períodos da História de Macau, começando na Antiguidade e só muito mais adiante passando pela chegada dos portugueses ao território, que já era povoado muito antes dessa chegada. Uma das ideias centrais deste livro assenta na importância de Macau como entreposto comercial entre os países orientais e ocidentais a partir do século XVI. Não quer isto dizer que o autor desvalorize as questões culturais, patrimoniais, os episódios históricos que marcam a cronologia de Macau, mas sim que, de facto, o território assumiu sempre, sobretudo no contexto chinês, o papel de entreposto comercial e esse é o ângulo privilegiado na abordagem historiográfica de Huang Qichen.
A outra ideia central do livro passa pelo modo como se analisa a presença portuguesa no território. Huang Qichen respondeu a algumas perguntas do Parágrafo, nomeadamente sobre o impacto que este livro poderá ter para o entendimento da História de Macau, uma vez que essa história foi quase sempre contada por vozes portuguesas ou ocidentais. Sobre isso, o autor considera que «os estudos da história de Macau realizados a partir da perspectiva académica chinesa têm dois tipos de impacto na compreensão da história de Macau pelos portugueses: primeiro, ajudam-nos a superar o eurocentrismo e a conhecer a verdade da história de Macau; segundo, proporcionam-lhes uma visão global, própria de uma história geral. Em primeiro lugar, os estudos da história de Macau com origem na perspectiva académica chinesa podem permitir que os portugueses conheçam verdadeiramente a história real de Macau: os portugueses residiram em Macau como arrendatários por 446 anos (1553-1999), pagando anualmente à China cerca de 500 taéis de prata, pagamento que foi suspenso após 1849, resultando em 150 anos de renda não paga (1849-1999). Desde a antiguidade até ao presente, Portugal nunca deteve a soberania de Macau, que sempre pertenceu à China. Com a celebração do Tratado de Amizade e Comércio Sino-Português em 1887, Portugal obteve a administração de Macau, por um período de apenas 112 anos. Esta é a verdade da história de Macau. Além disso, tanto quanto sei, esta é a única história geral de Macau existente na China. A sua tradução e publicação em português ajudará os leitores de língua portuguesa a ter uma visão geral e diacrónica, compreendendo o panorama completo da história de Macau, e a entender mais profundamente as suas transformações históricas e o seu papel central nas relações sino-portuguesas.»
O longo caminho de um livro
A relação de Huang Qichen com a História de Macau vem de longe e conta com vários livros e artigos publicados ao longo dos anos, como nos explicou o professor: «Comecei a dedicar-me ao estudo da história de Macau em 1982, uma vez que a minha especialidade é a história económica das Dinastias Ming e Qing, que naturalmente inclui Macau. Começando pela recolha de fontes históricas, aprofundei a investigação ao longo de dois anos e comecei a redigir artigos sobre o comércio externo de Macau. Em 1991, publiquei, em coautoria, a Compilação de Materiais sobre a História do Porto de Macau (1553-1986) e, posteriormente, publiquei sete monografias, incluindo Quatrocentos Anos da Economia de Macau e As Religiões de Macau. Em seguida, comecei a redigir a História Geral de Macau (Desde a Antiguidade até 1999), tendo dedicado 17 anos de esforço até à sua publicação. Aquando do 20.º aniversário do retorno de Macau, desloquei-me novamente a Macau por dois meses para recolher materiais sobre o novo e pleno desenvolvimento de Macau após o retorno, revi o livro original e redigi a edição revista, publicada em 2020, tendo a edição original sido aumentada para 800.000 caracteres. Pode dizer-se que escrever a História Geral de Macau consumiu 18 anos de trabalho, uma árdua labuta intelectual. Posteriormente, o livro recebeu dois prémios nacionais de prestígio, consecutivamente, em 2021 e 2023, e foi traduzido e publicado em português, estando também em curso a sua tradução e publicação em inglês.»
Para a tradução, a Caminho contou com o trabalho da professora Hu Jing, da Universidade de Universidade Nankai, que descreveu ao Parágrafo como foi o processo: «Esta obra levou quase seis anos, desde a definição do projecto até à publicação oficial. A linguagem do texto original não é, em si mesma, particularmente difícil de traduzir. No entanto, a obra envolve inúmeros conceitos ligados a factos históricos, que exigem o máximo cuidado na tradução – sobretudo para evitar erros básicos que seriam incompreensíveis para os leitores de língua portuguesa, em particular para os académicos dos países lusófonos que venham a consultar este livro. Um exemplo simples: o topónimo “九澳” (Jiu’ao, em pinyin) teve de ser traduzido como “KA HO”, que era a designação usada pelos portugueses na época, e não como “JIU AO” – este é um conhecimento elementar para quem estuda a história de Macau. Assim, a maior dificuldade residiu em localizar as designações originais em português para a vasta quantidade de nomes de pessoas, topónimos, instituições, descrições de acontecimentos e citações directas que constam da obra.» O rigor e as dificuldades enfrentadas não desanimaram Hu Jing, que não teve dúvidas em afirmar que esta foi «uma tarefa árdua, um desafio exigente, mas também uma experiência académica e humana extremamente gratificante.»
Para a maioria dos leitores de língua portuguesa, esta será a primeira vez que contactam com uma História de Macau contada por um autor chinês. O facto de o arco cronológico se estender à fase pós-1999 torna essa abordagem ainda mais relevante, uma vez que o professor Huang Qichen acompanhou o processo de transferência da soberania e os anos subsequentes, fazendo desta a mais completa história do território. Certo é que o autor não continuará a acrescentar capítulos ao livro, como nos disse: «com a idade avançada de 88 anos, já não tenho a energia necessária». Fica entregue às novas gerações de historiadores a continuação desta tarefa de mapear e registar a História de Macau.











