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      InícioParágrafoParágrafo #83MACAU, UM LIVRO ABERTO

      MACAU, UM LIVRO ABERTO

      Juan José Morales

      De uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta maravilhas, mas a resposta que dá às nossas questões.

      Italo Calvino, As Cidades Invisíveis

      Entre os povos ibéricos, os portugueses e os espanhóis, pergunte-se o que cada um pensa do outro. Os portugueses responderão enfaticamente «somos totalmente diferentes!», enquanto os espanhóis dirão «temos muito em comum», ou até mesmo «somos iguais». Nascido e criado em Madrid, eu partilho, naturalmente, da opinião dos meus compatriotas.

      O sentimento de estar em casa é a minha mais querida recordação da primeira viagem a Macau. Estávamos em Setembro de 1995, dias de descoberta sob a luz brilhante de um sol abrasador, e eu surpreso com o quão familiar tudo me parecia, como se já estivesse estado aqui e aqui pertencesse. Esse sentimento caloroso permaneceu comigo e não tem parado de crescer, com Macau a tornar-se uma segunda casa face à residência permanente que mantenho na vizinha Hong Kong.

      Para mim, Macau tem sido um livro aberto. Pela própria cidade, com as suas paisagens históricas, apesar das transformações, e pelas vias intelectuais de aprendizagem contínua que Macau me tem proporcionado. Dois aspectos relacionados com estimularam a minha existência livresca. Um, ter acolhido os encontros históricos entre a China e o Ocidente ao longo dos séculos XVI e XVII, uma época crucial, quando a China se revelou ao mundo através do olhar ibérico. O outro é a literatura portuguesa contemporânea.

      Para quem estude o início da era moderna e as relações entre a China e o Ocidente, Macau é a rosa-dos-ventos de onde partem todos os rumos. Tendo por base este portulano, segui dois compatriotas: Martin de Navarrete, o frade dominicano protagonista da controvérsia dos ritos chineses; e o menos conhecido Diego de Pantoja, um padre jesuíta que acompanhou Matteo Ricci, uma excepção ao Padroado, que impedia os jesuítas espanhóis de entrarem na China. Pantoja morou com Ricci em Pequim e foi ele quem escreveu um memorial ao imperador para obter uma sepultura para o grande missionário italiano. Esse pedido, que viria a ser atendido, significava, na realidade, o reconhecimento oficial da religião católica que os jesuítas há muito procuravam. Expulso da China, Pantoja morreu em Macau e o local em que foi sepultado permanece desconhecido. Quanto a Ricci, o seu túmulo, no cemitério de Zhalan, em Pequim, ainda é visitável.

      Os meus estudos sobre as primeiras relações entre a China e o Ocidente começaram com um livro aparentemente modesto, Macau, de César Guillén-Nuñez, publicado pela Oxford University Press, uma obra que estabelecia aquilo que se pode aprender. Rapidamente, expandi as minhas pesquisas para o comércio dos galeões de Manila, para essa Rota da Prata que pôs em marcha o que conhecemos como globalização. Mas foi esse pequeno volume que me apresentou o grande C. R. Boxer, historiador e poderoso espírito literário cujo legado académico continua a crescer; a que se seguiram ilustres historiadores lusitanos, entre eles os irmãos Jaime e Armando Cortesão, Jack Braga e, mais recentemente, Rui Manuel Loureiro.

      O último livro adicionado às minhas prateleiras, The Praia Grande, Macao, uma edição de autor de Richard J. Garrett, faz uma reconstrução rigorosa da, em tempos lendária, orla marítima que acolheu os navios durante séculos. Dado tratar-se de um livro de autor, é provável que muitos leitores desconheçam a sua existência. Profusamente ilustrado, fruto de um escavar minucioso em materiais de arquivo e nas fontes mais inesperadas, este livro raro evoca aquela que é a característica mais distintiva de Macau – além da fachada da Igreja da Madre de Deus –, e que recentemente desapareceu sem deixar rasto, engolida por uma selva de vias rápidas. Apenas um punhado de figueiras-de-bengala e algumas casas majestosas restam para avivar as lembranças aos que as guardam. Eu tive o privilégio de ver o último trecho da zona ribeirinha. Na minha memória tem o aroma de um sonho, a cidade abrindo-se ao mar e as paredes de granito a conterem as águas castanhas sob um enorme céu em tons de sépia. O mar recuou e o céu é agora menor. É difícil escrever sem uma sensação de profunda nostalgia e indignação.

      E do passado para o presente, da História à Literatura, foi precisamente em Macau que entrei em contacto com a moderna literatura portuguesa em português – antes lera traduções. Os primeiros livros que comprei na Livraria Portuguesa ainda estão nas minhas estantes, e não podia ter começado melhor: Antologia Poética e Mensagem, de Fernando Pessoa, edições bilingues, traduzidas para o chinês por Jin Guo Ping. Não são livros novos, mas publicados na década de 1980: Macau é, há muito, um catalisador cultural. E permanece, com renovado vigor, como uma fortaleza e um oásis cultural.

      Pouco depois, fiz uma descoberta surpreendente – a literatura portuguesa contemporânea –, e aquele que é, para mim, o seu nome cimeiro: José Eduardo Agualusa. O seu desconcertante, pela novidade da narrativa, O Vendedor de Passados, a que se seguiram muitos outros, revelou-me um palco universal, fazendo-me sentir em casa em Lagos ou Lisboa, longe do meu posto avançado asiático. E foi no Festival Literário de Macau – Rota das Letras do ano passado que conheci outro escritor florescente, Bruno Vieira Amaral, tendo lido três dos seus livros de uma assentada. O seu Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa é uma homenagem perspicaz e afectuosa aos mais célebres romances portugueses, um livro precioso, enquanto guia e bom companheiro. Mas é na ficção que Vieira Amaral exibe a sua destreza literária. Em Lisboa, em Setembro passado, sempre Setembro, encontrei Hoje Estarás Comigo no Paraíso, uma leitura por vezes perturbadora, mas gratificante por aquilo que a ficção ou a literatura significam enquanto arte, como um caminho para procurar verdades que não podem ser explicadas de outra forma.

      Macau lê-se como um palimpsesto feito de memórias fragmentadas, com contradições e lacunas, não muito diferente de uma peça de porcelana reparada. História, lenda e mito andam lado a lado. Estas ideias ocorreram-me quando visitei, também em Setembro do ano passado, alguns marcos arquitectónicos. Comecei pelos degraus que conduzem à Igreja da Madre de Deus, com a sua fachada majestosa e intrigante, nunca cansado de interpretar as esculturas e os baixos-relevos esculpidos nas pedras. Perto do extremo oposto da cidade velha, os meus passos perderam-se de São Agostinho para o Teatro Dom Pedro V, a mais antiga sala de concertos de estilo ocidental no Leste Asiático e, para muitos, ainda aquela que possui a melhor acústica. Neste canto isolado, é possível encontrar o silêncio necessário para o recolhimento e a meditação. Meditar é algo que só pode acontecer aqui. Há uma atitude na vida cultural da cidade difícil de encontrar noutros lugares. Eu chamar-lhe-ia sinceridade. Para mim, Macau continua a ser um porto seguro. O perigo não é a transformação que nos rodeia – uma parte razoável desse passado definidor não mudou–, o perigo é nós mudarmos e esquecermos.

      Traduzido do inglês por Helena de Sousa Freitas; originalmente publicado em Seis em Ponto, Contos e outros escritos do Festival Literário de Macau (Praia Grande Edições)

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      Redacção do Ponto Final Macau